quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

SÉRIE SAÚDE : SOBRE A AUTONOMIA DO PACIENTE


Patient autonomy in the therapeutic process as a value for health

Autonomía del paciente en el proceso terapéutico como valor para la salud

Jussara Calmon Reis de Souza SoaresI,1; Kenneth Rochel Camargo Jr.II

IProfessora, departamento de Saúde e Sociedade, Instituto de Saúde da Comunidade, Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, RJ.
IIProfessor, departamento de Planejamento, Política e Administração em Saúde, Instituto de Medicina Social, Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
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RESUMO

No presente artigo analisam-se as críticas à concepção reducionista de saúde e doença da biomedicina, buscando contribuir para um repensar sobre saúde em uma vertente de proposições positivas. Remetemo-nos, sobretudo, à epistemologia de Canguilhem, para destacar pontos fundamentais na discussão sobre saúde, integrando-a a uma nova leitura do conceito de autonomia do paciente no processo terapêutico. O método de análise seguiu a perspectiva do pensamento complexo. Nesta perspectiva, a autonomia caracteriza-se como relativa e relacional, inseparável da dependência. É também condição necessária para a saúde, compreendida em seu sentido mais amplo, como potência auto-recuperadora do organismo humano. Assim, autonomia passa a ser um valor fundamental a ser resgatado e defendido tanto na clínica, quanto no campo das ciências humanas e sociais em saúde. Discutem-se implicações do resgate da autonomia, ainda que como um vir-a-ser, como precondição para a saúde e a cidadania, para a própria vida.

PALAVRAS-CHAVE: relação médico-paciente. autonomia do paciente. saúde. Canguilhem. complexidade.


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ABSTRACT

This paper presents a critical review of concepts of health and disease in biomedicine, as a contribution to the establishment of new and positive health proposals. Our main point of reference is Canguilhem's epistemology, as the basis for highlighting fundamental points in the discussion about health, integrating it with the concept of patient autonomy in the therapeutic process, using an analysis method that takes an approach based on complexity. In this approach, autonomy is relative, relational and inseparable from dependence. It is also a necessary condition for health, in its broadest meaning, as the self-recovering potential of the human organism. Therefore, autonomy becomes a fundamental value to be reinstated and defended in medical practice, as well as in the social and human sciences' field. A discussion of the implications of the concept of autonomy is presented, if only as a harbinger of a future state, as a precondition for health, citizenship and for life itself.

KEY WORDS: physician-patient relation. patient autonomy. health. Canguilhem. complexity.


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RESUMEN

En este trabajo se analizan las críticas a las concepciones reduccionistas de salud y enfermedad, procurando contribuir para el repensar sobre la salud en una vertiente de propuestas positivas. Nos concentramos, principalmente, en la epistemología de Canguilhem para destacar puntos fundamentales en la discusión sobre la salud, integrándola a una nueva lectura del concepto de autonomía del paciente en el proceso terapéutico. El método de análisis siguió la perspectiva del pensamiento complejo. En esta perspectiva, la autonomía se caracteriza como relacional y relativa, inseparable de la dependencia. Es también una condición necesaria para la salud, comprendida en su sentido más amplio, como una potencia auto-recuperadora del organismo humano. Así, la autonomía pasa a ser un valor fundamental que debe ser recuperado y defendido, tanto en la clínica como en el campo de las ciencias humanas y sociales en salud. Se discuten las consecuencias de rescatar la autonomía, aunque sea como un "venir-a-ser", como una precondición para la salud y la ciudadanía, y para la propia vida.

PALABRAS CLAVE: relacion médico-paciente. autonomia del paciente. saúde. Canguilhem. pensamiento complejo.


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Introdução


Entre as contribuições fundamentais das ciências humanas e sociais ao campo da saúde inclui-se a crítica à hegemonia, ainda incontestável, do paradigma biológico e naturalista da chamada biomedicina ou medicina ocidental contemporânea. Além de todas as críticas que vêm sendo feitas em relação à dinâmica do processo de institucionalização e socialização da medicina, estudos indicam a necessidade de reflexões relacionadas às próprias concepções de saúde e doença.

Em 1999, por exemplo, um número da revista Physis foi inteiramente dedicado ao tema "os sentidos da saúde". Em sua apresentação, Birman (1999) reconhece que não apenas estão se produzindo sentidos novos para a palavra saúde, mas também se ordenam práticas outras para o seu engendramento e sua produção. Nos recentes seminários realizados na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) sobre integralidade nas ações de saúde, temas como percepções sobre doença, saúde e cura, relação médico-paciente, cuidado e necessidades de saúde da população estiveram muito presentes, como nos artigos de Luz, Pinheiro e Acioli, por exemplo (Pinheiro & Mattos, 2001). Porém, Coelho & Almeida Filho (2002) continuaram a apontar a dificuldade, do ponto de vista epistemológico, de conceituar saúde: "A carência de estudos sobre o conceito de saúde propriamente definido parece indicar uma dificuldade do paradigma científico dominante nos mais diversos campos científicos de abordar a saúde positivamente" (p.316). Portanto, refletir sobre conceitos como saúde, doença, vida, autonomia continua a ser fundamental em nosso campo, embora - ou talvez porque - na biomedicina ainda seja central a ciência médica, dentro de uma concepção de neutralidade e objetividade que negligencia as dimensões socioculturais presentes também no processo terapêutico.

Com este deslocamento da subjetividade para a objetividade, do respeito aos valores para o estabelecimento de regras e normas "neutras", ocorre um afastamento crescente entre médicos e pacientes, e destes em relação ao seu corpo. Diminui, assim, a capacidade de ação dos pacientes enquanto sujeitos no processo saúde/doença. Desse modo, a biomedicina vem levando ao distanciamento e à objetivação dos pacientes, à deterioração da relação médico-paciente e à perda do papel milenar terapêutico da medicina - como arte de curar - em proveito da diagnose e da ciência das doenças (Luz, 1996). Clavreul (1983) chegou a afirmar que, especialmente no contexto hospitalar, a relação médico-paciente deu lugar à relação entre instituição médica e doença, já que as subjetividades de médicos e pacientes foram excluídas. Porém, importa-nos, sobretudo, neste artigo, analisar a concepção reducionista de saúde e doença da biomedicina, analisar críticas que vêm sendo construídas e trazer contribuições para um repensar sobre saúde na vertente de proposições positivas.

Enfocamos, em especial, a epistemologia de Georges Canguilhem, para esse repensar sobre saúde e doença. De fato, este autor nos parece fundamental para a mudança que vemos como absolutamente necessária a fim de que a política do setor possa se direcionar no sentido da saúde - e não mais da doença -, como tem ocorrido ao longo da história da medicina moderna.

O aporte de Georges Canguilhem

Por ser já um "clássico", O normal e o patológico, de Canguilhem (1995), vem sendo revisitado por muitos outros autores, além de ser referência obrigatória em diversas análises no campo da saúde. No Brasil, as reflexões feitas por Coelho & Almeida Filho em 1999 e 2002 são um exemplo, mas nos permitimos focalizar aqui alguns pontos discutidos mais detalhadamente em Soares (2000), pois trazem importantes subsídios ao tema em questão. Toda a construção epistemológica sobre a vida gira em torno do conceito de norma, fazendo com que vida e norma se tornem um binômio indissociável (Blanc, 1998). Sua démarche permite uma inversão interessante de uma cisão fundamental dentro de uma epistemologia positivista: para esta, o conhecimento se dá sobre um "real absoluto", e não há lugar para discussão de valores. Para Canguilhem, o conhecimento pode ser relativizado, mas há um valor fundamental, ontológico, na própria vida.

No primeiro ensaio de O normal e o patológico, o autor procura definir as condições de possibilidade de uma individualidade biológica, a partir da experiência da doença. Analisa criticamente a teoria médica e a biologia, posiciona-se contra o dogma positivista da doença e afirma a distinção qualitativa entre saúde e doença, entre normal e patológico. O organismo é considerado uma totalidade, e a doença é vista como a expressão de um novo comportamento global do organismo, não apenas como uma parte afetada. A doença é uma experiência vivida por uma individualidade, é criação de uma nova norma. Toda doença se refere a um doente que busca lhe dar um sentido. Daí a importância da perspectiva do doente no pensamento de Canguilhem (1995, p.96):

Achamos que a medicina existe como arte da vida porque o vivente humano considera, ele próprio, como patológicos e devendo, portanto, serem evitados ou corrigidos certos estados ou comportamentos que, em relação à polaridade dinâmica da vida, são apreendidos sob forma de valores negativos.

A normatividade é, portanto, o conceito-chave que permite precisar a distinção entre o normal e o patológico.Autores comoBlanc (1998) vêem, nessa compreensão da normatividade como potência da vida para criar novas normas, uma aproximação com a posição de Nietzsche, para quem a vida, nela mesma, é criação de valor. Vieira (2000) também considera os conceitos nietzscheanos de vontade de poder e de eterno retorno expressão mesma da "grande saúde". É ainda com base nessa potência auto-recuperadora do organismo vivo que podemos fazer uma aproximação de Canguilhem com o conceito de autonomia em Morin (1994, 1996).

Outro ponto fundamental em Canguilhem é sua contraposição ao discurso da cientificidade da Medicina, quando afirma que é a normatividade - e não a ciência - que determina a diferença entre o normal e o patológico; deste modo, o autor não apenas remete à questão da autonomia do indivíduo doente, mas também distingue medicina de ciência. A citação a seguir é bastante ilustrativa de seu pensamento:

Ora, a clínica não é uma ciência e jamais o será, mesmo que utilize meios cuja eficácia seja cada vez mais garantida cientificamente. A clínica é inseparável da terapêutica, e a terapêutica é uma técnica de instauração ou de restauração no normal, cujo fim escapa à jurisdição do saber objetivo, pois é a satisfação subjetiva de saber que uma norma está instaurada. Não se ditam normas à vida, cientificamente. Mas a vida é essa atividade polarizada de conflito com o meio, e que se sente ou não normal, conforme se sinta ou não em posição normativa. (Canguilhem, 1995, p.185-6, grifos no original)

O autor reclama, deste modo, um campo específico da normalidade e da patologia que escape ao domínio da ciência ao considerá-las valores, não aceitando, portanto, pressupostos da biomedicina, que se quer científica, objetiva e neutra. A crítica à visão fragmentada da biomedicina também é feita na afirmação em que conclui que:"(...) a doença de um ser vivo não se situa em determinadas partes do organismo" (p.183).

Esta concepção reforça nossa crítica ao modo de utilização dos medicamentos alopáticos na medicina, cada vez mais desenvolvidos para atuarem em partes específicas do organismo, com a perspectiva de cura das doenças, empobrecendo o potencial da terapêutica, que deveria ir muito além de uma ação pontual para solucionar um problema. A farmacoterapêutica, como definida atualmente, não tem por objetivo atuar sobre o doente, o ser vivo, mas sobre a doença entendida dentro da concepção criticada por este autor. Se tomamos o conceito de cura de Canguilhem - "curar é criar para si novas normas de vida"(p.188) - podemos observar que a lógica da farmacoterapêutica científica utilizada pela biomedicina não se faz no sentido de garantir uma maior normatividade individual. Isto pode levar a uma inversão importante: o ser humano, que deveria ser o alvo da terapêutica, passa a ser mero instrumento ou intermediário da ação da droga sobre as doenças.

Ao enfatizar os conceitos de normal e patológico como valores, Canguilhem critica, ainda, o princípio de patologia dominante na biomedicina, "(...) segundo o qual o estado mórbido no ser vivo nada mais seria que uma simples variação quantitativa dos fenômenos fisiológicos que definem o estado normal da função correspondente" (p.187). Para ele, o estado patológico é um estado normal na medida em que exprime uma relação com a normatividade da vida, sendo, porém, um estado qualitativamente (e não quantitativamente, vale a pena enfatizar) diverso do normal fisiológico, o qual tem normas diferentes. Assim, a patologia não é ausência de norma, mas o estabelecimento de uma outra norma e uma restrição da normatividade.

Não há fatos normais ou patológicos em si. Norma normal é a que exprime a estabilidade, a fecundidade e a variabilidade da vida em grau equivalente ou superior a uma outra norma existente antes. É, portanto, relativa, podendo ser estabelecida por comparação, e não pode ser absolutizada, como tende a ocorrer na biomedicina. Assim,"(...) a anomalia pode transformar-se em doença mas não é, por si mesma, doença" (p.109). Anomalias e mutações apenas comprovam a diversidade da vida, suas múltiplas possibilidades. Mas na biomedicina, elas são muitas vezes consideradas doenças a serem suprimidas diminuindo-se, assim, a diversidade, a diferença, a heterogeneidade.

Homem normal é o homem normativo, i.e., aquele capaz de romper as normas e instituir novas normas, um homem autônomo, diríamos. Em resumo, são estas as principais contribuições do autor: além da própria conceituação de saúde, os conceitos de normal e patológico como valores, o reconhecimento da dificuldade da determinação médica do que seja normal e do que seja saúde, a valorização da perspectiva dos doentes nesse processo e da sua singularidade.

A adoção e a defesa da perspectiva vitalista de Georges Canguilhem ajudam-nos a pensar em estratégias que levem ao uso crítico, ativo, consciente e responsável das diversas alternativas presentes no mundo contemporâneo, sem cair no consumismo acrítico seja de informações, de saberes ou de tecnologias. Buscamos aqui uma releitura da vis medicatrix naturae para o século XXI, o que certamente desemboca na questão da educação e da ética em um plano mais geral, em uma reflexão profunda sobre conceitos e propostas como medicina racional, medicina baseada em evidências, uso racional de medicamentos, eficácia, entre tantos outros que fazem parte do cotidiano dos profissionais do setor saúde. Faz-se necessário, também, um exame crítico de suposições implícitas, quase míticas, como o da onipotência da Medicina, o da medicina como sinônimo de saúde, o da saúde como consumo de produtos e serviços ligados à tecnologia médica. É ainda, neste contexto, que vemos a necessidade do resgate da noção de autonomia, da defesa da autonomia como valor na saúde pensada na perspectiva da complexidade.



Conceitos de saúde em xeque


Berlinguer (1988) já havia feito a crítica da biomedicina, por sua definição e avaliação da saúde como saúde instrumental, baseada em critérios de produtividade ou de adaptação. Outros autores, como Foucault e Swaan, também devem ser lembrados aqui, por suas análises de tais estratégias de intervenção.

Caponi (1997), baseando-se em Canguilhem, traz contribuições interessantes em sua crítica às definições de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da VIII Conferência Nacional de Saúde (CNS). A definição de saúde como "um completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença", mostra a autora, pode legitimar estratégias de controle e de exclusão de todos aqueles considerados indesejados ou perigosos, ao não problematizar os conceitos aí presentes. A definição da OMS não reconhece, tampouco, que os infortúnios e as doenças fazem parte de nossa existência, e não podem ser pensados em termos de crimes ou castigos, como bem analisaram Nietzsche e Canguilhem. Falar de saúde implica falar também de dor ou prazer, reconhecer um "corpo subjetivo", como o faz Canguilhem. Daí este autor considerar que um verdadeiro médico é um exegeta, aquele que pode auxiliar o doente em sua busca de sentido para o conjunto de sintomas que ele está vivenciando e que não consegue sozinho decifrar.

Em relação ao chamado conceito "ampliado" de saúde, definido na VIII CNS e incluído na Constituição Federal em vigor, Caponi (1997) também apresenta uma crítica bastante interessante. Reconhece nele o mérito de enfocar a relação estreita entre saúde e sociedade, mas critica a redução a uma dimensão única determinante e absoluta no processo saúde/doença. Perde-se qualquer referência a uma especificidade biológica ou psíquica da doença, exclui-se qualquer referência a uma dimensão vital, um reducionismo que Canguilhem não faz. Além disso, assim como a definição da OMS, o conceito ampliado da VIII CNS também pode levar à visão de que todos os âmbitos da existência humana possam ser considerados medicalizáveis.

Já Canguilhem pensa a saúde em termos de margem de segurança e tem os erros como ponto de partida. Ele supera a conceituação de saúde como o equilíbrio entre o organismo e o meio, ao afirmar que saúde implica a capacidade de instituir novas normas, uma capacidade criativa. Mas, além de ter a capacidade de auto-cuidado como um elemento central, o conceito de saúde em Canguilhem também deve contemplar, de modo privilegiado, os determinantes sociais, uma vez que o autor considera tanto os valores biológicos como os sociais, ao se referir à capacidade de tolerância para enfrentar as dificuldades.

A nosso ver, a saúde como a capacidade de romper normas e instituir novas normas é um conceito que enfatiza a diversidade, a multiplicidade, a capacidade criativa dos seres vivos, e que deveria estar sendo cada vez mais debatido pela biomedicina em busca de novos caminhos. Mas o que podemos observar é a tendência a homogeneizar, reduzindo ou suprimindo as ambivalências, os múltiplos significados das doenças, dos medicamentos, da vida, enfim. A biomedicina contemporânea não fornece instrumentos para que esse conceito de um sujeito criador de normas possa ser trabalhado. Muito pelo contrário, ela se volta cada vez mais para a doença, ou mais precisamente, para órgãos ou fragmentos com alguma sintomatologia. Como pensar em sujeitos autônomos, quando nem como pessoas esses doentes são considerados?

Jonas (1994) discute como a crescente regulação do social vem levando à perda da autonomia individual, reforçando as análises feitas por Caponi (1997)¸ Foucault (1976, 1980), Swaan (1988), entre outros autores. Outra difícil questão abordada por Jonas é a da oposição entre manipulação tecnológica e manipulação simbólica do indivíduo:

Deveremos induzir atitudes de aprendizagem em crianças de escola através da administração maciça de drogas, ignorando o apelo à motivação autónoma? Deveremos dominar a agressividade através da neutralização electronica de zonas cerebrais? (...). (Jonas, 1994, p.53)

Assim, há uma tensão ética constantemente presente na prática médica, que vem do conflito entre os princípios da autonomia e da beneficência, da diferença entre o respeito pela liberdade e a preocupação com aquilo que mais convém às pessoas, o que remete também à questão de quem pode e deve tomar as decisões.


Novos rumos para a biomedicina

Algumas propostas alternativas vêm emergindo mais recentemente, enfatizando a necessidade de se resgatarem valores como democracia, ética, capacidade crítica e autonomia na medicina, valores que defendemos também como fundamentais para a superação da crise de uma forma construtiva, expansiva. A medicina contemporânea deveria passar, então, a privilegiar sentimentos e valores dos pacientes, de seus familiares e dos profissionais de saúde, todos considerados envolvidos na arte de curar, e a estimular a reflexão em conjunto para as tomadas de decisões necessárias, ou seja, a democratização da relação médico-paciente, resgatando, enfim, sua humanização.

No que se refere particularmente aos modelos de decisão médica, já são inúmeros os estudos realizados (embora, no Brasil, este tema ainda possa ser considerado incipiente) com propostas de democratização das relações entre profissionais e pacientes, de valorização da autonomia do paciente em relação à escolha da terapêutica e dos procedimentos a serem seguidos, de modelos em que pacientes e médicos são vistos como co-responsáveis nesse processo. Tais propostas têm como base estudos empíricos que mostraram a associação entre um maior apoio à autonomia do paciente e melhores resultados, por exemplo, em tratamentos por abuso de drogas, redução de peso e adesão aos tratamentos. Apenas a título de ilustração, podem ser citados, nos Estados Unidos da América, Quill (1983), Brody (1985), Quill & Suchman (1993), Quill & Brody (1996) ou Laine & Davidoff (1996), como autores que vêm investigando essa questão. Quill & Brody (1996) propõem, por exemplo, o Modelo de Autonomia Intensificada, centrado na relação médico-paciente e baseado na competência e no diálogo, em que o conhecimento e a experiência são compartilhados entre pacientes e médicos, em que ambos colaboram na decisão: o médico serve como guia ativo no processo, está pessoalmente envolvido com o resultado e ambos têm responsabilidade conjunta em relação às conseqüências de suas decisões. Porém, embora válidos, a nosso ver, tais modelos se valem, de modo geral, de um conceito de autonomia bastante limitado, restrito ao interior da relação médico-paciente, sem questionar as relações de poder/saber estabelecidas, sem refletir sobre os pressupostos fundamentais dessa racionalidade médica e, assim, sem rupturas ou propostas de transformação dessas relações sociais ou da prática médica hegemônica.

Em sua crítica às políticas sociais de saúde, que exercem controles externos sobre as doenças às custas da perda de autonomia e de autocontrole dos indivíduos, das comunidades e das populações sobre os condicionantes vitais de suas próprias doenças, Dâmaso (1992) propõe uma terapêutica que seja baseada na potência auto-recuperadora do organismo humano vivo, que se oponha ao condicionamento, físico e mental, a medicamentos e demais tecnologias do complexo médico-industrial, consultas, exames, programas e sistemas de saúde. Para o autor, toda política de saúde deve ser política educacional: "'Educação para a vida', eis aí o projeto da política sanitária mais radical e coerente com o desejo humano de autonomia" (p.222). Este é mais um autor que evidencia a necessidade urgente da discussão da autonomia para a superação da crise da biomedicina, no sentido de tornar-se uma medicina mais humana, vitalista, que considere a complexidade, a riqueza e a potencialidade dos seres humanos. Mas, também, uma medicina que reconheça seus próprios limites e possibilidades em relação ao objetivo maior de contribuir para a saúde das populações.

Além disso, porém, defendemos que a prática da medicina deve estar voltada, cada vez mais, para a questão do "cuidado" das pessoas. A ciência e a tecnologia devem ser apenas meios, instrumentos facilitadores do fim das medicinas - sejam elas quais forem - que é cuidar dos seres humanos, contribuindo, assim, para que tenhamos saúde e as melhores condições possíveis de qualidade de vida. É este cuidado com os seres humanos que deveria ser resgatado pela biomedicina, e que as concepções vigentes de autonomia do paciente também parecem negligenciar. É por meio desse cuidado que a autonomia pode se construir, a começar pelo reconhecimento e aceitação das inúmeras redes de dependência que constituem a existência humana. Autonomia implica, também, uma enorme responsabilidade consigo e com os outros. Portanto, ser autônomo não é ser independente, não é ser egoísta, nem individualista, como parece ser uma tendência freqüente na concepção em que vem sendo tradicionalmente trabalhada a autonomia do paciente.

A partir de diversos campos de saber, podemos tecer uma rede de complexidade para uma melhor compreensão das questões envolvidas na autonomia do paciente e o processo terapêutico. Na produção desta rede (construída em Soares, 2000), recorremos a autores que trabalham em uma perspectiva inter ou transdisciplinar, buscando integrar o macro e o micro, o geral e o particular, as inter-relações e interdependências presentes nos processos humanos, autores que vêem o todo não como a completude, mas como um todo relacional, multidimensional, processual e dinâmico, complexo, enfim. Ao procedermos assim, em uma releitura contemporânea do conceito de autonomia com base em conhecimentos construídos na biologia, filosofia, sociologia e na ética fica cada vez mais evidente que tanto a perspectiva da complexidade leva à autonomia, como a autonomia requer e leva à complexidade:

Quanto mais um sistema desenvolver sua complexidade, mais poderá desenvolver sua autonomia, mais dependências múltiplas terá. Nós mesmos construímos nossa autonomia psicológica, individual, pessoal, por meio das dependências que suportamos (...). Toda a vida autônoma é uma trama de incríveis dependências. (...) o conceito de autonomia não é substancial, mas relativo e relacional. (Morin, 1996, p.282)


Por uma concepção complexa de autonomia

O primeiro princípio constitutivo de uma concepção complexa da autonomia passa a ser sua característica relativa e relacional, inseparável da dependência. Seria preciso, portanto, superar uma idéia ou um objetivo de se chegar a uma autonomia absoluta. Pensando isto no processo saúde/doença, significa defender não a autodeterminação do paciente pura e simples, mas, ao contrário, o fortalecimento das relações entre pacientes e profissionais da saúde, entre pacientes e seus familiares, porque essas redes de autonomia/dependência passam a ser vistas como fundamentais para o cuidado e para a saúde. O que é preciso superar é a dimensão autoritária ou paternalista dessas relações e caminhar no sentido de possibilitar a expansão da autonomia à medida que (e na medida em que) avança o processo terapêutico. Quando adoecemos, queremos e precisamos do cuidado dos outros, seja pelo conhecimento especializado que um profissional tem a compartilhar, seja pelo afeto e apoio emocional que tanto os profissionais quanto os amigos e familiares podem trazer. Isto, em si, não diminui a autonomia de uma pessoa doente; ao contrário, pode até fortalecê-la. O que se deveria evitar, entretanto, é que essa relação se torne uma relação de dependência, de sujeição daquele que, em um determinado momento de vida, está mais fragilizado e dependente do outro. Desse modo, na relação médico-paciente (ou nas demais relações sociais), defender a autonomia não é propor a inversão na relação de hegemonia que se tem hoje, mas reconhecer que ambos os sujeitos devem ter espaço e voz no processo, com respeito às diferenças de valores, expectativas, demandas, objetivos entre eles. A relação é - e deve permanecer - heterogênea, diversa, plural, reconhecendo-se, porém, que o sujeito do processo terapêutico é a pessoa doente. As medicinas e as tecnologias médicas, assim como os médicos e demais profissionais, devem se colocar como meios, instrumentos que podem e devem ser utilizados pelos doentes no processo saúde/doença. Estes devem ser estimulados, portanto, a se tornar mais ativos, críticos, conscientes e responsáveis pelo processo saúde/doença, a ter maior empoderamento, como vem inclusive sendo defendido por diversos grupos ativistas do campo da saúde, notavelmente das ONGs atuando em defesa de portadores de HIV e doentes com aids.

Vale ressaltar que considerar o doente como responsável por sua doença não é, de forma alguma, concordar com o discurso que considera a doença uma punição e o doente um "fracassado", "culpado" por sua situação e que, portanto, pode ser estigmatizado, isolado socialmente. Não é, tampouco, responsabilizar o indivíduo para reduzir gastos governamentais com saúde, e/ou para que o governo se libere de suas responsabilidades, como parece ser a direção muitas vezes tomada por políticas neoliberais.

É preciso rever o pressuposto básico da modernidade, o da existência de um indivíduo racional, pois trata-se de um mito. Não se pode falar de indivíduo como isolado do coletivo - tanto Morin quanto Elias (1994a, 1994b) mostram que há de se superar essa dicotomia e pensar em relações complexas, i.e., complementares e antagônicas entre individual e coletivo, um afetando e sendo afetado pelo outro, um produzindo e sendo produzido pelo outro. Tampouco se pode falar de indivíduos puramente racionais: somos Homo sapiens/demens como nos define Morin, conscientes mas, também, inconscientes, racionais e emocionais, objetivos e subjetivos. Sobre esse tema, em uma crítica da concepção iluminista do homem, do racionalismo onipotente e da modernidade de um modo geral, Plastino (1996) também denuncia - entre outras - a unilateralidade de suas concepções centrais sobre o homem e suas relações sociais.

Assim, ao pensar o paciente em sua relação com os profissionais de saúde, teremos de considerá-lo um ser único, individual, mas, também, como um membro da espécie humana, que não pode ser pensado fora da sociedade e da cultura à qual pertence. O mesmo se aplica aos profissionais. Uma vez em instituições de saúde, públicas ou privadas - como é a tendência crescente na atenção à saúde - , há que se considerar mais esse elemento na reflexão. Passam a ser, então, relações atravessadas pelos limites dados por essas organizações e, neste sentido, autores como Illich (1975) trazem contribuições importantes, ao discutirem o processo de contraprodutividade da medicina, que contribuiu para a paralisação das capacidades de autonomia do ser humano.

A autonomia, ainda que como um vir-a-ser, merece ser resgatada como uma condição de saúde e de cidadania, da própria vida, um valor fundamental, portanto, mas que não é nem pode ser absoluta. É relativa e relacional, como dito acima, e deve ser construída em um processo de produção contínua em uma rede de dependências que é bastante maleável e que necessariamente se vê reduzida no adoecimento. Mas ela deve estar sendo construída de modo continuado em sua inter-relação com a dependência no cotidiano da prática. Isto implica, também, a dificuldade em se pensar autonomia no campo da saúde sem ter autonomia no campo mais geral da política e da vida. As relações de autonomia/dependência estão presentes durante toda a vida dos seres vivos, seja no nível dos indivíduos, seja no nível das sociedades, países e até do planeta. Assim, concordamos com Castoriadis (1986), quando a afirma como valor fundamental dentro de um projeto de sociedade democrática e responsável.

Em uma leitura atualizada da autonomia, afirmá-la como valor implica a busca da democratização das relações entre profissionais e pacientes, da democratização de saberes, do reconhecimento, respeito e valorização da multiplicidade, da diversidade e das singularidades, maior responsabilidade e participação dos cidadãos, resgate e valorização da subjetividade e, acima de tudo, de uma ética de solidariedade e responsabilidade. O que nos leva a perguntar,sobretudo em casos de países como o Brasil, como garantir uma minimalidade autonômica dos sujeitos em relação ao seu processo saúde/doença? É possível falar de um paciente autônomo, livre e consciente de suas escolhas, quando os constrangimentos de ordem econômica e social são de tal ordem, de ignorância por falta de acesso à informação, numa relação altamente desequilibrada de poder/saber entre médico e paciente, como é o caso, por exemplo, da relação que se estabelece nas instituições públicas de saúde brasileiras hoje? Quais as condições mínimas que devem ser garantidas em termos de justiça social, de condições de vida, eqüidade, informação, saber, para podermos pressupor a existência da possibilidade de autonomia?

Nessa perspectiva, a informação, a democratização do saber e das relações de poder que são construídas entre profissionais e pacientes, entre Estado por meio das instituições governamentais - e sociedade civil, as questões éticas aí implícitas e a questão de uma maior autonomia dos cidadãos em relação às suas escolhas e decisões passam a ser centrais. Porém, não há que se confundir autonomia com individualismo, nem a liberdade como uma idéia abstrata, descolada do contexto sociocultural e político. A possibilidade de que cada pessoa possa gerir sua própria vida passa pelo conhecimento e reconhecimento dos limites, das alternativas existentes, por uma perspectiva democrática e ética, o que implica respeito ao outro, respeito e valorização das subjetividades, saberes e valores, assim como pela impossibilidade de pensar o indivíduo como independente do coletivo. Ser humano autônomo é aquele que reconhece sua necessidade do outro em todos os planos - afetivo, intelectual, emocional.

Uma outra implicação da defesa da autonomia como valor fundamental em uma sociedade democrática e responsável refere-se à formulação de políticas. Estas não deveriam ser políticas rígidas, mas diretrizes mais gerais que explicitem seus pressupostos e objetivos, deixando ampla margem de flexibilidade para que se possam adaptar estratégias diversas de acordo com as realidades concretas que vão se apresentando. Mas para isso, é claro que há toda uma transformação imensa a ser feita na educação e cultura, uma "reforma do pensamento" (Morin, 1998) que supere a perspectiva disciplinar, o pensamento cartesiano e dicotomias, tais como macro/micro, específico/geral, causa/efeito, individual/coletivo, racional/irracional, objetivo/subjetivo, para propor a compreensão dos processos de construção do conhecimento e o estímulo da capacidade crítica; ou seja, a formação de cidadãos conscientes, responsáveis, informados, em condições de debater, questionar e escolher projetos e participar de sua implementação, que não se deixem submeter às tecnologias e instituições, mas que as utilizem como instrumentos para a ampliação da autonomia.

Um outro ponto importante que surge dessa reflexão sobre autonomia é a necessidade de uma transformação profunda na concepção de saúde/doença, pois um segundo princípio constitutivo da autonomia na perspectiva da complexidade seria a sua emergência como uma exigência necessária para a saúde, compreendida em seu sentido mais amplo, saúde como vida, como potência auto-recuperadora do organismo humano vivo (Dâmaso, 1992), como capacidade de romper normas e instituir novas normas (Canguilhem, 1995). Essa compreensão implica o reconhecimento e a valorização da diversidade, da multiplicidade, da capacidade criativa dos seres vivos, de sua necessidade de inter-relações de autonomia/dependência como condição mesma de vida (Morin 1977, 1980, 1994, 1996). Não há vida sem autonomia. Esta é uma característica de todos os seres vivos, faz parte da compreensão do que seja o fenômeno da vida/morte. Portanto, a terapêutica deveria ter como objetivo atuar no sentido de estimular essa nossa capacidade de autonomia e de cura ou, pelo menos, de criar novas normas (Canguilhem, 1995), para que possa ser considerada, de fato, uma terapêutica pela saúde.

É preciso superar, então, a lógica que vem regendo a utilização de medicamentos na biomedicina, que vem da desconfiança da capacidade da natureza, da crença no poder do homem de controlar a natureza, característica do pensamento iluminista. Como já foi discutido, a famacoterapêutica é ainda desenvolvida dentro da perspectiva da racionalidade científica mecanicista, buscando principalmente estimular ou inibir funções bioquímicas ou fisiológicas no homem para aliviar ou eliminar sintomas ou para alterar favoravelmente o curso de uma doença. Até que ponto os medicamentos vêm sendo utilizados no sentido de estimular a capacidade própria dos seres humanos de se auto-recuperarem ou de instituírem novas normas de vida?

Voltamos, assim, à importância do resgate da autonomia no processo terapêutico e, de modo mais amplo, na vida social, pois vale repetir Castoriadis (1986) - a autonomia é o modo de ser do homem e, portanto, uma política da autonomia deve ser o fundamento da construção de uma outra forma de sociedade.


À guisa de conclusão

Buscamos desenvolver, neste artigo, uma série de reflexões e implicações de um novo modo de ver a autonomia do paciente no processo terapêutico. Apresentamos, a seguir, uma breve síntese, a fim de destacarmos uma série de propostas concretas para a atual política de saúde.

Vimos que a autonomia é o modo de ser do ser humano e, portanto, uma precondição para a saúde e para a cidadania. Sem essa perspectiva, uma política de saúde não pode ser considerada como tal. Assim, a busca da construção da autonomia do paciente no processo saúde/doença passa a ser fundamental. Ela deve ser construída em um processo de produção contínua, em sua inter-relação com a dependência, no cotidiano, mesmo quando limitada como na doença. Assim, sujeito autônomo é aquele que reconhece sua necessidade do outro em todos os planos.

Partindo desses pressupostos, são muitas as implicações para diversos níveis da política de saúde. Em relação ao processo terapêutico em si, destacamos:

. a necessidade de fortalecimento das relações entre pacientes e profissionais, entre pacientes e seus familiares, para além do autoritarismo ou paternalismo;

. o reconhecimento da heterogeneidade, da diversidade das relações, e do doente como o sujeito do processo terapêutico;

. o reconhecimento de que as medicinas e as tecnologias médicas, assim como os médicos e demais profissionais envolvidos são apenas meios no processo terapêutico;

. o estímulo ao empoderamento (empowerment) e a responsabilidade dos doentes, em uma ética de solidariedade, respeito e responsabilidade no processo;

. as relações e os saberes no campo da saúde devem ser democratizados;

. há que se resgatar e valorizar a subjetividade e a dimensão do cuidado na medicina;

. a necessidade de transformações profundas nos conceitos de saúde e doença que são, ainda, a base da biomedicina.

Colocando a política de medicamentos em foco, passamos a ver a necessidade urgente de uma terapêutica que estimule a capacidade criativa e curativa dos sujeitos doentes. Devemos ter diretrizes mais gerais e flexíveis, construídas de forma democrática, no lugar das políticas rígidas, fechadas e reducionistas atualmente em vigor. Não é admissível mais uma proposta de uso "racional" dos medicamentos, já que a racionalidade é apenas um dos elementos em jogo. Se não defendemos a tomada de decisões unicamente a cargo dos especialistas, tampouco devemos cair em propostas de autocuidado medicalizado. É urgente construir políticas e ações concretas no sentido do uso crítico e ativo dessas e das demais tecnologias por cidadãos autônomos.

Entre as implicações mais gerais a partir dessa releitura do valor da autonomia, discutimos a necessidade de construção de condições para a expansão real da capacidade de autonomia no campo mais geral da política e da vida. Para isto, é fundamental a democratização de informações, saberes e das relações de poder, a construção de uma ética de solidariedade e responsabilidade, a necessidade de profundas transformações na educação e na cultura. Vemos, portanto, que há um caminho árduo e bastante longo, mas absolutamente necessário para o avanço da saúde, em seu valor mais pleno e concreto.



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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

SÉRIE SAÚDE : SOBRE O CÂNCER

Revista de Saúde Pública
Rev. Saúde Pública v.42 n.1 São Paulo fev. 2008

Uso de medicinas alternativas e complementares por pacientes com câncer: revisão sistemática

Use of complementary and alternative medicine by cancer patients: systematic review

Cristiane SpadacioI; Nelson Filice de BarrosII

IPrograma de Pós-graduação em Saúde Coletiva. Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Campinas, SP, Brasil
IIFCM/Unicamp. Campinas, SP, Brasil
Correspondência | Correspondence

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RESUMO

O interesse no tema das medicinas alternativas e complementares tem aumentado, principalmente entre pacientes oncológicos. Realizou-se uma revisão sistemática da literatura na base de dados PubMed sobre o perfil dos pacientes que optam pelo uso dessas medicinas e suas motivações. As palavras-chaves utilizadas na busca foram "cancer and complementary alternative medicine" e "oncology and complementary alternative medicine", no período 1995-2005. Os critérios de seleção foram: presença dos descritores no título dos artigos, idiomas português, inglês ou espanhol e terem sido realizados em população adulta. A partir de 43 artigos analisados, concluiu-se que a utilização de medicinas alternativas e complementares é parte do escopo social desses pacientes. Seu uso é importante na construção da identidade de pacientes com câncer, ajudando-os nas decisões em relação ao tratamento convencional.

Descritores: Neoplasias, prevenção e controle. Terapias complementares. Terapias alternativas. Conhecimentos, atitudes e prática em saúde. Revisão [Tipo de Publicação].

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ABSTRACT

Interest in complementary and alternative medicine has increased, especially among oncology patients. A systematic literature review of the profile of patients who choose to use this type of medicine, as well as their motivations, was carried out on the PubMed database. For this search, the key words used were ?cancer and complementary alternative medicine? and ?oncology and complementary alternative medicine?, covering the period between 1995 and 2005. The selection criteria were the following: key words were present in the article title; article was written in either English, Portuguese, or Spanish; and study was performed with an adult population. From the 43 articles analyzed, it could be concluded that the use of complementary and alternative medicine is part of these patients? social scope. Moreover, its use plays an important role in the identity construction of cancer patients, helping them to make decisions related to conventional treatment.

Key words: Neoplasms, prevention & control. Complementary therapies. Alternative therapies. Health knowledge, attitudes, practice. Review [Publication Type].


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INTRODUÇÃO

Apesar dos notáveis avanços realizados pela medicina convencional, tem havido um crescimento exponencial no interesse e no uso das medicinas alternativas e complementares (MAC), principalmente em países ocidentais desenvolvidos. A literatura indica que também em países em desenvolvimento e pobres, as medicinas não convencionais são elemento significativo no tratamento.44

A integração das MAC nos sistemas nacionais de saúde tem sido tema de constantes debates, encontrando importante referência em documentos da Organização Mundial da Saúde (OMS), como "Estrategía de la OMS sobre medicina tradicional 2002-2005",* que preconiza a necessidade de investigações sobre:

políticas de integração nacional dessas práticas nos sistemas nacionais de saúde;
segurança, eficácia e qualidade dessas práticas;
acesso às práticas;
uso racional por profissionais e consumidores.
As MAC configuram, dessa forma, opções em potencial para o cuidado à saúde e não podem ser desconsideradas enquanto prática terapêutica.

O crescimento do uso dessas medicinas é evidente no caso específico de pacientes com câncer. Constata-se o crescimento no número de produções científicas que procuram responder:

à solicitação por pacientes com câncer e familiares de informações em relação à utilização clínica de uma série de intervenções das MAC;
à necessidade de disponibilizar informações nos meios de comunicação, principalmente em relação ao custo dos tratamentos para pacientes com câncer;
ao potencial toxicológico das intervenções em dois momentos: quando as MAC são utilizadas sozinhas ou com tratamentos convencionais;
à necessidade de avaliar a funcionalidade de algumas intervenções e a possibilidade de incorporá-las na prática médica convencional;
à responsabilização de agências governamentais na representação legal desses pacientes.4,6
No entanto, na literatura não foi identificada uma discussão específica sobre o perfil socioeconômico, étnico e de gênero, bem como as motivações dos pacientes para o uso das MAC no tratamento do câncer. O objetivo do presente artigo foi analisar o perfil dos usuários de medicinas alternativas e complementares e suas motivações, a partir da revisão da literatura biomédica sobre o tema.

MÉTODOS

Foi realizada uma revisão exaustiva da literatura sobre o tema, no PubMed da National Library of Medicine para o período de dez anos (1995 a 2005), utilizando as palavras-chave: "cancer and complementary alternative medicine" e "oncology and complementary alternative medicine ".

Os critérios para seleção dos artigos foram: conter os descritores completos ou em parte no título do trabalho; estarem escritos nas línguas portuguesa, espanhola ou inglesa; terem sido realizados com população adulta (19 anos ou mais).

Inicialmente foram identificados 378 artigos, dos quais 115 foram retirados por não terem relação com o tema da revisão, ou por serem duplicatas. Os 263 artigos selecionados foram classificados em quatro eixos temáticos conforme sua análise:

uso das MAC a partir da perspectiva dos pacientes ou de grupos de pacientes (57%; N=150);
terapêuticas das MAC, estudos sobre a comprovação clínica de certas MAC no tratamento do câncer (32%; N=84);
perspectiva dos profissionais de saúde em relação ao uso de MAC no tratamento do câncer (9%; N=24);
relação médico-paciente (2%; N=5).
Foram analisados os 150 trabalhos relacionados à perspectiva dos pacientes, uma vez que neles poderiam ser encontradas informações para responder à questão do estudo. Desses, foram efetivamente incluídos no estudo 43 artigos que tratavam das características e motivações da população que usa as MAC com o tratamento convencional para o câncer.

RESULTADOS

Na análise dos 263 artigos, observou-se número crescente de publicações sobre a relação de MAC e tratamento do câncer.
Analisando os 43 artigos sobre o perfil dos pacientes e as suas motivações para o uso de MAC e a data de publicação , verifica-se que foi a partir de 1997 que começaram a aparecer os primeiros trabalhos com esse enfoque.
Em relação à metodologia utilizada, observa-se que 40 artigos são de natureza quantitativa e três, qualitativa. Os Estados Unidos realizaram mais estudos (30%; N=12), seguido pelo Canadá com (11,6%; N=5) e pela Áustria e Havaí (9,3%; N=4). Não se registrou trabalho em países latino-americanos com esse enfoque.

Os 43 artigos foram classificados de acordo com a principal temática desenvolvida: perfil socioeconômico, clínico, étnico-racial e de gênero dos pacientes que usam MAC; percepções dos pacientes sobre a doença, vivências e experiências; e motivações para o uso das MAC.

DISCUSSÃO

Na análise do perfil dos pacientes que utilizam as MAC, os estudos mostraram que são adultos, com idade entre 30 a 59 anos,5,7,12,14,19,26,28,29,30,38,43 do sexo feminino,11,20,26,27,30,41,43 com elevado grau de escolaridade,3,6,9,14,17,19,20,28,29 renda familiar alta,7,14,19,26,28,29,41 doença em estágio avançado,6,7,23,26,30,37,39,42 participantes de alguma tradição religiosa20 e influenciados etnicamente1,17,19,37 em relação ao tipo de MAC adotado.

Alguns estudos relatam a influência da rede de social dos pacientes – formada por amigos, vizinhos, familiares e profissionais – no acesso e apoio para o uso de MAC, durante o tratamento convencional do câncer.8,9,24,26,35

Os principais tipos de MAC utilizados são: homeopatia,9,24 medicina ayurvédica,8 medicina tradicional chinesa,6,20,41 medicina de ervas1,5,6,14,18,24 (incluindo chás), terapias psíquicas,25,45 terapias espirituais,1,3,14,24,43 grupos de apoio,6,25,26 relaxamento e meditação,3,14,18,24,35,43 dietas (vitaminas e minerais, cogumelos, cartilagem de tubarão, mistletoe)3,5,6,18,23,27,35,43 e reflexologia.41 Esse conjunto de práticas alternativas e complementares necessita ser diferenciado entre racionalidades e técnicas terapêuticas, pois significa a incorporação de elementos de outra racionalidade médica. A homeopatia e a medicina ayurvédica, por exemplo, possuem outra doutrina médica explicativa do que é a doença ou o adoecimento, origem ou causa, evolução ou cura.24,** As demais práticas são apenas técnicas e, portanto, muito mais facilmente incorporadas como complementares aos tratamentos convencionais.

Quanto à percepção dos pacientes sobre a doença, suas vivências e experiências, os estudos mostram que usuários de MAC percebem maior risco de morte ou retorno da doença. Nesse sentido, há estudos que relacionam o uso de MAC ao grau de ansiedade e depressão, mostrando que quanto maior o stress mental, maior a prevalência do uso de MAC. Ou ainda, pacientes que usam MAC têm maior propensão para desenvolver quadros depressivos.26,29,39 Todavia, essa relação ainda não foi suficientemente investigada, sendo um tema em aberto para possíveis investigações sobre a relação entre o auto-conhecimento promovido pelas MAC e o desenvolvimento de sintomas depressivos.

De maneira geral, os pacientes percebem o uso das MAC de maneira positiva, como úteis e não tóxicas, acreditando que propiciam uma mudança no estilo e na qualidade de vida, influenciando positivamente os rumos da doença.2,32 Outra percepção significativa relaciona-se à sensação de maior controle sobre o corpo e o próprio tratamento após usarem alguma MAC.10,16,21,29,36,41,46 Os estudos mostram que é grande o número de pacientes que usam alguma MAC após o diagnóstico de câncer. 9,15,16,24,26,47

Em relação às motivações para o uso das MAC foram identificados motivos biológicos, psíquicos e técnicos. Os primeiros relacionam-se com o aumento e a habilidade do corpo para "lutar" contra a doença,13,24,45,46 promover o fortalecimento do sistema imunológico,9,24,34,35 aliviar os efeitos colaterais provocados pela quimioterapia, criando uma esperança de "cura"5,8,9,35,41,46 e de prevenção do retorno da doença.1,9,24,40,45 Em relação à motivação psíquica foram descritos a promoção de bem-estar, o controle do estresse e a melhora da qualidade de vida.2,5,6,9,14,23,27,46 Os motivos técnicos para o uso de MAC no tratamento do câncer estão estreitamente ligados à insatisfação com o tratamento convencional,1,8,12,36,37 principalmente os efeitos secundários e a interação que se desenvolve com os profissionais,33 além do processo de autonomia e humanização promovido pelas práticas não convencionais.

A literatura analisada no presente trabalho reconhece o perceptível aumento no uso de MAC por pacientes com câncer, embora as aceite apenas como prática complementar a um tratamento já estabelecido ou como alternativa para tratar os efeitos colaterais da cirurgia, da radioterapia e da quimioterapia. Nesse sentido, os autores desses trabalhos ressaltam que os pacientes devem ser investigados em relação ao uso das MAC, adotando sempre o discurso da pouca evidência científica. Esse tema perpassa grande parte dos trabalhos e acaba se tornando uma justificativa bastante recorrente para a negação do uso das MAC no tratamento do câncer, embora haja elevado nível de satisfação com sua utilização.2,6,9,11,22,31,36

Além das motivações para o uso das MAC estarem pautadas na "insatisfação" com as técnicas convencionais, nota-se um movimento de busca dos pacientes por uma outra lógica de se relacionar com o corpo, com a sua doença e até mesmo com o serviço de saúde freqüentado. Se, por um lado, a biomedicina tem seu paradigma pautado no modelo biomecânico, positivista e representacionista, as MAC surgem como oposição a esse modelo, trazendo nova perspectiva para a doença e para o indivíduo. Dessa maneira, as terapêuticas alternativas e complementares têm contribuído para: repor o sujeito doente como centro do cuidado; recolocar a relação médico-paciente como fundamental para a terapêutica; buscar meios terapêuticos simples; e construir a autonomia do paciente. 5,42,47

CONCLUSÕES

A temática do uso de MAC por pacientes com câncer vem atraindo investigadores e transpondo interesses exclusivos de disciplinas especificas. Contudo, a maioria dos estudos identificados na literatura é resultado de trabalhos quantitativos, realizados no hemisfério norte, com a perspectiva de discutir como acontece o uso. Poucos trabalhos qualificam porquê são usadas as MAC, permitindo elaborar estratégias alternativas e complementares no tratamento do câncer.

A utilização de MAC é parte do escopo social dos pacientes oncológicos. O uso dessas práticas tem um sentido sociocultural importante na construção da identidade de paciente com câncer, ajudando-os, inclusive, nas tomadas de decisão em relação ao próprio tratamento convencional. Essa evidência não deve ser desconsiderada pelos serviços de saúde, para que sejam desenvolvidas estratégias que estimulem o diálogo entre profissionais e pacientes sobre as MAC, melhorando a qualidade dos serviços.

Tendo em vista a complexidade de fatores que levam pacientes com câncer a utilizar as MAC, ressalta-se ainda a urgência de mais investigações. Essas teriam como objetivo analisar a perspectiva dos profissionais de saúde sobre o uso de MAC, a possibilidade de introdução destas práticas nos serviços convencionais de saúde e a posicão dos gestores e produtores de políticas públicas de saúde sobre a sua incorporação no Sistema Único de Saúde brasileiro.


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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

CENTRO ESPÍRITA E SOCIEDADE

CENTRO ESPÍRITA E SOCIEDADE
Marco Aurélio Rezende
Em muitas oportunidades pensamos no Centro Espírita como um espaço que está organizado e tem vida própria ,entendida aqui como uma vida interna e fora da sociedade.Mas a verdade é exatamente o contrário. Assim como todos os nossos espaços – a Casa , a Escola, o Clube e o Trabalho , o Centro Espírita também é um espaço social . E como tal está inserido no contexto dos espaços de relação da nossa sociedade.
Entendemos ser de fundamental importância o reforço desta idéia em nossas discussões sob a pena de afastarmos cada vez mais a possibilidade de efetivarmos em nós uma postura verdadeiramente espírita . Assim ,e só assim ,acreditamos que estaremos incorporando à nossa vida os três vertentes que alicerçam a nossa doutrina.Ao trazermos para o dia-a-dia o seu caráter religioso ,estaremos possibilitando efetivamente o melhor entendimento acerca da nossa real condição de espíritos em evolução.Como conseqüência disso , se incorporamos ao nosso cotidiano a possibilidade real de comunicação entre os planos encarnado e desencarnado,estaremos vivenciando o seu caráter científico. Se pensarmos no seu caráter filosófico , apreenderemos melhor os passos necessários à nossa melhora e evolução.
Evidentemente é na vida de relação que poderemos vivenciar mais fortemente esses aspectos e só assim estaremos reforçando em nós a efetiva presença do Cristo. O contrário ,no mínimo, não é sadio.A vida de relação é essencialmente necessária ao convívio e ao crescimento individual e coletivo num grupo social. E o Centro Espírita é mais um desses lugares onde esta condição – a do convívio ,pode e deve acontecer.É fundamental e importante compreendermos que o Centro Espírita pode e deve ser o local onde todos possam participar em várias situações e frentes . Mas devemos atentar que a participação precisa ser organizada e fundamentada nas regras mínimas de convivência e democracia.Precisamos aceitar e incorporar que o Centro Espírita não é um local isolado socialmente e que o seu fortalecimento estará diretamente ligado a participação critica e sensata de todos nós.Se estivermos bem ,participaremos mais e melhor . Mas para participarmos mais e melhor precisamos de vontade , disponibilidade e condição .A vontade tem a ver com o interesse e o estimulo .A nossa disponibilidade pode ser medida pelo tempo de dedicação e a condição pela forma que daremos à nossa dedicação.
Mas então , teremos que morar no Centro Espírita? Claro que não...Primeiramente ,devemos entender que não precisamos nem freqüentar um Centro Espírita para sermos Espíritas. Precisarmos,sim,compreender e estudar a Doutrina e o Centro Espírita é mais um desses locais onde poderemos praticar a Doutrina dos Espíritos e as idéias de Jesus.É deste espaço de convívio – o Centro Espírita que estamos falando e é neste espaço de convívio que devemos construir a nossa “práxis” espírita .No nosso caso , essa “práxis” deve ser alimentada pelas nossas ações e reflexões em nossos lugares de relação . E o Centro Espírita é mais um desses lugares.Para tal é fundamental o nosso permanente compromisso com a doutrina que abraçamos.Primeiramente é essencial o nosso acordo com o estudo permanente da Doutrina Espírita – As Obras Fundamentais de Kardec , principalmente para conhecimento e fundamentação das nossas atitudes e ações . O estudo permanente e sistematizado deve ser feito com o propósito de valorização das bases de nossa doutrina e do aprimoramento e entendimento das nossas atitudes perante aos nossos questionamentos na nossa vida de relação.É o estudo que fundamenta as nossas ações e amplia o nosso entendimento acerca da nossa condição no mundo e em especial , no Centro Espírita . Por isso ,é que devemos pensar com bastante critério e cuidado sobre o nosso papel neste importante espaço de relação – o Centro Espírita e o extraordinário papel que o estudo sistematizado e permanente traz. É o estudo que traz a pedra de toque à ação do trabalhador espírita .É o estudo que qualifica a sua ação e o transforma em sujeito com potencial transformador. É o estudo que amplia a sua visão retirando-o de uma postura afastada e isolada do seu companheiro e do entorno do Centro Espírita.É o estudo que traz o conhecimento e fundamenta a experiência.
Como desdobramento ,quando estimulados pelo estudo , pensamos e vemos o Centro Espírita com uma visão mais dilatada .Passamos a compreender que este espaço deve e precisa ser fortalecido pelas nossas ações – mais criticas a abalizadas pelo estudo ,sendo um espaço de estimulo à pratica e a interação no Bem .

sábado, 19 de janeiro de 2008

EVOLUÇÕES:FÍSICA E ESPIRITUAL...

Da origem das espécies à teoria da Evolução
Carlos de Brito Imbassahy

Quando o naturalista inglês Charles Darwin lançou seu estudo ou teoria a respeito da origem das espécies, na época, encontrou uma enorme oposição religiosa porque, de fato, seus fundamentos se estribavam exclusivamente em hipóteses deveras materialistas.

Apesar disso, ele apresentava farto documentário de suas observações que, sem dúvida, davam cabedal para seus argumentos. Contudo, abalava a hipótese de que Deus teria feito tudo à sua vontade e cada coisa de per si. E, por outro lado, vinha corroborar com o cavaleiro de Lamarck – nascido Jean-Baptiste de Monet – em sua hipótese evolucionista.

Lamarck tinha sérios opositores entre os naturalistas, principalmente porque nunca aceitara a classificação biológica de Lineu e, com sua obra Filosofia zoológica lançara contra si toda a fúria da Igreja. Sua hipótese de que a vida houvesse surgido da primeira célula orgânica e que tenha se transmigrado gradativamente para espécies imediatamente superiores até chegar à condição de alga, transformar-se em zoófitos e gradativamente evolver até o primeiro vertebrado, era tido como heresia contra os desígnios do Criador.

De fato, a Ciência primava pelo materialismo absoluto, apesar da falta de subsídios. Contudo, para ela, ainda era mais compreensível admitir que uma célula orgânica fosse a causa da vida que supor a existência do Deus absoluto, religioso, dispondo tudo a seu bel prazer, de forma tão incoerente.

A mudança começou com Werner Heisenberg, cientista alemão que viveu durante o período nazista e muito lutou contra seu predomínio despótico. Analisando a tese das emissões, observou que determinadas partículas não obedeciam ao mesmo comando, desviando-se da sua trajetória como se tivesse vontade própria. Ele mesmo comparou-as a ovelhas desgarradas.

Murray Gell Mann, à frente do “acelerador fermi de partículas” da Stanford University (EUA), ao equacionar a colisão de um elétron com um pósitron, concluiu que essas partículas agiam como se fossem comandadas por alguma ação externa à energia universal.

Foi dessa forma que nasceu a hipótese da existência de agentes estruturadores externos ao Universo e capazes de atuar sobre a sua energia, modulando-a e dando-lhe formas ditas materiais. Estes agentes, atualmente, são chamados de frameworkers.

A Hipótese da sua existência foi reforçada quando o observatório Keck II, do Haway, descobriu que, em torno da estrela Alfa Centauro, forças extracósmicas atuavam sobre a poeira cósmica em seu entorno, dando início à possível formação de um sistema planetário.

Estaria explicada a origem de tudo?

Neste caso, não apenas o homem teria alma – ou princípio de vida espiritual, mas tudo dentro do Universo, até mesmo a partícula elementar teria um princípio de vida não biológica estruturado por um agente esterno ao próprio Universo. E neste caso, a teoria da evolução das espécies tomaria uma nova concepção a ser analisada, partindo do pressuposto que esses agentes é que seriam os responsáveis pela formação, a seu tempo, de cada espécie.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

ESTUDANDO O HERMETISMO

As Sete Leis Herméticas


1ª Lei do Mentalismo:O universo é mental ou Mente. Isso significa que todo universo fenomenal é simplesmente uma
criação mental do TODO... Que o universo tem sua existência na Mente do TODO.
Uma outra maneira de dizer isso é: "tudo existe na mente do Deus e da Deusa que nos 'pensa'
para que possamos existir. Toda a criação principiou como uma idéia da mente divina que
continuaria a viver, a mover-se e a ter seu ser na divina consciência."
"O Universo e toda a matéria são consciência do processo de evolução."
Minha opinião é que toda a matéria são como os neurônios de uma grande mente, o universo
consciente, que "pensa".
Todo o conhecimento flui e reflui de nossa mente, já que estamos ligados a uma mente divina
que contem todo o conhecimento.
É claro que não estamos conscientes de "todo o conhecimento" em qualquer momento dado, por
que seria uma tarefa exorbitante manuseá-lo e processa-lo e ficaríamos loucos no processo.
Os cinco sentidos do cérebro humano atuam tanto como filtros como fontes de informação. Eles
bloqueiam uma considerável soma de informação caso contrário seriamos esmagados por
informações que nos bombardeiam minuto a minuto como sons, cheiros e até idéias, não
seriamos capazes de nos concentrarmos nas tarefas especificas em mãos. Mas sob condições
corretas de consciência podemos moderar, ou até desligar o processo de filtração, com a
consciência alterada, o conhecimento universal (i.e. Registros Akáshicos)
torna-se acessível. Abramos nossa mente ao TODO (i.e. o Uno, Deusa + Deus). Deixemos o
conhecimento entrar.

2ª Lei da Correspondência:"Aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo."
Essa lei é importante porque nos lembra que vivemos em mais que um mundo.
Vivemos nas coordenadas do espaço físico, mas também vivemos em um mundo sem espaço e
nem tempo.
A perspectiva da Terra normalmente nos impede de enxergar outros domínios acima e abaixo de
nós. A nossa atenção está tão concentrada no microcosmo que não nos percebemos o imenso
macrocosmo à nossa volta. O principio de correspondência diz-nos que o que é verdadeiro no
macrocosmo é também verdadeiro no microcosmo e vice-versa.
Portanto podemos aprender as grandes verdades do cosmo observando como elas se
manifestam em nossas próprias vidas.
Por isso estudamos o universo: para aprender mais sobre nós mesmos.
Na menor partícula existe toda a informação do Universo.
3ª Lei da vibração:Todas as coisas se movimentam e vibram com seu próprio regime de vibração. Nada está em
repouso.
Das galáxias às partículas sub-atômicas, tudo é movimento.
Todos os objetos materiais são feitos de átomos e a enorme variedade de estruturas
moleculares não é rígida ou imóvel , mas oscila de acordo com as temperaturas e com harmonia
com as vibrações térmicas do seu meio ambiente.
A matéria não é passiva ou inerte, como nos pode parecer a nível material, mas cheia de
movimento e ritmo. Ela dança.

4ª Lei da Polaridade:A polaridade é a chave de poder no sistema hermético. Tudo é dual. Os opostos são apenas
extremos da mesma coisa. Energia negativa (-) é tão "boa" ou "má" quanto energia positiva (+).

5ª Lei do ritmo:Tudo está em movimento, a realidade compõe-se de opostos.
E os opostos se movem em círculos.
As coisas recuam e avançam, descem e sobem, entram e saem. Mas também giram em círculos
e espirais. A lei do ritmo nos assegura que cada ciclo busca sua complementação. A grande
roda da vida esta sempre fazendo um circulo. O que se muda é o tamanho desse círculo.

6ª Lei do Gênero:O principio hermético do gênero diz que todos tem componentes masculinos e femininos. É uma
importante aplicação da lei da polaridade. É semelhante ao principio com o principio animas
animus que Carl Jung e seus seguidores popularizaram, ou seja que cada pessoa contém
aspectos masculinos e femininos, independente do seu gênero físico, nenhum ser humano é
100% homem ou mulher, e isso é até astrologicamente explicado, uma vez que todos somos
influenciados por todos os signos (uns mais, outros menos), e metade do zodíaco é feminino,
enquanto que a outra metade é obviamente masculina (Esse é mais um argumento que suporta
a igualdade entre Deus e Deusa).
Em todas as coisas existe uma energia receptiva feminina e uma energia
projetiva masculina, a que os chineses chamavam de Yin Yang (e o que os bruxos chamam de
Deusa e Deus).

7ª Lei de Causa e Efeito:Em sua forma tradicional, a lei de causa e efeito diz que nada acontece por acaso, que para todo
efeito existe uma causa, e que toda causa é, por sua vez, um efeito de alguma outra causa.
Tábua de Esmeraldas - Hermes Trismegisto
"Isto é verdade, sem mentira, muito verdadeiro" (a verdade nos três mundos)
"O que está embaixo é como o que está em cima" (Lei da Analogia)
"E o que está em cima é como o que está em baixo" (Lei da Correspondência)
"E como todas as coisas vêm e vieram do Um" (Lei do número)
"Assim todas as coisas são únicas por adaptação" (Lei da Adaptação)
"O Sol é seu pai; a Lua é sua mãe; o vento carregou-o no ventre; a terra é sua nutriz" (os quatro
elementos)
"Separarás a terra do fogo, o sutil do espesso, docemente como Grande
Indústria" (Arcano da Salvação, separação da matéria do espírito)
"Ele sobe da Terra para o Céu, e de novo desce a Terra e recebe a força das coisas superiores
e inferiores" (Lei da Evolução/Involução)
"Terás por esse meio toda glória do número e toda escuridão se afastará de ti. É a Força forte de
todas as Forças." (Lei do Amor e do Sacrifício)
"Por que ele vencerá toda coisa sutil, e penetrará toda coisa sólida." (É
pela lei do amor que o espírito move o Universo)
"Assim foi criado o mundo" (Lei da Realização)
"Disso saíram inúmeras adaptações cujo meio está aqui. Por isso fui chamado de Hermes
Trismegisto, possuindo as três partes da filosofia do mundo" (Divino, Astral e Físico)
"O que disse da cooperação do Sol está realizado e aperfeiçoado"

Pesquisa Ir.: Jaime Balbino de Oliveira

domingo, 13 de janeiro de 2008

MEDIUNIDADE DE CURA

Mediunidade de Cura

José Argemiro da Silveira

Temos observado que vários companheiros do movimento espírita reprovam a mediunidade de cura, como se fosse uma atividade estranha à boa Doutrina. Isto se deve, provavelmente, ao fato de que alguns médiuns dessa especialidade, por não conhecerem, não procuram observar, no exercício da mediunidade, os ensinamentos da Doutrina Espírita. Conseqüentemente, agem em desacordo com o que ensina o Espiritismo, levando os menos avisados a reprovarem, em sua totalidade, toda atividade desse campo. Porém, esta não é uma atitude correta. O fato de alguns utilizarem mal suas faculdades, ou agirem em desacordo com os princípios espíritas, não justifica a atitude de negar valor a todos que trabalham nessa área. A mediunidade de cura é estudada no Espiritismo. Portanto, neste, como em outros setores, é sempre necessário aprofundar o conhecimento do assunto, para não emitir opiniões levianas, sem fundamento. Necessário saber distinguir o certo do errado, não aprovar tudo, mas também não reprovar, sem o devido conhecimento do assunto.

Allan Kardec no Livro dos Médiuns, 2.ª parte, cap. XVI, item 189, registra: "Médiuns curadores - Os que têm o poder de curar ou de aliviar os males pela imposição das mãos ou pela prece. Esta faculdade não é essencialmente mediúnica pois todos os verdadeiros crentes a possuem, quer sejam médiuns ou não. Freqüentemente não é mais do que a exaltação da potência magnética, fortalecida em caso de necessidade pelo concurso dos Espíritos bons". No item 175, cap. 14, do mesmo livro: "Médiuns curadores - Somente para mencioná-la, trataremos aqui desta variedade de médiuns, porque o assunto exigiria demasiado desenvolvimento para o nosso esquema. Estamos, aliás, informados de que um médico nosso amigo se propõe a tratá-la numa obra especial sobre a medicina intuitiva". E no item 193, cap. 16, diz: "Médiuns medicinais - sua especialidade é a de servirem mais facilmente aos Espíritos que fazem prescrições médicas. Não se deve confundi-los com os médiuns curadores, porque nada mais fazem do que transmitir o pensamento do Espírito, e não exercem por si mesmos nenhuma influência. Muito comuns".

Allan Kardec considera "muito comuns" os médiuns medicinais, "aqueles cuja especialidade é a de servirem mais facilmente os Espíritos que fazem prescrições médicas". Quando trata dos "médiuns curadores" coloca que "o assunto exigiria demasiado desenvolvimento" para o esquema do livro (Livro dos Médiuns). Mas fica claro a importância do tema.

Pergunta feita ao Divaldo P. Franco ("Diretrizes de Segurança", item 21, cap. 1.°) - Qual a finalidade da existência de médiuns curadores?" Resposta: "A prática do bem, do auxílio aos doentes. O apóstolo Paulo já dizia: "Uns falam línguas estrangeiras, outros profetizam, outros impõem as mãos". Como o Espiritismo é o Consolador, a mediunidade, sendo o campo, a porta pelos quais os Espíritos Superiores semeiam e agem, a faculdade curadora é o veículo da Misericórdia para atender a quem padece, despertando-o para as realidades da Vida Maior, a Vida Verdadeira. Após a recuperação da saúde, o paciente já não tem o direito de manter dúvidas nem suposições negativas ante a realidade do que experimentou. O médium curador é o intermediário para o chamamento aos que sofrem, para que mudem a direção do pensamento e do comportamento, integrando-se na esfera do Bem".

As pessoas que condenam todo e qualquer tipo de atividade na mediunidade de cura deveriam estudar a biografia de Eurípedes Barsanulfo, Cairbar Schutel, e tantos outros. O próprio Francisco C. Xavier, durante muito tempo, atendeu a essas tarefas. Os médicos desencarnados, especialmente Bezerra de Menezes, por intermédio dele, respondia a centenas de consultas durante as reuniões semanais. Da biografia do médium João Gonçalves do Nascimento, que está no livro "Grandes Espíritas do Brasil", organizado por Zêus Wantuil, e editado pela Federação Espírita Brasileira, consta o seguinte: "Foi por volta de 1882 que o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, então deputado geral na Corte do Rio de Janeiro, resolveu consultar o médium Nascimento sobre uma dispepsia que havia cinco anos o torturava, não obstante haver ele recorrido aos mais famosos facultativos. — Eu não acreditava nem deixava de acreditar na medicina medianímica, e confesso que proprendia mais para a crença de que o tal médium era um especulador - eis como Bezerra de Menezes julgava, a princípio, o abnegado Nascimento. Servindo-se de um amigo de confiança, e em circunstâncias que não permitissem qualquer espécie de fraude, o grande político cearense obteve a receita solicitada, com a descrição de toda a sua moléstia, seguiu o tratamento prescrito, e, o que a Medicina oficial não conseguira em cinco anos, Nascimento o obteve em apenas três meses. Este e outro fato posterior, agora com a segunda esposa de Bezerra, a qual tinha erradamente sido tratada como tuberculosa por importantes médicos, ficara para sempre curada com as receitas do famoso médium do Grupo Espírita Fraternidade. "Nada me impressionou mais afirmou Bezerra - do que ver um homem, sem conhecimentos médicos e até sem instrução regular, discorrer sobre moléstias, com proficiência anatômica e fisiológica, sem claudicar, como bem poucos médicos o podem fazer".

A biografia do médium Nascimento prossegue citando vários outros casos extraordinários de diagnósticos corretos e curas, realizadas por seu intermédio.

A mediunidade curadora deve ser tratada como qualquer outra modalidade mediúnica. Não se pode aprovar tudo o que se faz nessa área, mas negar, indiscriminadamente, como se toda atividade nesse campo fosse estranha à Doutrina Espírita não é correto.

O médium de cura deve orientar seu procedimento, observando:

a) Vinculação a um Centro Espírita - A maior parte dos problemas constatados reside no fato de o médium não se submeter aos regimes doutrinários de um Centro Espírita;

b) Estudo Sistemático do Espiritismo - Não se pode separar a prática mediúnica do estudo constante dos postulados espíritas;

c) Gratuidade absoluta - A Doutrina Espírita não se coaduna com qualquer tipo de cobrança de prestação de serviço espiritual. ainda que disfarçada sob a forma de "presentes", ou de "doações para instituições";

d) Exercício Constante da Humildade - O médium de cura deve conscientizar-se de que ele é apenas um elemento na complexa engrenagem organizada pelo mundo maior, engrenagem esta que vai encontrar no Cristo o seu condutor maior.

Jornal Palavra Espírita na Internet
http://www.geocities.com/verdadeeluz

ALGUMAS REFLEXÕES...

Algumas Reflexões


Tenho pensado nesses dias algumas coisas a respeito da vida...
Pois é! Às vezes eu consigo fazer isso...
Mas vamos lá! E acho que posso compartilhar com vocês...
Todos já devem ter percebido uma característica marcante do meu perfil
- o fato de eu ser cristão espírita praticante.E por conta disso venho
me questionando muito de algumas atitudes minhas, principalmente
sobre a minha vida de relação.Uma delas diz respeito ao comportamento
e as atitudes de um cristão espírita frente às questões da vida.

A minha primeira observação diz respeito à Casa Espírita como único
local possível da prática espírita.Tenho sido tentado a achar que é
muito complicado a prática espírita dentro da Casa Espírita.
Calma, amigos! O que estou colocando é que neste local também existem
as mesmas dificuldades comuns aos outros ambientes que freqüentamos.
Senão vejamos.Fora dos muros da Casa Espírita, encontramos amigos,
inimigos, facilidades, dificuldades, acertos, erros e
oportunidades.E isso é o esperado, afinal, estamos encarnando para o
aprendizado e a melhora de nossa condição evolutiva.O que estou
dizendo é que assim como na nossa casa, no nosso trabalho e com os
nossos amigos, temos também na Casa Espírita que freqüentamos/
trabalhando, as nossas mesmas dificuldades.Ou será que achamos que é
só porque entramos algumas vezes por semana na Casa Espírita, deixamos
os nossos conflitos do lado de fora e nos transformamos em seres
angelicais? Acho que ninguém pensa isso, né? Acredito que, quando
assumimos as nossas dificuldades e conflitos - até na Casa Espírita,
estamos começando a trilhar o caminho da superação e da transformação
interna...

A outra questão é tentarmos e experimentarmos a prática espírita fora
dos muros da Casa Espírita. Fiquem calmos! Não estou propondo que nos
transformemos em figuras messiânicas do Apocalipse. Mesmo porque
sabemos que a Doutrina não pede isso. Estou falando de atitude! Até
que ponto somos realmente espíritas e incorporamos no nosso
cotidiano, a benevolência, a indulgência e o perdão.Ou será que
ainda não conseguimos tirar essas expressões do discurso e colocá-las
na nossa prática? E olha que falar disso dentro da Casa Espírita não
tem nenhuma vantagem, já que lá todo mundo fala...e só fala!!!!
Sé é só isso que fazemos, nós não passamos ainda da condição de
espíritas burocratas. Temos a teoria, alguma leitura acumulada,
vamos semanalmente à Casa Espírita e achamos que estamos abafando!
Ser espírita (burocrata) dentro da Casa Espírita parece ser muito
fácil...
Será que praticar o Espiritismo fora dos muros da Casa Espírita - na
nossa casa, no nosso trabalho, entre os nossos vizinhos e amigos, na
rua, no clube, no shopping, na praia, no futebol, etc, é tão
difícil? Vejam que eu estou falando de prática e não de discurso...

Mais um ponto a pensar: Nós que nos dizemos espíritas nos conhecemos?
Somos irmãos de fato ou nos freqüentamos apenas na Casa Espírita? No
meu caso, venho experimentando uma aproximação muito prazerosa com os
meus amigos espíritas e posso dizer que é muito legal a troca e o
conhecimento entre companheiros de obra. Começamos marcando reuniões
de estudo e encontros doutrinários e hoje fazemos festas e encontros
pelo simples prazer de nos encontrarmos.E assim vamos nos reconhecendo
em nossas atitudes fora da Casa Espírita e aprendemos a nos
respeitar, cada um com sua limitação e com sua diferença, mas
compartilhando a Doutrina que abraçamos!

Por último, mas não menos importante trago uma preocupação bem
curiosa: Em que medida somos espíritas?Será pelas
atividades que exercemos entre os grupos?
Será que podemos nos
considerar numa condição privilegiada, só porque estamos em muitas
frentes de trabalho dentro dos grupos?
Mas e a nossa vida fora da
Casa Espírita?
E a nossa família?
E mesmo o nosso trabalho?
Será que é só na Casa Espírita que conseguimos ser espíritas?
Qual é o tempo que temos
para refletir sobre a nossa vida e verificarmos se estamos de fato
praticando a nossa melhora, a nossa recuperação, a nossa
transformação moral? Qual é o momento que nós nos avaliaremos e
reconheceremos os nossos acertos, os nossos erros, as nossas
superações, os nossos pontos fracos, e, nos reconhecendo, nos
corrigirmos e melhorarmos até nos modificarmos e atingirmos a nossa
meta prevista em nosso plano reencarnatório?


Foi só isso pessoal...

marcoafrezende@hotmail.com

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

MEDITAÇÕES ACERCA DA INTELIGÊNCIA

Meditações acerca da inteligência
Hermínio C. Miranda



Ninguém diria com maior autoridade que o próprio Kardec que o Espiritismo é doutrina essencialmente evolutiva, o que significa dizer que não nos foi trazida inteira acebada, cristalizada e dogmática. O Espiritismo é um corpo vivo de pensamento e, como tal, suscetível de desdobramentos cujos limites não temos condições de alcançar ou prever. É preciso observar bem, no entanto, onde e quando, como e porque devemos e podemos trabalhar as suas inúmeras sínteses a fim de que, movidos pela intenção de desenvolver certos aspectos doutrinários, não cometamos o desacerto de deformá-los irreparavelmente. E isto é fácil de ilustrar, quando nos lembramos de que toda a complexa teologia moderna cita cristã não é mais do que o “desdobramento” dos simples e luminoso conceitos evangélicos formulados pelo Cristo. Como foi possível partir de afirmativas como “... não busco minha vontade e sim a vontade daquele que me enviou”, para chegar-se, por exemplo, à formulação da divindade de Jesus? Por onde entrou, nessa teologia, o dogma do pecado original? Como nasceu a doutrina das penas eternas? Ou o conceito de uma só existência para o ser humano, com um julgamento final e irrecorrível?

Enfim, os exemplos poderiam ser multiplicados, se a finalidade aqui não fosse apenas a de ilustrar uma idéia, ou seja, a diretiva de que os comentaristas da Doutrina Espírita precisam manter um elevado padrão de lucidez e de humildade intelectual para não contaminarem o Espiritismo com os seus preconceitos e não o retransmitirem sob uma ótica que, em lugar de ampliar determinados aspectos, o deformem grotescamente, a ponto de torná-lo irreconhecível. A Doutrina não é um cadáver sobre o qual poderemos, à vontade, realizar nossas experimentações mutiladoras, nem um aparelho, ao qual possamos substituir peças e adaptar a outras finalidades. Repitamos: é um organismo vivo e dever ser tratado como tal, ou seja, com todos os cuidados necessários e com o máximo respeito que toda manifestação de vida deve merecer-nos.

Não obstante, o Espiritismo não rejeita aqueles que se aproximam dele com o respeito a que acima nos referimos, dispostos a desdobrar aspectos que ainda lá estão em síntese, à espera dos trabalhadores qualificados que, por certo, andam por aí e ainda virão. É o caso da mediunidade, por exemplo, para citar apenas um entre muitos aspectos. Os estudos sobre essa faculdade começaram ainda com o próprio Kardec, em “O Livro dos Médiuns”, continuaram nas notáveis obras de Gabriel Delanne. Aksakof, Lombroso e tantos outros e, ainda em nossos dias, prosseguem em novos desdobramentos, com André Luiz. E estamos longe de veros limites do território e explorar, pois os seus contornos escapam à nossa percepção. Mas, que em todos esses cometimentos não percamos de vista os parâmetros de eferição e os marcos implantados nas obras básicas, a fim de que não percamos pelos domínios da fantasia ou do personalismo doutrinário, que fraccionaria o Espiritismo em ramos e seitas que muito teríamos a no futuro. Em suma: na frase felicíssima do confrade Jorge Andréa: é preciso dinamizar Kardec, não dinamitar Kardec.

Ainda há pouco, aqui mesmo em “Obreiros do Bem” (artigo sob o título “Centenário de uma Frase”, junho de 1976) propunhamos a formulação de modelos espíritas para a sociedade futura, em vez de nos demorarmos indefinidamente pelos caminhos, a tentar convencer da realidade do Espírito aqueles que não desejam ainda ser convencidos. Dizíamos, então, que não vemos muito sentido nesse esforço gigantesco de acumular provas que, de certa forma, não servem nem a nós, os que não mais precisamos elas, nem àqueles que não as desejam aceitar, porque se obstinam em defender suas fortalezas de opereta de ceticismo estéril.

Tentemos, porém, ser mais específicos quando mencionamos os tais modelos ou matrizes, pois é necessário, desde logo, relembrar um princípio inarredável em qualquer dessas inúmeras possibilidades de ampliação e aplicação dos conceitos doutrinários: O Espiritismo não é um movimento arregimentador de massas, nem se presta a servir de base para militâncias políticas de qualquer colaboração ou tendência. Sua filosofia de ação é aquela que se dirige ao homem, ou melhor, ao Espírito imortal reencarnado, pois entende que, como soma dos indivíduos, a sociedade não poderá, jamais ser melhor do que os seus componentes. Os cemitérios da História estão cheios de doutrinas que alimentaram a ilusão de arrumar a sociedade de baixo para cima, ou seja, cuidando do ser coletivo, quando o trabalho precisa ser feito no indivíduo, por meio do despertamento para a sua realidade espiritual interior. Somos Espíritos e não unidades de produção, votos, consumidores, massa de manobra, enfim.

Sejamos ainda mais específicos, na descida cautelosa aos pormenores, ao particular.

O capítulo quarto do “O Livro dos Espíritos”, ao referir-se à questão do princípio vital, cuida dos aspectos subsidiários dos conceitos de inteligência e instinto. (Questões 71 a 75, páginas 78 e 79 da 34ª edição da FEB). O que Kardec considerou prudente perguntar e o que os Espíritos decidiram suficiente ensinar na época está, pois resumido em apenas 5 questões. É óbvio que isto não esgota a temática suscitada, nem era esse o objetivo dos elaboradores da Doutrina. Quantas sugestões preciosas, no entanto, partem daqueles discretos comentários! A que amplos desdobramentos não se prestam as sínteses propostas pelos Espíritos e as observações adicionais de Kardec!



Desejava o Codificador saber se inteligência a matéria são independentes, “porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas, a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la”. (1) A fonte da inteligência é a inteligência universal, sendo, no entanto, “faculdade própria de cada ser, e constitui sua individualidade moral”. Advertiram, porém, neste ponto, que havia limites por aí, além dos quais o homem não poderia seguir, por enquanto.

Será que o instinto dependeria da inteligência? - desejou saber Kardec.

- “Precisamente, não, - respondem os Espíritos - por isso que o instinto é uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio. Por ele é que todos os seres provêem às suas necessidades”.

Instinto e inteligência acham-se tão intimamente ligados que muitas vezes se confundem. A força diretora do instinto é tão preciosa que os Espíritos acrescentaram que também ele “pode conduzir ao bem”. E mais ainda:

- “Ele quase sempre nos guia e algumas vezes com mais segurança do que a razão. Nunca se transvia”. (Os destaques são meus, evidentemente).

Ante o inusitado do ensinamento, Kardec desejou saber por que nem sempre a razão é guia infalível.

- “Seria infalível - respondem seus amigos invisíveis - se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo. O instinto não raciocina; a razão permite a escolha e dá ao homem o livre-arbítrio.

Aí está, pois, em apenas duas páginas, um mundo fascinante de sugestões para futura especulação.

Que interessante definição, por exemplo, essa de que o instinto é uma inteligência sem raciocínio, que funciona como instrumento através do qual os seres vivos atendem às suas necessidades. Podemos lembrar aqui as recentes e curiosas experiências do Prof. Bakster com as plantas, que confirmam com notável precisão os ensinamentos transmitidos pelos Espíritos há mais de um século. O instinto, que ele foi descobrir nas plantas, por meio de seus sensíveis aparelhos, é exatamente isso: uma inteligência sem raciocínio a serviço da integridade da planta. Que necessidade seria mais essencial do que a da conservação? As plantas reagem nitidamente tento às vibrações de afeto com as de ódio; àquele que cuida delas ou que procura destruí-las, informa da sua alegria ao serem confortadas, com um pouco de água ou da sua apreensão ao sentirem-se em terreno ressecado. Dentro do seu limitado círculo de recursos instintivos, a planta age realmente com inteligência, ainda que desprovida de razão, pois que, se a tivesse, disporia também de livre-arbítrio, como também ensinaram os Espíritos. A razão começa junto com a consciência de si mesmo, o que nem plantas nem animais possuem.

A reflexão nos levará a inferir que o instinto é a pré-história da inteligência racional e, por isso, tem que ser mais seguro na sua direção do que a fase subseqüente. Ainda sem dispor de razão, o ser vivo não pode errar, porque não teria como corrigir o erro. Por isso os Espíritos disseram que o instinto nunca se transvia. Nunca é uma expressão de tremenda força. A possibilidade de transviamento começa, pois, quando surge a razão que nos proporciona o livre arbítrio, ou seja, a capacidade de decidir entre duas ou mais alternativas. Por outro lado, novo aspecto digno de profundas meditações é o de que a razão seria orientadora infalível dos nossos atos, se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo”.

E, assim, com esta razão falseada que as inteligências transviadas montam complexas estruturas filosóficas, aparentemente muito racionais, mas totalmente falsas, porque a razão que lhes serviu de modelo estava contaminada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo.

Lembremos aqui à razão absoluta, purificada, é que se referia Kardec ao recomendar que a fé teria que, também ela, submeter-se, e isto é tão verdadeiro que vemos variedades espúrias de fé. Paixão e razão que se misturam. A razão é fria porque neutra, embora não insensível.

Mas, nestas reflexões, por mais atraentes que sejam, nos afastamos um pouco do nosso tema. Ou não?

Retomemos o conceito de inteligência e experimentemos projetá-lo um pouco mais longe. Após os ensinamentos trazidos pelos Espíritos a Kardec, como se desenvolveu no meio científico a especulação em torno da inteligência? Que é inteligência em termos de ciência?

Uma pesquisa histórica revela que a palavra em ai foi utilizada pela primeira vez por Cícero, ao transpor a expressão dia-noesis, criada por Aristóteles, sendo útil aqui lembrar que noesis é entendimento, compreendido.

A incipiente psicologia escolástica medieval, derivada, em grande parte, dos conceitos aristotélicos, acabou cristalizando a “definição”, se assim podemos chamá-la, de que inteligência era a qualidade abstrata comum e característica dos processos intelectuais. Isso, como se vê, corresponde a declarar que a água é molhada, mas, enfim, tal era a escolástica...

Com a decadência dessa corrente filosófica, o termo entrou em desuso e só foi retomado por Herbert Spencer, já no século 19, que, no entanto, deu-lhe uma interpretação meramente biológica, ou seja, materialista e que praticamente perdura até hoje. Sem poder explicá-la em termos precisos, e desapoiado de qualquer suporte espiritualista, Spencer achava que a inteligência explicava-se pela presença dos pais na formação do ser, o que vale dizer que ele apenas transferia o problema para a geração anterior e o desta para a imediatamente anterior e assim por diante, sem chegar às raízes da questão.

Seja como for , as especulações de Spencer permitiram conceituar psicologicamente a inteligência como capacidade de resolver, com êxito, situações novas, entendimento aceitável que, ao que eu saiba, prevalece até hoje.

Inegavelmente, porém, as pesquisas em torno da inteligência ainda não se libertaram das amarras e das vendas materialistas, e ao campo da ciência ortodoxa não chegou ainda a iluminação que se irradia a partir das informações colhidas no mundo espiritual, nem das eu decorrem de todo o acervo de fatos documentados pelos investigadores da fenomenologia espírita.

Ainda se pensa que inteligência é uma questão basicamente genética colorida por influências mesológicas, ou seja, hereditária e desenvolvida sob forte pressão do meio ambiente. Para sermos justos, é preciso reconhecer que alguma influência realmente exercem a hereditariedade e o meio, mas não tanto quanto julgam os cientistas acadêmicos, e não propriamente sobre a inteligência em si, mas sobre suas manifestações.

Vamos tentar compreender melhor isso. Um casal de criaturas marcadas pela debilidade mental pode gerar uma criança também prejudicada mentalmente mas isso não significa que este novo ser seja espiritualmente um débil mental. Na verdade, pode ser um gênio que apenas não conseguiu criar no corpo físico, em gestação sob condições tão adversas, um instrumento adequado de manifestação de seu potencial. Não são raros, porém, os casos de filhos altamente inteligentes nascidos de pais deficientes. A recíproca também é válida: pais inteligentes gerando filhos retardados.

Por outro lado, o ambiente em que se desenvolve a criança exerce sobre sua inteligência uma influência que não pode ser desprezada, mas não deve ser exagerada, porque sob as condições mais hostis podem desenvolver-se inteligências brilhantes.

Isso tudo tem demonstrado à saciedade que a inteligência não é um fator basicamente genético ou mesológico, mas uma faculdade do Espírito preexistente, que traz para a sua nova existência os recursos intelectuais que já tenha conseguido desenvolver no passado, dentro, porém, das condicionantes criadas pelo seu comportamento moral, ou seja, pelo bom ou mau uso que deu à sua inteligência.

Voltemos, por um instante, ao ensinamento dos Espíritos.

- ... “a inteligência - dizem eles, em resposta à pergunta 72 - é uma faculdade própria de cada ser e constitui a sua individualidade moral”.

Não é exatamente isso o que provam as observações? Ou seja, que cada ser se encontra no estágio que lhe é próprio de desenvolvimento intelectual e que o uso da inteligência tem nítidas e inelutáveis implicações morais? Confere, portanto, mais este aspecto.

Enquanto isso, no entanto, os cientistas desligados das correntes espiritualistas continuam a pesquisar as razões das dessemelhanças intelectuais entre gêmeos, partindo do pressuposto de que, gerados simultaneamente, teriam de ser pelo menos semelhantes em inteligência, senão idênticos, o que está longe de ser verdadeira pois cada um deles é um Espírito diferente, em diferente estágio evolutivo.

Vejamos, porém, um pouco mais além, já que falamos em estágio evolutivo.

Ao que indica a observação apoiada no conhecimento espiritual, a inteligência é a resultante do conhecimento acumulado ao longo dos milênios e das inúmeras encarnações. (2) Não somos inteligentes por causa de uma combinação genética particularmente feliz, ou porque nos desenvolvemos em ambiente adequado, mas porque, no passado, já nos habituamos a manipulação e apropriação do conhecimento, através do estudo e do aprendizado. As noções que adquirimos, as experiências porque passamos, as coisas que descobrimos incorporam-se à nossa memória, cujos registros básicos se encontram no perispírito, e, embora armazenadas na zona crespuscular do chamado inconsciente, estão ali, à nossa disposição. Quanto mais conhecimento tenhamos adquirido no passado, mais fácil se torna “resolver com êxito situações novas”, porque temos um banco de dados mais vasto, contra o qual confrontamos analogicamente os fatos novos, as novas proposições, os novos aprendizados. É sempre mais fácil construir em cima do alicerce já consolidado.



Seria interessante, por exemplo, desdobrar ainda mais este aspecto para examinar o papel que desempenha nisso tudo a memória, ou, ainda, a intuição, mas seria ir muito longe num artiguete como este, que pretende apenas levantar questões para estudo, sem a tola pretensão de resolvê-la.

Há, também, por aqui, analogias notáveis com a cibernética, pois os computadores modernos não passam de cérebros artificiais, ainda muito primitivos e limitados em comparação com o cérebro humano. São meros bancos de dados que decidem entre duas opções, segundo um programa preestabelecido e de acordo com o acervo de informações que têm armazenado em suas memórias. É claro que não desejamos dizer que o computador seja inteligente, nem que tenha instinto, mas é certo que se utiliza de um dos dispositivos da inteligência humana, isto é, a memória.

Fiquemos aqui mesmo, para concluir.

Creio ter conseguido evidenciar, com estas reflexões, o que se costuma ter em mente ao se dizer que inúmeros conceitos formulados pelos Espíritos dentro da Codificação estão à espera de desdobramento e aplicação, sem, no entanto, mutilar a Doutrina. Esse desdobramento, no correr do tempo, há de deslocar, rearrumar e tornar obsoletos muitos dos mais caros conceitos da ciência moderna, não apenas na Psicologia, mas em todos os ramos do conhecimento, naquilo que concerne ao ser humano, como unidade social. É justo admitir, no entanto, que muitas das noções catalogadas pela ciência, serão aproveitadas e iluminadas sob um novo ângulo, com uma nova luz e acabarão por oferecer uma visão nítida do homem e do mundo que o cerca, objetivo multimilenar da especulação humana.

Que estamos esperando? Onde estão os pensadores espíritas? Os psicólogos, sociólogos, biólogos, médicos, enfim, os artífices espiritualizados e evangelizados da sociedade futura? Os temas aí estão, e a Ciência aguarda aqueles que irão conciliar conhecimento e moral, razão e fé, o homem e Deus.

(2) Relembremos o sentido da expressão noesis escolhida por Aristóteles e que quer dizer conhecimento.

(Obreiros do Bem - Agosto de 1976)