sábado, 15 de dezembro de 2007

KARDEC E A DOUTRINA

A Obra de Kardec e Kardec Diante da Obra
Hermínio C. Miranda



Sempre haverá muito que aprender na obra de Allan Kardec, não apenas aqueles que se iniciam no estudo da Doutrina Espírita, como também os que dela já têm conhecimento mais profundo. Isso porque os livros que divulgam idéias construtivas — e especialmente idéias novas — nunca se esgotam como fonte de onde fluem continuamente motivações para novos arranjos e, portanto, de progresso espiritual, sem abandonar a contextura filosófica sobre as quais se apóiam. Para usar linguagem e terminologia essencialmente espíritas, diríamos que o perispírito da doutrina permanece em toda a sutileza e segurança de sua estrutura, ao passo que o espírito da Doutrina segue à frente, em busca de uma expansão filosófica, sujeito que está ao constante embate com a tremenda massa de informação que hoje nos alcança, vinda de todos os setores da especulação humana. De fato, a Doutrina Espírita está exposta às mais rudes confrontações, por todos os seus três flancos ao mesmo tempo: o filosófico, o científico e o religioso. A cada novo pronunciamento significativo da filosofia, da ciência ou da especulação religiosa, a doutrina se entrega a um processo introspectivo de auto-análise para verificar como se saiu da escaramuça. Isso tem feito repetida mente e num ritmo cada vez mais vivo, durante mais de um século. E com enorme satisfação, podemos verificar que nossas posições se revelaram inexpugnáveis. Até mesmo idéias e conceitos em que a Doutrina se antecipou aos tempos começam a receber a estampa confirmatória das conquistas intelectuais como, para citar apenas dois exemplos a reencarnação e a pluralidade dos mundos habitados. Poderíamos citar ainda a existência do perispírito que vai cada dia mais tornando-se uma necessidade científica, para explicar fenômenos que a biologia clássica não consegue entender. Quando abrimos hoje revistas, jornais e livros sintonizados com as mais avançadas pesquisas e damos com o nome de importantes cientistas examinando a sério a doutrina palingenésica ou a existência de vida inteligente fora da Terra, somos tomados por um legítimo sentimento de segurança e de crescente respeito pelos postulados da doutrina que os Espíritos vieram trazer-nos. Tamanha era a certeza de Kardec sobre tais aspectos que escreveu que o Espiritismo se modificava nos pontos em que entrasse em conflito com os fatos científicos devidamente comprovados.
Essa observação do Codificador, que poderia parecer a muitos a expressão de um receio ou até mesmo uma gazua para eventual saída honrosa, foi, ao contrário, uma declaração corajosa de quem pesou bem a importância do que estava dizendo e projetou sobre o futuro a sua própria responsabilidade. O tempo deu-lhe a resposta que ele antecipou: não, não há o que reformular, mas se algum dia houver, será em aspectos secundários da doutrina e jamais nas suas concepções estruturais básicas, como a existência de Deus, a sobrevivência do Espírito. a reencarnação e a comunicabilidade entre vivos e "mortos".
O que acontece é que a doutrina codificada não responde a todas as nossas indagações, e nem as de Kardec foram todas resolvidas nos seus mínimos pormenores e implicações. “O Livro dos Espíritos” é um repositório de princípios fundamentais de onde emergem inúmeras “tomadas” para outras tantas especulações e conquistas e realizações. Nele estão os germes de todas as grandes idéias que a humanidade sonhou pelos tempos afora, mas os Espíritos não realizam por nós o nosso trabalho. Em nenhum outro cometimento humano vê-se tio claramente os sinais de uma inteligente, consciente e preestabelecida coordenação de esforços entre as duas faces da vida — a encarnada e a desencarnada. Tudo parece — e assim o foi — meticulosamente planejado e escrupulosamente executado. A época era aquela mesma, como também o meio ambiente e os métodos empregados. Para a carne vieram os espíritos incumbidos das tarefas iniciais e das que se seguiram, tudo no tempo e no lugar certos. Igualmente devem ter sido levadas em conta a fragilidade e as imperfeições meramente humanas, pois que também alternativas teriam sido planejadas com extremo cuidado. Há soluções opcionais para eventuais falhas, porque o trabalho era importante demais para ficar ao sabor das imperfeições humanas e apoiado apenas em dois ou três seres, por maiores que fossem. Ao próprio Kardec, o Espírito da Verdade informa que é livre de aceitar ou não o trabalho que lhe oferecem. O eminente professor é esclarecido, com toda a honestidade e sem rodeios, que a tarefa é gigantesca e, como ser humano, seria arrastado na lama da iniqüidade, da calúnia, da mentira, da infâmia. Que todos os processos são bons para aqueles que se opõem à libertação do homem. Que ele, Kardec, poderia também falhar. Seu engajamento seria, pois, de sua livre escolha e que, se recusasse a tarefa, outros havia em condições de levá-la a bom termo.
O momento é dramático. É também a hora da verdade suprema, pois o plano de trabalho não poderia ficar comprometido por atitudes dúbias e meias-palavras. Aquilo que poderia parecer rudeza de tratamento é apenas ditado pote seriedade do trabalho que se tinha a realizar no plano humano. Kardec aceitou a tarefa e arrostou, com a bravura que lhe conhecemos, a dureza das aflições que sobre ele desabaram, como estava previsto. Tudo lhe aconteceu, como anunciado; os amigos espirituais seriam incapazes de glamourizar a sua colaboração e minimizar as dificuldades apenas para induzi-lo a aceitar a incumbência.
Por outro lado, se ele era, entre os homens, o chefe do movimento, pois alguém Unha que o liderar, compreendeu logo que não era o dono da doutrina e jamais desejou sê-lo. Quando lhe comunicam que foi escolhido para esse trabalho gigantesco, sente com toda a nitidez e humildade a grandiosidade da tarefa que lhe oferecem e declara que de simples adepto e estudioso a missionário e chefe vai uma distância considerável, diante da qual ele medita, não propriamente temeroso, mas preocupado, dado que era homem de profundo senso de responsabilidade. Do momento em que toma a incumbência, no entanto, segue em frente com uma disposição e uma coragem inquebrantáveis.
Esse aspecto da sua atuação jamais deve ser esquecido a consciência que tem da sua posição de coordenador do movimento e não de seu criador. Não deseja que a doutrina nascente seja ligada ao seu nome. Apaga-se deliberadamente e tenazmente para que a obra surja como planejada, isto é, uma doutrina formulada pelos Espíritos e transmitida aos homens pelos Espíritos, contida numa obra que fez questão de intitular “O Livro dos Espíritos”. Por outro lado, não é intenção dos mensageiros espirituais — ao que parece — ditar um trabalho pronto e acabado, como um “flash” divino, de cima para baixo. Deixam a Kardec a iniciativa de elaborar as perguntas e conceber não a essência do trabalho, mas o plano geral da sua apresentação aos homens. A obra não deve ser um monólogo em que seres superiores pontificam eruditamente sobre os grandes problemas do ser e da vida; é um diálogo no qual o homem encarnado busca aprender com os irmãos mais experimentados novas dimensões da verdade. E preciso, pois, que as questões e as dúvidas sejam levantadas do ponto de vista humano, para que o mundo espiritual as esclareça na linguagem simples da palestra, dentro do que hoje se chamaria o contexto da psicologia específica do ser encarnado. Por isso, Kardec não se julga o criador da Doutrina, mas é infinitamente mais do que um mero copista ou um simples colecionador de pensamentos alheios. Deseja apagar-se individualmente para que a obra sobreleve às contingências humanas; a Doutrina não deve ficar “ligada” ao seu nome pessoal como, por exemplo, a do super-homem a Nietszche, o islamismo a Maomé, o positivismo a Augusto Comte ou a teoria da relatividade a Einstein; é, no entanto, a despeito de si mesmo, mais do que simples colaborador, para alcançar o estágio de um co-autor quanto ao plano expositivo e às obras subseqüentes. Os Espíritos deixam-lhe a iniciativa da forma de apresentação. A princípio, nem ele mesmo percebe que já está elaborando ‘O Livro dos Espíritos”; parece-lhe estar apenas procurando respostas às suas próprias interrogações. Homem culto, objetivo, esclarecido e com enormes reservas às doutrinas religiosas e filosóficas da sua época, tem em mente inúmeras indagações para as quais ainda não encontrara resposta. Ao mesmo tempo em que vai registrando as observações dos Espíritos, vai descobrindo um mundo inteiramente novo e insuspeitado e tem o bom senso, de não se deixar fascinar pelas suas descobertas.
E, pois, ao sabor de sua controlada imaginação que organiza o esquema das suas perguntas e quando dá conta de si tem anotações metódicas, lúcidas, simples de entender e, no entanto, do mais profundo e transcendental sentido humano. Sem o saber, havia coligido um trabalho que, pela sua extraordinária importância, não poderia ficar egoisticamente preso à sua gaveta; era preciso publicá-lo e isso mesmo lhe dizem os Espíritos. Assim o fez e sabemos de sua surpresa diante do sucesso inesperado da obra.
Daí em diante, isto é, a partir de “O Livro dos Espíritos”, seus amigos assistem-no, como sempre o fizeram, mas deixam-no prosseguir com a sua própria metodologia e nisso também ele era mestre consumado, por séculos de experiência didática. As obras subseqüentes da Codificação não surgem mais do diálogo direto com os Espíritos e sim das especulações e conclusões do próprio Kardec, sem jamais abandonar, não obstante, o gigantesco painel desenhado a quatro mãos em “O Livro dos Espíritos”.
Conversando uma vez, em nosso grupo, sobre o papel de certos espíritos na história, disse-nos um amigo espiritual que é muito importante para todos nós o trabalho daqueles a quem ele chamou Espíritos ordenadores. São os que vêm incumbidos de colocar em linguagem humana, acessível, as grandes idéias. Sem eles, muito do que se descobre, se pensa e se realiza ficaria perdido no caos e na ausência de perspectiva e hierarquia. São eles —Espíritos lúcidos, objetivos e essencialmente organizadores — que disciplinam as idéias, descobrindo-lhes as conexões, implicações e conseqüências, colocando-as ordenadamente ao alcance da mente humana, de modo facilmente acessível e assimilável, sob a forma de novas sínteses do pensamento. São eles, portanto, que resumem um passado de conquistas e preparam um futuro de realizações. Sem eles, o conhecimento seria um amontoado caótico de idéias que se contradizem, porque invariavelmente vem joio com o trigo, na colheita, e ganga com ouro, na mineração. São eles os faiscadores que tudo tomam, examinam, rejeitam, classificam e colocam no lugar certo, no tempo certo, autruisticamente, para que quem venha depois possa aproveitar-se das estratificações do conhecimento e sair para novas sínteses, cada vez mais amplas, mais nobres, mais belas, ad infinitum.
Allan Kardec é um desses espíritos. Não diremos que seja um privilegiado porque essa classificação implica idéia de prerrogativa mais ou menos indevida e as suas virtudes são conquistas legítimas do seu espírito, amadurecidas ao longo de muitos e muitos séculos no exercício constante de uma aguda capacidade de julgamento — é, pois, um direito genuinamente adquirido pelo esforço pessoal do espírito e não uma concessão arbitrária dos poderes superiores da vida. O trabalho que realizou pela Doutrina Espírita é de inestimável relevância. Para avaliar a sua importância basta que nos coloquemos, por alguns instantes, na posição em que ele estava nos albores do movimento. Era um homem de 50 -anos de idade, professor e autor de livros didáticos. Sua atenção é solicitada para os fenômenos, mas ele não é de entregar-se impulsivamente aos seus primeiros entusiasmos. Quer ver primeiro, observar, meditar e concluir, antes de um envolvimento maior. Quando recebe a incumbência e percebe o vulto da tarefa que tem diante de si, nem se intimida, nem se exalta. É preciso, porém, formular um plano de trabalho. Por onde começar? Que conceitos selecionar? Que idéias têm precedência sobre outras? Serão todas as comunicações autênticas? Será que os Espíritos sabem de tudo? Poderão dizer tudo o que sabem?
É tudo novo, tudo está por fazer e já lhe preveniram que o mundo vai desabar sobre ele. O cuidado tem de ser redobrado, para que o edifício da doutrina não tenha uma rachadura, um fresta, um ponto fraco, uma imperfeição; do contrário, poderá ruir, sacrificando toda a obra. Os representantes das trevas estão atentos e dispostos a tudo. Os Espíritos o ajudam e o inspiram e o incentivam, embora sejam extremamente parcimoniosos em elogios e um tanto enérgicos nas advertências. Quando notam um erro de menor importância numa exposição de Kardec, não indicam o ponto fraco; limitam-se a recomendar-lhe que releia o texto, que ele próprio encontrará o engano. Do lado humano, encarnado, da vida, é um trabalho solitário. Não tem a quem recorrer para uma sugestão, um conselho, um debate. Os amigos espirituais somente estão à sua disposição por algum tempo, restrito, sob limitadas condições, durante as horas que consegue subtrair ao seu repouso, porque as outras são destinadas a ganhar a vida, na dura atividade de modesto guarda-livros.
Sem dúvida alguma, trata-se de um trabalho de equipe, tarefa pioneira, reformadora, construtora de um novo patamar para a escalada do ser na direção de Deus. As velhas doutrinas religiosas não satisfazem mais, a filosofia anda desgovernada pelos caminhos da negação e a ciência desgarrada de tudo, aspirando ao trono que o dogmatismo religioso deixou vago. No meio de tudo isso, o homem que pensa e busca um sentido para a vida se atormenta e se angustia, porque não vê suporte onde escorar sua esperança. A nova doutrina vem trazer-lhe o embasamento que faltava, propor uma total reformulação dos conceitos dominantes. Ciência e religião não se eliminam, como tantos pensavam; ao contrário, se completam, coexistindo com a filosofia. O homem que raciocina também pode crer e o crente pode e deve exercer, em toda a extensão, o seu poder de análise e de crítica. Isso não é apenas tolerado, senão estimulado, pois entende Kardec que a fé só merece confiança quando passada pelos filtros da razão. Se não passar, é espúria e deve ser rejeitada.
Concluindo, assim, o trabalho que lhe competia junto aos Espíritos ainda lhe resta muito a fazer, e o tempo urge. Incumbe-lhe agora inserir a nova doutrina no contexto do pensamento de seu tempo — como se diria hoje. Terminou o recital a quatro mãos e começa o trabalho do solista, porque o mestre ainda está sozinho entre os homens, embora cercado do carinho e da amizade de seus companheiros espirituais. Atira-se, pois, ao trabalho. A luz do seu gabinete arde até altas horas da noite. E preciso estudar e expor aos homens os aspectos experimentais implícitos na Doutrina dos Espíritos. Desses aspectos, o mais importante, sem dúvida, é a prática da mediunidade, instrumento de comunicação entre os dois mundos. Sem um conhecimento metodizado da faculdade mediúnica, seria impossível estabelecer as bases experimentais da doutrina. Daí, o “O Livro dos Médiuns”.
Em seguida, é preciso dotar o Espiritismo de uma estrutura ética. Não é necessário criar uma nova moral; já existe a do Cristo. O trabalho é enorme e exige tudo de seu notável poder ordenador. E que o ensinamento de Jesus, com a passagem dos séculos e ao sopro de muitas paixões humanas, ficara soterrado em profunda camada de impurezas. Kardec decidiu reduzir ao mínimo os atritos e controvérsias, buscando nos Evangelhos apenas o ensinamento moral, sem se deter, portanto, na análise dos milagres, nem dos episódios da vida pública do Cristo, ou dos aspectos que foram utilizados para a elaboração dos dogmas. Dentro dessa idéia diretora, montou com muito zelo e amor “O Evangelho segundo o Espiritismo”. O problema dos dogmas — pelo menos os principais —ficaria para “O Céu e o Inferno” e sobre as questões científicas ainda voltaria a escrever em “A Gênese”.
E assim concluía mais uma etapa da sua tarefa. O começo, onde andaria? Em que tempo e em que ponto cósmico? Era — e é — um espírito reformador, ordenador, preparador de novas veredas. A continuação, seus amigos espirituais deixaram-no entrevê-la ao anunciar-lhe que se aproximava o término da existência terrena, mas não dos seus encargos: voltaria encarnado noutro corpo, lhe disseram, para dar prosseguimento ao trabalho. Ainda precisavam dele e cada vez mais. Nada eram as alegrias que experimentava ao ver germinar as sementes que ajudara a semear; aquilo eram apenas os primeiros clarões de uma nova madrugada de luz. Quando voltasse, teria a alegria imensa de ver transformadas em árvores majestosas as modestas sementeiras das suas vigílias, regadas por dores muitas. Não seria mais o vulto solitário a conversar com os Espíritos e a escrever no silêncio das horas mortas —teria companheiros espalhados por toda a Terra, entregues ao mesmo ideal supremo de trabalhar sem descanso na seara do Cristo, cada qual na sua tarefa, conforme seus recursos, possibilidades e limitações, dado que o trabalho continua entregue a equipes, onde o personalismo não pode ter vez para que as paixões humanas não o invalidem.
“De modo que — dizia Paulo — nem o que planta é alguém, nem o que rega, senão Deus que a faz crescer.
E o que planta e o que rega são iguais; se bem que cada um receberá o seu salário segundo seu próprio trabalho, já que somos colaboradores de Deus e vós, campo de Deus, edificação de Deus” (1 Coríntios, 3:7 a 9).
Trabalhadores de Deus desejamos ser e o seremos toda vez que apagarmos o nosso nome na glória suprema do anonimato, para que o nosso trabalho seja de Deus, que faz germinar a semente e crescer a árvore, e não nosso, que apenas confiamos a semente ao solo. Somos portadores da mensagem, não seus criadores, porque nem homens nem espíritos criam; apenas descobrem aquilo que o Pai criou.
São essas as dominantes do espírito de Kardec. Sua vitória é a vitória do equilíbrio e do bom senso, é a vitória do anonimato e da humildade, notável forma de humildade que não se anula, mas que luta e vence. Como figura humana, nem sequer aparece nos livros que relatam a saga humana. Para o historiador leigo, quem foi Kardec? Seu próprio nome civil, Hippolyte-Léon Denizard Rivail, ele o apagou para publicar seus livros com o nome antigo de um obscuro sacerdote druida.
De modo que não é somente a obra realizada por Kardec que devemos estudar, é também sua atitude perante a obra, porque tudo neste espírito é uma lição de grandeza em quem não deseja ser grande.
Nas Fronteiras do Além – Hermínio C Miranda






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terça-feira, 11 de dezembro de 2007

EVOLUÇÃO E EVANGELHO

Evolução e Evangelho


Pietro Ubaldi

A dor é que acorda o instinto de vida, que adormece no bem-estar. Os climas doces e cálidos não criam homens fortes e lutadores como os que são filhos de climas ásperos e duros. As desventuras e a necessidade da luta ensinam coisas que só aqueles que lhes estão sujeitos podem aprender. A vida jamais se resigna a morrer, e muitas vezes, em vez de matá-la, as muitas dificuldades a fazem forte e sábia, quando isto é indispensável para sobreviver os obstáculos são duros de superar, mas os que aprenderam a superá-los possuem um conhecimento e uma força para sua defesa, todavia os que encontraram a vida fácil estão bem longe de possuir essa força. Nas mãos da vida sábia tudo se resolve em construção e progresso. Quando a evolução não se realiza pela alegria de progredir, a vida a realiza com o chicote da dor, para que se cumpra, de qualquer forma, o progresso, que é o maior bem para o ser.

As atitudes que o indivíduo assume diante das dificuldades, variam para cada pessoa. Mas o ressentir-se diante da dor produz um efeito mais ou menos comum a todos, que é o de pôr a nu e revelar a verdadeira natureza do indivíduo. Ele é reconhecido pelo seu tipo de reação, porque parece que, colocado diante das mais profundas realidades da vida como a dor e a morte, o ser não sabe mais mentir. Ora, o que dirige a reação e lhe define a forma, é a natureza do biotipo. É lógico que a reação não pode criar um ser novo, mas apenas mostrar-nos quem é ele verdadeiramente, na hora em que se veja constrangido a usar todos os seus recursos, a qualquer custo. É lógico que o ponto de partida do novo passo adiante não pode ser dado, senão como valor e qualidade, a partir da posição precedente do ser. Teremos assim uma reação e um esforço proporcionados a essa posição. Assim, o biótipo inferior reagirá como inferior, o mais evoluído, como evoluído, do forma mais elevada. Assim, diante de uma dor desesperada, quem não possui nenhum recurso nem no bem, nem no mal, se abandonará nas tenazes da correnteza até à morte, aprendendo o pouco que pode da lição. Quem tem tendência á mentira e ao mal, reage com a traição e o crime, vingando-se do próximo e involuindo cada vez mais para baixo, porque é baixa a natureza do indivíduo. Quem é violento e não está habituado ao controle, pode reagir com o suicídio. Quem possui tendência para os gozos inferiores, reagirá com excessos e vícios procurando esquecer, naquelas efêmeras alegrias em que ele acredita, as próprias dores. Mas existem também os que reagem com a santidade, com o amor operante para o bem do próximo. Esta é a reação dos fortes e dos grandes.

As adversidades e a insatisfação da vida podem excitar diversas revoltas. Dessas reações é que nascerão muitos santos. Quantas vezes o santo é um rebelde que não quer adaptar-se a aceitar as condições do ambiente; é um revoltado que explode, criando, com sua revolução, novos conceitos de vida. Mas o grande valor de sua reação está justamente no fato de que ela é dirigida para o bem, no sentido construtivo: é uma revolta para subir, e não para descer. Eis o que pode ocorrer quando, no indivíduo, existe o estofo do ser superior. Mas se este não existe, não há dor, por mais desesperada, que possa improvisar esse tipo de homem. Se bastasse a dor para criar um santo, o mundo, que está cheio de dores, deveria estar cheio de santos. Vemos, ao contrário manifestarem-se reações bem diferentes.

A vida é um recipiente que, em si mesmo, vale pouco. Tudo depende do valor do conteúdo que lhe derramamos dentro. Podemos colocar dentro dela o que quisermos. Se pusermos coisas nobres e grandes, a vida se tornará um escrínio precioso. Se dentro lhe colocarmos podridão, tornar-se-á uma caixa de imundícies. A vida é uma estrada feita para caminhar, é um meio para atingir um objetivo. Se a fizermos fim de si mesma, se, por querer-nos conservar demais, não quisermos caminhar e renovar-nos, deteremos o movimento da vida e o mataremos. Então, tudo terá caminhado menos nós, e permaneceremos atrás.

Então, teremos vivido no vazio, e poderão escrever em nosso túmulo: "tempo perdido".


A grandeza da vida consiste em fazer dela um meio para transformar o mal em bem, fazendo de um inimigo que nos atormenta, como é a dor, um mestre amigo que nos ensina; de uma condenação medrosa, uma escola para aprender. Ora, a vida está cheia de sofrimentos e insatisfações, aptas a provocar nossa reação. O segredo da sabedoria está no saber reagir. A solução do problema está na forma que nossa reação assumir. A vida nos espicaça com esses estimulantes, que esfolam a chaga e põem a nu a carne viva. A operação é dura, mas e para nosso bem, porque somente depois da raspagem e da limpeza com a podridão removida, a carne nova e sã crescendo, pode cicatrizar a chaga. Assim, diante da dor deveremos ter muito mais do que a simples paciência passiva e cega do burro chicoteado: devemos ter a inteligência iluminada e a bondade operante, de quem compreendeu o mecanismo da dor e quer tirar dela toda a vantagem possível, colaborando com a inteligência da vida, que no-la manda para nosso bem. O sistema usado por alguns, de revoltar-se contra a dor, sofrendo-o com a alma envenenada, não resolve o problema, não melhora, mas piora nossas condições. Quanto mais nos agitarmos com o nó do enforcado à garganta, mais esse nó se apertará. A posição de maior vantagem e de menor prejuízo em relação à dor, é a de aceitá-la, não passivamente, mas para pôr-nos a seu lado construtivamente, com ela colaborando para nosso benefício.

sábado, 1 de dezembro de 2007



FÍSICA QUANTICA E ESPIRITISMO: UM ALERTA!

Alexandre Fontes da Fonseca



Apesar dos fenômenos ao nível quântico revelarem uma realidade muito diferente da que estamos habituados, carecemos ainda de maiores pesquisas antes de afirmar que a Física Quântica está confirmando os princípios espiritualistas.


A Física Quântica tem sido considerada, no meio espírita, como em alguns grupos religiosos, como sendo aquela que vai confirmar a existência de Deus e do espírito. Nesta matéria, temos um ponto de vista mais cuidadoso do que é normalmente apresentado. De fato, os fenômenos ao nível quântico têm feito os cientistas se sentirem incomodados e perplexos já que eles mostram que na realidade os nossos cinco sentidos nos fazem crer numa verdade ilusória. Porém, isso não significa que a Física Quântica esteja admitindo a existência de “algo exterior” ou “além da matéria”, conforme proposto pelas doutrinas espiritualistas. O movimento espírita deve, portanto, ser cuidadoso ao divulgar idéias ligadas aos fenômenos espíritas e àquelas propostas pela Física.

Nesta matéria um importate alerta é feito: afirmativas como “o perispírito causa a flutuação do vácuo quântico”, “a Física Quântica prova a existência de Deus” e “o espaço-tempo negativo representa o mundo espiritual”. Estas afirmativas carecem de credibilidade tanto científica como espírita, porque não foram obtidas conforme critérios científicos e da Doutrina Espírita. Não se sabe como essas conclusões foram obtidas e que passos teóricos e experimentais foram seguidos para obtenção do resultado final. Para que uma afirmativa seja considerada científica, não basta que ela envolva um assunto científico e nem que o autor dessa afirmativa seja cientista. É preciso que seja apresentada uma explicação mais detalhada e doutrinariamente embasada.

Apesar das nobres intenções de nossos irmãos que divulgam essas idéias, elas podem trazer consequências negativas para o movimento espírita. Para entendermos melhor o enfoque do problema, citamos Kardec (ítem VII da Intro-dução de O Livro dos Espíritos[1]): “Na ausência de fatos, a dúvida é a opinião do homem prudente”. Esta é a principal razão pela qual se deve tomar cuidado na divulgação de idéias e teorias espíritas que utilizem conceitos das outras ciências. Como os paradoxos da Física Quântica ainda não foram resolvidos pelos cientistas, é prudente esperarmos pelo desenvolvimento das pesquisas nesta área, de modo que possamos, como espíritas, nos posicionarmos melhor perante elas. Pelo simples fato de que nem todos os resultados experimentais da teoria quântica foram totalmente explicados, não autoriza ninguém a afirmar, por exemplo, que Deus ou o espírito é que estão por trás desses fenômenos. Esta atitude é equivocada, não-científica e, o que é pior, expõe o Espiritismo a críticas desnecessárias, afastando as pessoas que trabalham no meio científico e que conhecem bem o assunto.

Novas descobertas causam enormes revisões nos modelos teóricos existentes, demonstrando a fragilidade e o caráter efêmero das recentes teorias da Física. Recentemente tivemos a oportunidade de comentar a respeito desta fragilidade na Física, devido a uma importante descoberta na Física de partículas, e comparar com a solidez da Doutrina Espírita que passou incólume perante todos os descobrimentos do século XX[2]. Esta solidez se dá justamente porque o Espiritismo é uma doutrina baseada em fatos experimentais[2]1.

Comumente critica-se a comunidade científica por não se interessar pelas questões espiritualistas, no entanto, essa postura é bastante prudente. Imaginem se a Ciência desse crédito a toda teoria espiritualista que diz basear-se na Física Quântica para provar a existência de Deus, do espírito ou qualquer outro princípio. Uma pesquisa rápida na internet mostra que existem grupos e seitas religiosas que se utilizam da Física Quântica para darem respaldo aos mais variados assuntos. É importante saber que a comunidade científica prefere rejeitar tais idéias do que se arriscar com uma que seja completamente equivocada. Não foi isso que Kardec nos orientou com relação a novas questões? O espírito de Erasto nos orienta: “mais vale repelir 10 verdades que admitir uma só mentira, uma só teoria falsa”[4].

Por outro lado, esta afirmação não impede ao leitor de estudar e pesquisar seriamente tais fenômenos. Propostas teóricas serão sempre bem vindas. Porém, é preciso que o pesquisador entenda perfeitamente tanto as informações científicas quanto a Doutrina Espírita. É necessário que cada proposta teórica seja consistente tanto com os fenômenos materiais, quanto com os doutrinários aos quais se referem. Um ponto importantíssimo é que qualquer idéia ou sugestão não comprovadas científicamente deve ser divulgada e declarada como tal e não como uma certeza científica. Isto é importante, pois orienta os futuros leitores quanto ao atual status da pesquisa em determinados assuntos.

Na próxima matéria pretendemos explicar porque alguns fenômenos ao nível quântico geram uma idéia de que algo de origem divina esteja por trás deles. Comentaremos alguns pontos positivos e negativos a respeito da recente proposta espiritualista feita pelo físico Prof. Dr. Amit Goswami para solucionar os paradoxos da Física Quântica.

Lembremos ainda o ceticismo de Allan Kardec com relação às mesas girantes antes de conhecer melhor as causas do fenômeno. Achava ele que se tratava de um frívolo divertimento sem objetivo muito sério. Mas após constatar o fenômeno, buscou interpretá-lo à luz dos conhecimentos científicos da época. E, percebendo que os fatos tinham origem inteligente, Kardec iniciou um longo e paciente trabalho de pesquisa onde, somente após muita observação, estudo e questionamento, publicou sua primeira obra, O Livro dos Espíritos. Caros irmãos de ideal espírita, a ciência se desenvolveu muito desde então, porém, o exemplo do Codificador permanece tão atual quanto o foi em sua época. Sigamos o seu exemplo trabalhando na pesquisa espírita com muita perseverança, paciência, observação, meditação, estudo e, só então, depois de muita análise e muita autocrítica, é que devemos levar a público os frutos de nossa pesquisa. Não é necessário pressa, mas sim que tenhamos acuidado naquilo que estivermos informando. Nada como um pequeno passo após o outro. As gerações futuras agradecerão nossos esforços de hoje.


Referências
[1] Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, FEB, 76a. Edição, (1995).
[2] A. F. da Fonseca, Revista Internacional de Espiritismo, março, p. 93 (2003).
[3] F. Capra, O Tao da Física I, Editora Cultrix LTDA, 15a. Edição, (1993).
[4] A. Kardec, Revista Espírita 8, p.257, (1861).

1 Na matéria da referência [2] o leitor encontrará, também, um comentário a respeito das críticas ao famoso livro “O Tao da Física”[3].



(Artigo publicado no Jornal Alavanca Setembro 2003 e reproduzido com autorização do autor)

PARA REFLETIR...PARTE II




A FÍSICA QUÂNTICA EM BUSCA DA PARTÍCULA DIVINA
Luís de Almeida, Porto, Portugal

luis.almeida@mail.telepac.pt

“Confesso que, após cuidadosa e atenta leitura deste trabalho, conclui que foi um dos melhores artigos que já tive o prazer de ler. Ele se me afigura o mais erudito e informativo trabalho acerca da relação entre a Física e o Espiritismo, até agora escrito em idioma português. Se traduzido para o inglês será, sem dúvida, apreciadíssimo, inclusive pelos físicos mais modernos que, atualmente, divulgam obras acerca do relacionamento entre a Consciência e o Universo, vislumbrado sob a óptica das Físicas Quântica e Relativística. Menciono, como exemplos, os livros de Michio Kaku (Hiperespaço, ed. Rocco, Rio de Janeiro, RJ) e de Amit Goswami (O Universo Autoconsciente, edit. Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro)”.
Dr. Hernani Guimarães Andrade


Dizer que vivemos num mundo material, hoje em dia é simplesmente uma força de expressão, pois vivemos num mundo eminentemente energético, já o dizia Albert Einstein nos idos de 1921, através da sua fórmula bem conhecida E = mc², que passou a ser E = ± mc², face à antimatéria. Hoje estamos a obter comprovações bastante importantes por parte dos físicos contemporâneos na descoberta de uma consciência, para lá do universo das partículas.

· O universo das partículas
As partículas elementares são, até agora, consideradas as seguintes: quarks, leptões e gluões (se bem que pelo que me consta, ainda não tenham sido "observados" quarks isolados).
Essas micropartículas, cuja estrutura interna se baseia em quarks e/ou antíquarks ligados, são chamados hadrões é o caso dos protões, neutrões, mesão PI (e outros) e suas anti-partículas respectivas.
Aqui surgem duas sub-familias a dos bariões (partículas formadas por três quarks podendo haver também antiquarks) e a dos mesões (partículas formadas por dois quarks - um quark e um antiquark).
Depois existe uma família de partículas verdadeiramente elementares, ao que até agora se julga, os leptões. Fazem parte dessa família os electrões, o muão, o tau e os neutrinos de cada um deles, bem como todas as suas anti-partículas. A diferença entre os leptões, até agora ditos com massa, e os neutrinos é a inexistência de carga eléctrica nos neutrinos e, possivelmente, a sua massa extraordinariamente baixa.

· As quatro interacções fundamentais do universo
Para fazer do conjunto dos terceiros actores do filme cósmico, temos que lembrar que existem na natureza quatro interacções fundamentais entre as partículas que constituem o Universo:
Interacção gravítica - interacção entre corpos com massa;
Interacção electromagnética - interacção entre carga eléctricas em repouso relativo e cargas eléctricas em movimento relativo:
Interacção fraca - Interacção entre hadrões;
Interacção forte - Interacção entre quarks.
Para cada interacção existe uma partícula característica de troca, ou intermediária, entre as partículas que interagem. Essas partículas são chamadas de gluões. Existem deste modo gluões específicos para cada interacção:
Interacção gravítica – gravitões -, ainda não observados porque é impossível fabricá-los na Terra e difícil detectá-los no Universo;
Interacção electromagnética - fotões;
Interacção fraca - gluões fracos;
Interacção forte - gluões fortes.
A maior parte dos físicos modernos esperam encontrar uma teoria única que englobe as quatro forças elementares numa só, ou seja, estas quatro interacções elementares não sendo mais que aspectos diferentes de uma só força ou interacção.
Mas afinal o que será a causa deste efeito?
Não será, o “Pensamento” do Criador de todas as coisas? Ora, vejamos.
André Luiz, In Evolução em Dois Mundos, (11) diz-nos, que: “(...) o homem no plano espiritual, vai lidar, mais directamente, com um fluido vivo e multiforme, estuante e inestancável, (...) absorvido pela mente humana, em processo vitalista semelhante á respiração, pelo qual a criatura assimila a Força emanente do Criador, esparsa em todo o Cosmos, transubstanciando-a, sob a própria responsabilidade, para influenciar na Criação a partir de si mesma. Esse fluido, é seu próprio pensamento contínuo, gerando potenciais energéticos (...)”. Não confundamos a definição clássica de fluido.
Estamos perante o grande entendimento, ainda embrionário da «Mecânica do Pensamento de Deus», gerador de toda a Criação, na conversão de “potenciais energéticos”.
Este principio elementar de todos os outros, como Allan Kardec (9) nos transmite, sendo a causa, a fonte, o principio, a verdadeira matriz, nada mais que - “O Fluido Cósmico Universal”, e que os físicos esperam encontrar, - a síntese de todas as quatro forças Universais, sujeitas a uma só lei e a uma só partícula elementar. Allan Kardec diz-nos ainda, que a matéria é formada de um só elemento primitivo.
Mas afinal, o que são essas quatro forças elementares, se não derivadas do Fluido Universal, ou seja, o “Fluido Cósmico”, - “Plasma divino, hausto do Criador, ou força nervosa do Todo-Sábio. Nesse elemento primordial vibram e vivem Constelações, Sóis, Mundos e Seres, como peixes no oceano”, afirma André Luiz In Evolução em Dois Mundos (11).
Vejamos O Livro dos Espíritos (9) na pergunta 36:
O vácuo absoluto existe em alguma parte no Espaço universal?
“Não, não há o vácuo. O que te parece vazio está ocupado por matéria que te escapa aos sentidos e aos instrumentos.”
Os físicos modernos são da mesma opinião, recentemente, contrariamente à definição clássica de “vazio”, pois este, era entendido como um espaço intergaláctico, interplanetário, ou interatómico, em que nada existia. Hoje os Físicos sabem que este espaço está recheado de partículas e de antipartículas, - energia, provando uma das definições e derivações do Fluido Cósmico sugerido por Allan Kardec há 150 anos, em que estas quatro interacções povoam o nosso universo, pois, são nada mais que o Fluido Cósmico Universal na sua múltipla diversidade.

· Vivemos no mundo das energias
Iniciemos então com o axioma de que “toda matéria é energia”. Isso é facilmente visualizado na equação proposta por Einstein, onde: E= energia, m= massa e c2= velocidade da luz ao quadrado. Isto significa dizer que se acelerarmos um corpo de massa m ao quadrado da velocidade da luz, então esse corpo se transformaria em energia pura.
Se como vimos acima, energia é matéria “acelerada”, a mesma equação nos permite dizer que matéria é energia “coagulada”, de onde depreendemos que matéria e energia são a mesma coisa em estados diferentes. A primeira com uma energia potencial máxima ou quase, e a segunda com uma energia cinética máxima ou quase.
Seja qual for o estado energético ou material, os dois são de entropia positiva, o que significa que tendem a um dado momento tempo-espacial, a se desorganizarem. Tanto é assim, que tudo o que percebemos e conhecemos no nosso universo está em constante mutação.
Por outro lado, se analisarmos o “Modelo dos Domínios de Frequência Tiller- Einstein do espaço-tempo”, onde o Dr. Willian Tiller da Universidade de Stanford, USA, acrescentou à fórmula de Eisten a constante de proporcionalidade de Einstein -Lorentz (Ö[1-v2/c2]), teremos:
m.c2
1-v2 / c2
E = ± Ooo

· Espaço-tempo negativo – O Mundo Espiritual
Fisicamente, uma partícula acelerada à velocidade da luz gasta uma energia exponencialmente maior, até que em certo ponto o aumento de sua velocidade necessita de uma energia astronomicamente grande, quando se insere números maiores que o da velocidade da luz na equação de Einstein-Lorentz.
O matemático Dr. Charles Muses que parte do postulado da sua validade, deu a eles o nome de hipernúmeros.
Os hipernúmeros traduzem efeitos de energias superiores às da luz em velocidade. À partir do seu postulado, Muses elaborou um gráfico onde temos uma imagem em espelho:
A matéria espaço-tempo positivo só pode existir abaixo da velocidade da luz, ou no universo espaço-tempo físico. A esfera espaço-tempo negativo é composta por partículas que se deslocam à velocidades maiores que a da luz. Essas partículas hipotéticas foram denominadas de Taxion.
Podemos tirar a ilação de que esse universo espaço-tempo negativo é o universo do plano espiritual, de massa negativa e entropia negativa, onde o grau de desorganização tende a zero, em outras palavras, “imutável” ou “eterno”.
Sabemos ainda, que 90% da matéria existente no Universo é desconhecida, a chamada “matéria escura”.
O Livro dos Espíritos (9) esclarece:
84. Os Espíritos constituem um mundo à parte, fora daquele que vemos?
- “Sim, o mundo dos Espíritos, ou das inteligências incorpóreas.”
85. Qual dos dois, o mundo espírita ou o mundo corpóreo, é o principal, na ordem das coisas?
“O mundo espírita, que preexiste e sobrevive a tudo.”
86. O mundo corporal poderia deixar de existir, ou nunca ter existido, sem que isso alterasse a essência do mundo espírita?
- “Decerto. Eles são independentes; contudo, é incessante a correlação entre ambos, porquanto um sobre o outro incessantemente reagem.”
Na “Introdução” do mesmo livro no cap. VI lê-se Kardec:
«Vamos resumir, em poucas palavras, os pontos principais da doutrina que nos transmitiram, a fim de mais facilmente respondermos a certas objecções.
“Os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos.”
“O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente a “tudo.
“O mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir, ou não ter jamais existido, sem que por isso se alterasse a essência do mundo espírita.”

· A Física Moderna leva-nos ao encontro do Espírito e de Deus
A física quântica pode constituir uma ponte entre a ciência e o mundo espiritual, pois segundo ela, pode–se “reduzir” a matéria, de forma subjectiva e no domínio do abstracto, até à consciência – causa da “intelectualidade” da matéria. A consciência transforma as possibilidades da matéria em realidade, transformando as possibilidades quânticas em factos reais. Essa consciência deve apresentar uma unidade e transcender o tempo, espaço e matéria. Não é algo material, na realidade, é a base de todos os seres.
Recordemos o professor de Lyon In O Livro dos Espíritos (9):
23. Que é o Espírito?
- “O princípio inteligente do Universo.”
a) - Qual a natureza íntima do Espírito?
- “Não é fácil analisar o Espírito com a vossa linguagem. Para vós, ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma coisa.”
Tanto é assim, que os físicos teóricos postulam a existência de uma “partícula”, que seria a partícula “fundamental”, que ainda não foi encontrada,

mas a qual o Prémio Nobel da física, Leon Lederman, denomina a “partícula divina”. Partícula essa decisiva pois é ela que determina a massa das restantes, bem como a coesão dada pela gravidade dos 90% do universo ainda desconhecido.
Leiamos Kardec In O Livro dos Espíritos (9):
25. O Espírito independe da matéria, ou é apenas uma propriedade desta, como as cores o são da luz e o som o é do ar?
- “São distintos uma do outro; mas, a união do Espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria.”
26. Poder-se-á conceber o Espírito sem a matéria e a matéria sem o Espírito?
- “Pode-se, é fora de dúvida, pelo pensamento.”
Cabe lembrar que os físicos, a partir das pesquisas do norte-americano Murray Gel Mann nos aceleradores de partícula, já admitem a existência de um domínio externo ao mundo cósmico dito material onde provavelmente existam agentes activos também chamados frameworkers, capazes de actuar sobre a energia do Universo, modulando-a e dando-lhe formas de partícula atómica, ou seja por outras palavras – o espírito, chamado também “Agente Estruturador” por vários físicos teóricos
Retomemos novamente o mestre lionês In O Livro dos Espíritos (9):
76. Que definição se pode dar dos Espíritos?
- “Pode dizer-se que os Espíritos são os seres inteligentes da criação. Povoam o Universo, fora do mundo material.”
536. São devidos a causas fortuitas, ou, ao contrário, têm todos um fim providencial, os grandes fenómenos da Natureza, os que se consideram como perturbação dos elementos?
- “Tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus.”
b) - Concebemos perfeitamente que a vontade de Deus seja a causa primária, nisto como em tudo; porém, sabendo que os Espíritos exercem acção sobre a matéria e que são os agentes da vontade de Deus, perguntamos se alguns dentre eles não exercerão certa influência sobre os elementos para os agitar, acalmar ou dirigir?
- “Mas evidentemente. Nem poderia ser de outro modo. Deus não exerce acção directa sobre a matéria. Ele encontra agentes dedicados em todos os graus da escala dos mundos.”

· A Teoria das Supercordas e a Dimensão Psi
Outra teoria quântica, que vem de encontro a existência de uma “partícula divina consciêncial” no final da escala das partículas subatómicas, é a teoria das supercordas. Essa teoria foi melhorada e é defendida por um dos físicos teóricos mais respeitados da actualidade Edward Witten, professor do Institute for Advanced Study em Princeton, EUA. De maneira bastante simples e resumida, a teoria das supercordas postula que os quarks, mais ínfima partícula subatómica conhecida até o momento, estariam ligados entre si por “supercordas” que, de acordo com sua vibração, dariam a “tonalidade” específica ao núcleo atómico a que pertencem, dando assim as qualidades físico-químicas da partícula em questão.
Querer imaginá-las é como tentar conceber um ponto matemático: é impossível, por enquanto. Além disso, são inimaginavelmente pequenas. Para termos uma ideia: o planeta Terra é dez a vinte ordens grandeza mais pequeno do que o universo, e o núcleo atómico é dez a vinte ordens de grandeza mais pequeno que do que a Terra. Pois bem, uma supercorda é a dez a vinte ordens mais pequena do que o núcleo atómico.
O professor Rivail, esclarece In O Livro dos Espíritos (9):
30. A matéria é formada de um só ou de muitos elementos?
- “De um só elemento primitivo. Os corpos que considerais simples não são verdadeiros elementos, são transformações da matéria primitiva.”
Ou seja, é a vibração dessas infinitesimais “cordinhas” que seria responsável pelas características do átomo a que pertencem. Conforme vibrem essas “cordinhas” dariam origem a um átomo de hidrogénio, hélio e assim por diante, que por sua vez, agregados em moléculas, dão origem a compostos específicos e cada vez mais complexos, levando-nos a pelo menos 11 dimensões.
Corrobora Allan Kardec In O Livro dos Espíritos (9):
79. Pois que há dois elementos gerais no Universo: o elemento inteligente e o elemento material, poder-se-á dizer que os Espíritos são formados do elemento inteligente, como os corpos inertes o são do elemento material?
- “Evidentemente. Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, como os corpos são a individualização do princípio material..”
64. Vimos que o Espírito e a matéria são dois elementos constitutivos do Universo. O princípio vital será um terceiro?
- “É, sem dúvida, um dos elementos necessários à constituição do Universo, mas que também tem sua origem na matéria universal modificada. É, para vós, um elemento, como o oxigénio e o hidrogénio, que, entretanto, não são elementos primitivos, pois que tudo isso deriva de um só princípio.”
Essa teoria traz a ilação de que tal tonalidade vibratória fundamenta é dada por algo ou alguém, de onde abstraímos a “consciência” como factor propulsor dessas cordas quânticas. Assim sendo, isso ainda mais nos faz pensar numa unidade consciencial vibrando a partir de cada objecto, de cada ser.
Complementa Kardec In O Livro dos Espíritos (9):
615. É eterna a lei de Deus?
- “Eterna e imutável como o próprio Deus.”
621. Onde está escrita a lei de Deus?
- “Na consciência.”
Seguindo esta teoria e embarcando na ideia lançada por André Luiz In Evolução em Dois Mundos (11), onde somos co-criadores dessa consciência universal, e cada vez mais responsáveis por gerir o estado vibracional das nossas próprias “cordinhas” – a chamada dimensão Psi por vários investigadores espiritas -, à medida que delas nos conscientizemos, chegaremos a harmonia perfeita quando realmente entrarmos em sintonia com a consciência geradora que está em nós, e também no todo, vulgarmente conhecida por Deus, ou como alguns físicos teóricos sustentam “O Supremo Agente Estruturador”
Leiamos o Codificador In O Livro dos Espíritos (9):
5. Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus?
- “A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base? É ainda uma consequência do princípio - não há efeito sem causa.”
7. Poder-se-ia achar nas propriedades íntimas da matéria a causa primária da formação das coisas?
- “Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É indispensável sempre uma causa primária.”
Interpretemos Allan Kardec In A Génese (10) Cap. II – A Providência:
20. - A providência é a solicitude de Deus para com as suas criaturas. Ele está em toda parte, tudo vê, a tudo preside, mesmo às coisas mais mínimas. É nisto que consiste a acção providencial.
«Como pode Deus, tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo, imiscuir-se em pormenores ínfimos, preocupar-se com os menores actos e os menores pensamentos de cada indivíduo?» Esta a interrogação que a si mesmo dirige o incrédulo, concluindo por dizer que, admitida a existência de Deus, só se pode admitir, quanto à sua acção, que ela se exerça sobre as leis gerais do Universo; que este funcione de toda a eternidade em virtude dessas leis, às quais toda criatura se acha submetida na esfera de suas actividades, sem que haja mister a intervenção incessante da Providência.
Esta consciência única do raciocínio quântico, transforma-se em dois elementos: um objectivo e outro subjectivo. O subjectivo chamamos de ser quântico, universal, indivisível. A individualização desse ser é consequência de um condicionamento. Esse ser quântico é a maneira como pensamos em Deus, que é o ser criador dentro de nós.
Voltemos ao génio de Lyon In A Génese (10) Cap. II – A Providência:
34. – Sendo Deus a essência divina por excelência, unicamente os Espíritos que atingiram o mais alto grau de desmaterialização o podem perceber. Pelo facto de não o verem, não se segue que os Espíritos imperfeitos estejam mais distantes dele do que os outros; esses Espíritos, como os demais, como todos os seres da Natureza, se encontram mergulhados no fluido divino, do mesmo modo que nós o estamos na luz.
Geralmente, nós interpretamos Deus como algo unicamente externo. Pensamos em Deus como um ser separado de nós. Isso é a causa dos conflitos. Se Deus também está dentro de nós, podemos mudar por nossa própria vontade. Mas se acreditamos que Deus está exclusivamente do lado de fora, então supomos que só Ele pode nos mudar e não nos transformamos pela nossa própria vontade. Não podemos excluir a nossa vontade, dizendo que tudo ocorre pela vontade de Deus. Temos de reconhecer o deus que há em nós, como afirmou o Doce Amigo há 2000 anos. Então seremos livres.
Allan Kardec atesta In A Génese (10) Cap. II – A Providência:
24. – (...) Achamo-nos então, constantemente, em presença da Divindade; nenhuma das nossas acções lhe podemos subtrair ao olhar; o nosso pensamento está em contacto ininterrupto com o seu pensamento, havendo, pois, razão para dizer-se que Deus vê os mais profundos refolhos do nosso coração. Estamos nele, como ele está em nós, segundo a palavra do Cristo.
Para estender a sua solicitude a todas as criaturas, não precisa Deus lançar o olhar do Alto da imensidade. As nossas preces, para que ele as ouça, não precisam transpor o espaço, nem ser ditas com voz retumbante, pois que, estando de contínuo ao nosso lado, os nossos pensamentos repercutem nele.

· O Livro dos Espíritos: uma obra actual e de referência

A Física continua a dar ao Espiritismo, ainda que os físicos de tal não se apercebam, ou melhor, não queiram por enquanto se aperceber, uma contribuição gigantesca na confirmação dos postulados espíritas, que de maneira nenhuma nós, os espíritas, poderemos subestimar. Existe uma ciência espírita, com uma metodologia de ciência, assentada nas questões espirituais, mais do que possamos imaginar, e a prova disso é O Livro dos Espíritos (9) - uma obra actual - um manancial para a Física Moderna. Trazendo-nos um novo conceito .básico sobre a visão macro e microcósmica de Deus (ao defini-Lo como “a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”) do Espírito e da Matéria propriamente dita
Concluímos com Allan Kardec In O Livro dos Espíritos (9) resumindo toda esta teoria da Física Moderna de forma magistral, simplesmente espantoso, acreditem...:
27. Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o Espírito?
- “Sim e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas ao elemento material se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o Espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o Espírito possa exercer acção sobre ela. Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo com o elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para que também o Espírito não o fosse. Está colocado entre o Espírito e a matéria; é fluido, como a matéria, e susceptível, pelas suas inumeráveis combinações com esta e sob a acção do Espírito, de produzir a infinita variedade das coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o Espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá.”“.




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Bibliografia:

(1) Dyson, Freeman em Infinito em Todas as Direcções - Edições Gradiva – 1990 – Portugal.
(2) Greene, Brian em O Universo Elegante - Edições Gradiva – 2000 – Portugal.
(3) Hawking, Stephen em Breve História do Tempo (Edição actualizada e aumentada, comemorativa do 1º Aniversário) - Edições Gradiva – 2000 – Portugal.
(4) Hawking, Stephen em O Fim da Física - Edições Gradiva – 1994 – Portugal.
(5) Homepage, CERN - Organisation Européenne Pour La Recherche Nucléaire -http://www.cern.ch/
(6) Homepage, ESA - European Space Agency - http://www.esa.int/export/esaCP/index.html
(7) Homepage, FERMILAB - Fermi National Accelerator Laboratory - http://www.fnal.gov/
(8) Homepage, NASA - National Aeronautics & Space Administration -http://www.nasa.gov/
(9) Kardec, Allan em O Livro dos Espíritos – Edições FEB 76ª edição
(10) Kardec, Allan em A Génese – Edições FEB 36ª edição.
(11) Luiz, André em Evolução em Dois Mundos – Edições FEB 12ª edição
(12) Reeves, Hubert em O Primeiro Segundo - Edições Gradiva – 1996 – Portugal.
(13) Sagan, Carl em Um Mundo Infestado de Demónios – Edições Gradiva – 1997 – Portugal.






Fotos

F1 - Legenda: Diagrama atómico (matéria energia)

F2 - Legenda: Acelerador de partículas do CERN

F3 - Legenda: Teorias unificadas

F4 - Legenda: Partícula subatómica

F5 - Legenda: Geralmente, nós interpretamos Deus como algo unicamente externo.
Pensamos em Deus como um ser separado de nós. Isso é a causa dos
conflitos.

F6 - Legenda : ...nos faz pensar numa unidade consciencial vibrando a partir de cada
objecto, de cada ser

(Artigo originalmente publicado na Revista Internacional do Espiritismo, Março de 2003)

PARA REFLETIR...PARTE I



CIÊNCIA , FILOSOFIA OU RELIGIÃO?
Obra de Rodin permite refletir sobre tríplice aspecto do Espiritismo
Décio landoli Junior

Estava eu visitando o museu de Rodin em Paris, quando deitei meus olhos sobre a obra "As Três Sombras"; achei intrigante o fato de o artista ter feito três homens apontando seus braços esquerdos para o mesmo lugar. Observando melhor, percebi o porquê do nome da obra; são três estátuas exatamente iguais em posições diferentes, apontando para uma mesma direção, evidenciando um mesmo objetivo.
Não sei por que, mas naquele momento pensei no dilema que vivem alguns espíritas sofrendo para classificar a doutrina como sendo uma ciência, uma filosofia ou uma religião, como se esta questão fosse uma espécie de "enigma" ou um "mistério", justamente no Espiritismo, que nos permite a possibilidade do total despojamento desta natureza de coisas, já que, em última análise, elas acabam por se transformar em dogmas a serem impostos.Vi aquela obra, "As Três Sombras", como as três faces da ânsia do conhecimento humano; lembre-se que tal idéia é um devaneio da minha mente e, provavelmente, nem passou pela idéia de Rodin na concepção da escultura. Vi aqueles três homens, diferentes em suas posições, mas iguais em seus objetivos, como a representação dos três grandes meios de busca da humanidade: busca do conforto intelectual, mas também espiritual, busca da harmonia e da felicidade, ou seja, busca da verdade, da verdade como conceito fundamental, busca da verdade como resposta às suas questões mais perturbadoras e ao mesmo tempo, e por isso mesmo, mais fundamentais para a sua homeostase psíquica.A verdade; por definição, deve ser única e imutável; única, posto que se é verdade não pode ter uma outra versão ou uma outra possibilidade dentro daquela condição específica à qual existe e determina, e também imutável, posto que se é verdade, é constante dentro da realidade em que é aferida.Esta verdade, a que me refiro, é o conhecimento humano, determinando a compreensão de si mesmo e do universo que o cerca, afastando o medo gerado pelo desconhecido e, conseqüentemente, determinando a serenidade, o equilíbrio, o bem-estar.Esta procura pela verdade, como definida acima, é algo que sempre existiu na história da humanidade, pelo menos desde que o homem agregou condições suficientes para indagar sua origem e seu destino.Vejo a ciência, a filosofia e a religião como caminhos, alternativas, ou modos de buscar esta verdade reveladora e acalentadora, pois se a ciência busca o alívio das dores humanas, o mesmo se dá com a religião e com a filosofia; entretanto, várias são as diferenças entre estes caminhos.Iniciemos com uma análise da religião, que de certa forma pode ser considerada a mais antiga e a mais difundida maneira de busca, pois ao que deseja trilhar este caminho, basta que haja disposição para tal, pois não exige nenhum conhecimento prévio ou preparo intelectual, não solicita estrutura ou complexidade, apenas a reflexão íntima, partindo do princípio que determinado argumento encontra eco em seu coração e provoca bem-estar. Observe que não uso o termo religião como instituição, mas como ato ou intenção de religar-se, de retornar à origem, de chegar à causa de maneira praticamente imediata, usando como veículo a emoção, o sentimento, sem nenhuma necessidade de comprovação ou coerência, pois economiza etapas, levando aquele que crê diretamente à verdade que é reconhecida por seus anseios e nada mais.É muito reconfortante, pois sacia nossa necessidade de saber, de tentar entender, sem que fiquem as angústias do desconhecido; entretanto, é um caminho bastante impreciso já que para usufruir de sua velocidade instantânea, desfaz-se de qualquer outro fator regulador ou controlador que não seja seu próprio veículo, qual seja, a emoção.De uma maneira ou de outra, é possível admitir que se possam atingir condições totalmente equivocadas por este caminho, mas que tragam, mesmo assim, a sensação necessária para o bem-estar e a serenidade pretendidas e almejadas. De qualquer modo, o objetivo final é aquela verdade que nos fará felizes.Já a ciência pode ser considerada mais recente; nem por isso é nova e busca a tal verdade de maneira incessante, porém sem nenhuma pressa; entretanto, pensa obsessivamente na precisão, preocupa-se com o erro, resistindo por isso às conclusões finais óbvias e fáceis.Tem como veículo a experimentação, não se contenta com os primeiros resultados, esperando sempre a confirmação que vem de mais experimentações, trilhando o caminho de forma vagarosa, mas confiante, muitas vezes podendo beirar a pretensão.A ciência busca a verdade, todavia, não especula ou não acredita no que vai muito além do que possa ser medido ou observado naquele momento. É muito mais precisa e segura, mas não traz conforto imediato.De uma maneira geral, temos a necessidade de ambas as formas de busca, pois podemos ir reformulando nossos conceitos religiosos pela evolução da ciência, corrigindo os rumos imediatistas da religião e ao mesmo tempo usando esta última como bússola na determinação da direção a ser pesquisada e experimentada.No meio destas duas vias encontramos uma terceira, que nos parece fazer uma ponte entre as duas primeiras, a filosofia, que municia a ciência de hipóteses a serem experimentadas e sacia a religião, dando sentido aos seus conceitos emocionais. A filosofia usa como veículo a razão, portanto, experimenta pela observação as hipóteses que constrói, geradas por suas idéias e motivações. Seu laboratório é a mente e suas argumentações as ferramentas que constroem a verdade.É um caminho intermediário que não tem a morosidade da ciência que necessita de tempo para a consolidação das suas idéias, mas não é tão rápido quanto a religião já que elabora seus conceitos e bases reais e racionais e não p mente emocionais.A filosofia também busca a verdade e tem vários pontos de inter secção com os demais.Voltando ao trabalho de Rodin eu diria que a figura do centro é filosofia, a da direita é a ciência e esquerda a religião; todos os três indicando o mesmo objetivo que é a compreensão da verdade.Mais adiante, no mesmo museu, pude observar a obra "Porta do Inferno", onde várias outras figuras de Rodin, representam o "Inferno de Dante"; notei que os sombras estavam no ponto mais alto da obra e que apontavam para outra figura logo abaixo delas: "0 Pensador".
"O Pensador" de Rodin faz uma magistral representação do intelecto humano subjugando seu físico, sua força, alcançando sua verdade pelo pensar e pelo sentir, como mostrando que, independentemente da forma de busca, do caminho escolhido, da afinidade por esta ou aquela forma, ao atingir o objetivo final, não existirão mais diferenças, pois os caminhos ficarão para trás.Ora, se três caminhos diversos convergem para um mesmo ponto, quanto mais próximos do ponto, mais próximos serão os caminhos, sendo bastante possível que em determinado momento possam confundir-se formando um caminho único.Um caminho formado por três outros é único, não é nenhum dos três que o formou, mas é, ao mesmo tempo os três que lhe deram origem. É assim que vejo o Espiritismo, um ponto à frente da ciência, da filosofia e da religião, sendo portanto único, e ao mesmo tempo, os três.É inútil tentar classificar o Espiritismo segundo os nossos conceitos antigos; para entendê-lo é necessário transgredi-los, desenvolvê-los, mesclando as possibilidades de cada um, suprindo as deficiências de um com as vantagens do outro, e se importando menos com a designação e mais com o conteúdo que, como podemos concluir, é revolucionário e, portanto, inicialmente desconfortável para muitas pessoas.Abaixo do homem intelectualizado, transcendendo sua condição física, estão suas mazelas e dificuldades, inúmeras, porém superadas pelo pensador, que podem ser observadas nos detalhes da "Porta do Inferno" de Rodin, ou seja, o inferno é a ignorância, é a distância da verdade, que deve ser superada pelo esforço nas três frentes de busca, mas que será finalmente redimida pela luz do saber, do conhecer, do compreender.Eis o privilégio ainda não bem entendido por alguns espíritas; privilégio explicitado por Kardec quando afirma que o Espiritismo é a um só tempo ciência, filosofia e religião; o privilégio de não precisar mais cindir-se em sua busca, de poder crer, ter fé, sem abdicar da razão e buscando na experimentação não só a confirmação, mas o entendimento, o detalhamento de tudo o que mais queríamos saber:- De onde viemos? - Quem somos?- Para onde vamos?
O autor é médico cirurgião, escritor com três livros publicados e membro da Associação Médico-Espírita de Baixada Sentiste; integra o Centro Espírita Dr. Luiz Monteiro de Barros, de Santos-SP.
Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo, Ano LXXX, no 03. Matão, Abril de 2005 e reproduzido com autorização do autor