quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

SÉRIE SAÚDE : SOBRE O CÂNCER

Revista de Saúde Pública
Rev. Saúde Pública v.42 n.1 São Paulo fev. 2008

Uso de medicinas alternativas e complementares por pacientes com câncer: revisão sistemática

Use of complementary and alternative medicine by cancer patients: systematic review

Cristiane SpadacioI; Nelson Filice de BarrosII

IPrograma de Pós-graduação em Saúde Coletiva. Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Campinas, SP, Brasil
IIFCM/Unicamp. Campinas, SP, Brasil
Correspondência | Correspondence

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RESUMO

O interesse no tema das medicinas alternativas e complementares tem aumentado, principalmente entre pacientes oncológicos. Realizou-se uma revisão sistemática da literatura na base de dados PubMed sobre o perfil dos pacientes que optam pelo uso dessas medicinas e suas motivações. As palavras-chaves utilizadas na busca foram "cancer and complementary alternative medicine" e "oncology and complementary alternative medicine", no período 1995-2005. Os critérios de seleção foram: presença dos descritores no título dos artigos, idiomas português, inglês ou espanhol e terem sido realizados em população adulta. A partir de 43 artigos analisados, concluiu-se que a utilização de medicinas alternativas e complementares é parte do escopo social desses pacientes. Seu uso é importante na construção da identidade de pacientes com câncer, ajudando-os nas decisões em relação ao tratamento convencional.

Descritores: Neoplasias, prevenção e controle. Terapias complementares. Terapias alternativas. Conhecimentos, atitudes e prática em saúde. Revisão [Tipo de Publicação].

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ABSTRACT

Interest in complementary and alternative medicine has increased, especially among oncology patients. A systematic literature review of the profile of patients who choose to use this type of medicine, as well as their motivations, was carried out on the PubMed database. For this search, the key words used were ?cancer and complementary alternative medicine? and ?oncology and complementary alternative medicine?, covering the period between 1995 and 2005. The selection criteria were the following: key words were present in the article title; article was written in either English, Portuguese, or Spanish; and study was performed with an adult population. From the 43 articles analyzed, it could be concluded that the use of complementary and alternative medicine is part of these patients? social scope. Moreover, its use plays an important role in the identity construction of cancer patients, helping them to make decisions related to conventional treatment.

Key words: Neoplasms, prevention & control. Complementary therapies. Alternative therapies. Health knowledge, attitudes, practice. Review [Publication Type].


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INTRODUÇÃO

Apesar dos notáveis avanços realizados pela medicina convencional, tem havido um crescimento exponencial no interesse e no uso das medicinas alternativas e complementares (MAC), principalmente em países ocidentais desenvolvidos. A literatura indica que também em países em desenvolvimento e pobres, as medicinas não convencionais são elemento significativo no tratamento.44

A integração das MAC nos sistemas nacionais de saúde tem sido tema de constantes debates, encontrando importante referência em documentos da Organização Mundial da Saúde (OMS), como "Estrategía de la OMS sobre medicina tradicional 2002-2005",* que preconiza a necessidade de investigações sobre:

políticas de integração nacional dessas práticas nos sistemas nacionais de saúde;
segurança, eficácia e qualidade dessas práticas;
acesso às práticas;
uso racional por profissionais e consumidores.
As MAC configuram, dessa forma, opções em potencial para o cuidado à saúde e não podem ser desconsideradas enquanto prática terapêutica.

O crescimento do uso dessas medicinas é evidente no caso específico de pacientes com câncer. Constata-se o crescimento no número de produções científicas que procuram responder:

à solicitação por pacientes com câncer e familiares de informações em relação à utilização clínica de uma série de intervenções das MAC;
à necessidade de disponibilizar informações nos meios de comunicação, principalmente em relação ao custo dos tratamentos para pacientes com câncer;
ao potencial toxicológico das intervenções em dois momentos: quando as MAC são utilizadas sozinhas ou com tratamentos convencionais;
à necessidade de avaliar a funcionalidade de algumas intervenções e a possibilidade de incorporá-las na prática médica convencional;
à responsabilização de agências governamentais na representação legal desses pacientes.4,6
No entanto, na literatura não foi identificada uma discussão específica sobre o perfil socioeconômico, étnico e de gênero, bem como as motivações dos pacientes para o uso das MAC no tratamento do câncer. O objetivo do presente artigo foi analisar o perfil dos usuários de medicinas alternativas e complementares e suas motivações, a partir da revisão da literatura biomédica sobre o tema.

MÉTODOS

Foi realizada uma revisão exaustiva da literatura sobre o tema, no PubMed da National Library of Medicine para o período de dez anos (1995 a 2005), utilizando as palavras-chave: "cancer and complementary alternative medicine" e "oncology and complementary alternative medicine ".

Os critérios para seleção dos artigos foram: conter os descritores completos ou em parte no título do trabalho; estarem escritos nas línguas portuguesa, espanhola ou inglesa; terem sido realizados com população adulta (19 anos ou mais).

Inicialmente foram identificados 378 artigos, dos quais 115 foram retirados por não terem relação com o tema da revisão, ou por serem duplicatas. Os 263 artigos selecionados foram classificados em quatro eixos temáticos conforme sua análise:

uso das MAC a partir da perspectiva dos pacientes ou de grupos de pacientes (57%; N=150);
terapêuticas das MAC, estudos sobre a comprovação clínica de certas MAC no tratamento do câncer (32%; N=84);
perspectiva dos profissionais de saúde em relação ao uso de MAC no tratamento do câncer (9%; N=24);
relação médico-paciente (2%; N=5).
Foram analisados os 150 trabalhos relacionados à perspectiva dos pacientes, uma vez que neles poderiam ser encontradas informações para responder à questão do estudo. Desses, foram efetivamente incluídos no estudo 43 artigos que tratavam das características e motivações da população que usa as MAC com o tratamento convencional para o câncer.

RESULTADOS

Na análise dos 263 artigos, observou-se número crescente de publicações sobre a relação de MAC e tratamento do câncer.
Analisando os 43 artigos sobre o perfil dos pacientes e as suas motivações para o uso de MAC e a data de publicação , verifica-se que foi a partir de 1997 que começaram a aparecer os primeiros trabalhos com esse enfoque.
Em relação à metodologia utilizada, observa-se que 40 artigos são de natureza quantitativa e três, qualitativa. Os Estados Unidos realizaram mais estudos (30%; N=12), seguido pelo Canadá com (11,6%; N=5) e pela Áustria e Havaí (9,3%; N=4). Não se registrou trabalho em países latino-americanos com esse enfoque.

Os 43 artigos foram classificados de acordo com a principal temática desenvolvida: perfil socioeconômico, clínico, étnico-racial e de gênero dos pacientes que usam MAC; percepções dos pacientes sobre a doença, vivências e experiências; e motivações para o uso das MAC.

DISCUSSÃO

Na análise do perfil dos pacientes que utilizam as MAC, os estudos mostraram que são adultos, com idade entre 30 a 59 anos,5,7,12,14,19,26,28,29,30,38,43 do sexo feminino,11,20,26,27,30,41,43 com elevado grau de escolaridade,3,6,9,14,17,19,20,28,29 renda familiar alta,7,14,19,26,28,29,41 doença em estágio avançado,6,7,23,26,30,37,39,42 participantes de alguma tradição religiosa20 e influenciados etnicamente1,17,19,37 em relação ao tipo de MAC adotado.

Alguns estudos relatam a influência da rede de social dos pacientes – formada por amigos, vizinhos, familiares e profissionais – no acesso e apoio para o uso de MAC, durante o tratamento convencional do câncer.8,9,24,26,35

Os principais tipos de MAC utilizados são: homeopatia,9,24 medicina ayurvédica,8 medicina tradicional chinesa,6,20,41 medicina de ervas1,5,6,14,18,24 (incluindo chás), terapias psíquicas,25,45 terapias espirituais,1,3,14,24,43 grupos de apoio,6,25,26 relaxamento e meditação,3,14,18,24,35,43 dietas (vitaminas e minerais, cogumelos, cartilagem de tubarão, mistletoe)3,5,6,18,23,27,35,43 e reflexologia.41 Esse conjunto de práticas alternativas e complementares necessita ser diferenciado entre racionalidades e técnicas terapêuticas, pois significa a incorporação de elementos de outra racionalidade médica. A homeopatia e a medicina ayurvédica, por exemplo, possuem outra doutrina médica explicativa do que é a doença ou o adoecimento, origem ou causa, evolução ou cura.24,** As demais práticas são apenas técnicas e, portanto, muito mais facilmente incorporadas como complementares aos tratamentos convencionais.

Quanto à percepção dos pacientes sobre a doença, suas vivências e experiências, os estudos mostram que usuários de MAC percebem maior risco de morte ou retorno da doença. Nesse sentido, há estudos que relacionam o uso de MAC ao grau de ansiedade e depressão, mostrando que quanto maior o stress mental, maior a prevalência do uso de MAC. Ou ainda, pacientes que usam MAC têm maior propensão para desenvolver quadros depressivos.26,29,39 Todavia, essa relação ainda não foi suficientemente investigada, sendo um tema em aberto para possíveis investigações sobre a relação entre o auto-conhecimento promovido pelas MAC e o desenvolvimento de sintomas depressivos.

De maneira geral, os pacientes percebem o uso das MAC de maneira positiva, como úteis e não tóxicas, acreditando que propiciam uma mudança no estilo e na qualidade de vida, influenciando positivamente os rumos da doença.2,32 Outra percepção significativa relaciona-se à sensação de maior controle sobre o corpo e o próprio tratamento após usarem alguma MAC.10,16,21,29,36,41,46 Os estudos mostram que é grande o número de pacientes que usam alguma MAC após o diagnóstico de câncer. 9,15,16,24,26,47

Em relação às motivações para o uso das MAC foram identificados motivos biológicos, psíquicos e técnicos. Os primeiros relacionam-se com o aumento e a habilidade do corpo para "lutar" contra a doença,13,24,45,46 promover o fortalecimento do sistema imunológico,9,24,34,35 aliviar os efeitos colaterais provocados pela quimioterapia, criando uma esperança de "cura"5,8,9,35,41,46 e de prevenção do retorno da doença.1,9,24,40,45 Em relação à motivação psíquica foram descritos a promoção de bem-estar, o controle do estresse e a melhora da qualidade de vida.2,5,6,9,14,23,27,46 Os motivos técnicos para o uso de MAC no tratamento do câncer estão estreitamente ligados à insatisfação com o tratamento convencional,1,8,12,36,37 principalmente os efeitos secundários e a interação que se desenvolve com os profissionais,33 além do processo de autonomia e humanização promovido pelas práticas não convencionais.

A literatura analisada no presente trabalho reconhece o perceptível aumento no uso de MAC por pacientes com câncer, embora as aceite apenas como prática complementar a um tratamento já estabelecido ou como alternativa para tratar os efeitos colaterais da cirurgia, da radioterapia e da quimioterapia. Nesse sentido, os autores desses trabalhos ressaltam que os pacientes devem ser investigados em relação ao uso das MAC, adotando sempre o discurso da pouca evidência científica. Esse tema perpassa grande parte dos trabalhos e acaba se tornando uma justificativa bastante recorrente para a negação do uso das MAC no tratamento do câncer, embora haja elevado nível de satisfação com sua utilização.2,6,9,11,22,31,36

Além das motivações para o uso das MAC estarem pautadas na "insatisfação" com as técnicas convencionais, nota-se um movimento de busca dos pacientes por uma outra lógica de se relacionar com o corpo, com a sua doença e até mesmo com o serviço de saúde freqüentado. Se, por um lado, a biomedicina tem seu paradigma pautado no modelo biomecânico, positivista e representacionista, as MAC surgem como oposição a esse modelo, trazendo nova perspectiva para a doença e para o indivíduo. Dessa maneira, as terapêuticas alternativas e complementares têm contribuído para: repor o sujeito doente como centro do cuidado; recolocar a relação médico-paciente como fundamental para a terapêutica; buscar meios terapêuticos simples; e construir a autonomia do paciente. 5,42,47

CONCLUSÕES

A temática do uso de MAC por pacientes com câncer vem atraindo investigadores e transpondo interesses exclusivos de disciplinas especificas. Contudo, a maioria dos estudos identificados na literatura é resultado de trabalhos quantitativos, realizados no hemisfério norte, com a perspectiva de discutir como acontece o uso. Poucos trabalhos qualificam porquê são usadas as MAC, permitindo elaborar estratégias alternativas e complementares no tratamento do câncer.

A utilização de MAC é parte do escopo social dos pacientes oncológicos. O uso dessas práticas tem um sentido sociocultural importante na construção da identidade de paciente com câncer, ajudando-os, inclusive, nas tomadas de decisão em relação ao próprio tratamento convencional. Essa evidência não deve ser desconsiderada pelos serviços de saúde, para que sejam desenvolvidas estratégias que estimulem o diálogo entre profissionais e pacientes sobre as MAC, melhorando a qualidade dos serviços.

Tendo em vista a complexidade de fatores que levam pacientes com câncer a utilizar as MAC, ressalta-se ainda a urgência de mais investigações. Essas teriam como objetivo analisar a perspectiva dos profissionais de saúde sobre o uso de MAC, a possibilidade de introdução destas práticas nos serviços convencionais de saúde e a posicão dos gestores e produtores de políticas públicas de saúde sobre a sua incorporação no Sistema Único de Saúde brasileiro.


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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

CENTRO ESPÍRITA E SOCIEDADE

CENTRO ESPÍRITA E SOCIEDADE
Marco Aurélio Rezende
Em muitas oportunidades pensamos no Centro Espírita como um espaço que está organizado e tem vida própria ,entendida aqui como uma vida interna e fora da sociedade.Mas a verdade é exatamente o contrário. Assim como todos os nossos espaços – a Casa , a Escola, o Clube e o Trabalho , o Centro Espírita também é um espaço social . E como tal está inserido no contexto dos espaços de relação da nossa sociedade.
Entendemos ser de fundamental importância o reforço desta idéia em nossas discussões sob a pena de afastarmos cada vez mais a possibilidade de efetivarmos em nós uma postura verdadeiramente espírita . Assim ,e só assim ,acreditamos que estaremos incorporando à nossa vida os três vertentes que alicerçam a nossa doutrina.Ao trazermos para o dia-a-dia o seu caráter religioso ,estaremos possibilitando efetivamente o melhor entendimento acerca da nossa real condição de espíritos em evolução.Como conseqüência disso , se incorporamos ao nosso cotidiano a possibilidade real de comunicação entre os planos encarnado e desencarnado,estaremos vivenciando o seu caráter científico. Se pensarmos no seu caráter filosófico , apreenderemos melhor os passos necessários à nossa melhora e evolução.
Evidentemente é na vida de relação que poderemos vivenciar mais fortemente esses aspectos e só assim estaremos reforçando em nós a efetiva presença do Cristo. O contrário ,no mínimo, não é sadio.A vida de relação é essencialmente necessária ao convívio e ao crescimento individual e coletivo num grupo social. E o Centro Espírita é mais um desses lugares onde esta condição – a do convívio ,pode e deve acontecer.É fundamental e importante compreendermos que o Centro Espírita pode e deve ser o local onde todos possam participar em várias situações e frentes . Mas devemos atentar que a participação precisa ser organizada e fundamentada nas regras mínimas de convivência e democracia.Precisamos aceitar e incorporar que o Centro Espírita não é um local isolado socialmente e que o seu fortalecimento estará diretamente ligado a participação critica e sensata de todos nós.Se estivermos bem ,participaremos mais e melhor . Mas para participarmos mais e melhor precisamos de vontade , disponibilidade e condição .A vontade tem a ver com o interesse e o estimulo .A nossa disponibilidade pode ser medida pelo tempo de dedicação e a condição pela forma que daremos à nossa dedicação.
Mas então , teremos que morar no Centro Espírita? Claro que não...Primeiramente ,devemos entender que não precisamos nem freqüentar um Centro Espírita para sermos Espíritas. Precisarmos,sim,compreender e estudar a Doutrina e o Centro Espírita é mais um desses locais onde poderemos praticar a Doutrina dos Espíritos e as idéias de Jesus.É deste espaço de convívio – o Centro Espírita que estamos falando e é neste espaço de convívio que devemos construir a nossa “práxis” espírita .No nosso caso , essa “práxis” deve ser alimentada pelas nossas ações e reflexões em nossos lugares de relação . E o Centro Espírita é mais um desses lugares.Para tal é fundamental o nosso permanente compromisso com a doutrina que abraçamos.Primeiramente é essencial o nosso acordo com o estudo permanente da Doutrina Espírita – As Obras Fundamentais de Kardec , principalmente para conhecimento e fundamentação das nossas atitudes e ações . O estudo permanente e sistematizado deve ser feito com o propósito de valorização das bases de nossa doutrina e do aprimoramento e entendimento das nossas atitudes perante aos nossos questionamentos na nossa vida de relação.É o estudo que fundamenta as nossas ações e amplia o nosso entendimento acerca da nossa condição no mundo e em especial , no Centro Espírita . Por isso ,é que devemos pensar com bastante critério e cuidado sobre o nosso papel neste importante espaço de relação – o Centro Espírita e o extraordinário papel que o estudo sistematizado e permanente traz. É o estudo que traz a pedra de toque à ação do trabalhador espírita .É o estudo que qualifica a sua ação e o transforma em sujeito com potencial transformador. É o estudo que amplia a sua visão retirando-o de uma postura afastada e isolada do seu companheiro e do entorno do Centro Espírita.É o estudo que traz o conhecimento e fundamenta a experiência.
Como desdobramento ,quando estimulados pelo estudo , pensamos e vemos o Centro Espírita com uma visão mais dilatada .Passamos a compreender que este espaço deve e precisa ser fortalecido pelas nossas ações – mais criticas a abalizadas pelo estudo ,sendo um espaço de estimulo à pratica e a interação no Bem .

sábado, 19 de janeiro de 2008

EVOLUÇÕES:FÍSICA E ESPIRITUAL...

Da origem das espécies à teoria da Evolução
Carlos de Brito Imbassahy

Quando o naturalista inglês Charles Darwin lançou seu estudo ou teoria a respeito da origem das espécies, na época, encontrou uma enorme oposição religiosa porque, de fato, seus fundamentos se estribavam exclusivamente em hipóteses deveras materialistas.

Apesar disso, ele apresentava farto documentário de suas observações que, sem dúvida, davam cabedal para seus argumentos. Contudo, abalava a hipótese de que Deus teria feito tudo à sua vontade e cada coisa de per si. E, por outro lado, vinha corroborar com o cavaleiro de Lamarck – nascido Jean-Baptiste de Monet – em sua hipótese evolucionista.

Lamarck tinha sérios opositores entre os naturalistas, principalmente porque nunca aceitara a classificação biológica de Lineu e, com sua obra Filosofia zoológica lançara contra si toda a fúria da Igreja. Sua hipótese de que a vida houvesse surgido da primeira célula orgânica e que tenha se transmigrado gradativamente para espécies imediatamente superiores até chegar à condição de alga, transformar-se em zoófitos e gradativamente evolver até o primeiro vertebrado, era tido como heresia contra os desígnios do Criador.

De fato, a Ciência primava pelo materialismo absoluto, apesar da falta de subsídios. Contudo, para ela, ainda era mais compreensível admitir que uma célula orgânica fosse a causa da vida que supor a existência do Deus absoluto, religioso, dispondo tudo a seu bel prazer, de forma tão incoerente.

A mudança começou com Werner Heisenberg, cientista alemão que viveu durante o período nazista e muito lutou contra seu predomínio despótico. Analisando a tese das emissões, observou que determinadas partículas não obedeciam ao mesmo comando, desviando-se da sua trajetória como se tivesse vontade própria. Ele mesmo comparou-as a ovelhas desgarradas.

Murray Gell Mann, à frente do “acelerador fermi de partículas” da Stanford University (EUA), ao equacionar a colisão de um elétron com um pósitron, concluiu que essas partículas agiam como se fossem comandadas por alguma ação externa à energia universal.

Foi dessa forma que nasceu a hipótese da existência de agentes estruturadores externos ao Universo e capazes de atuar sobre a sua energia, modulando-a e dando-lhe formas ditas materiais. Estes agentes, atualmente, são chamados de frameworkers.

A Hipótese da sua existência foi reforçada quando o observatório Keck II, do Haway, descobriu que, em torno da estrela Alfa Centauro, forças extracósmicas atuavam sobre a poeira cósmica em seu entorno, dando início à possível formação de um sistema planetário.

Estaria explicada a origem de tudo?

Neste caso, não apenas o homem teria alma – ou princípio de vida espiritual, mas tudo dentro do Universo, até mesmo a partícula elementar teria um princípio de vida não biológica estruturado por um agente esterno ao próprio Universo. E neste caso, a teoria da evolução das espécies tomaria uma nova concepção a ser analisada, partindo do pressuposto que esses agentes é que seriam os responsáveis pela formação, a seu tempo, de cada espécie.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

ESTUDANDO O HERMETISMO

As Sete Leis Herméticas


1ª Lei do Mentalismo:O universo é mental ou Mente. Isso significa que todo universo fenomenal é simplesmente uma
criação mental do TODO... Que o universo tem sua existência na Mente do TODO.
Uma outra maneira de dizer isso é: "tudo existe na mente do Deus e da Deusa que nos 'pensa'
para que possamos existir. Toda a criação principiou como uma idéia da mente divina que
continuaria a viver, a mover-se e a ter seu ser na divina consciência."
"O Universo e toda a matéria são consciência do processo de evolução."
Minha opinião é que toda a matéria são como os neurônios de uma grande mente, o universo
consciente, que "pensa".
Todo o conhecimento flui e reflui de nossa mente, já que estamos ligados a uma mente divina
que contem todo o conhecimento.
É claro que não estamos conscientes de "todo o conhecimento" em qualquer momento dado, por
que seria uma tarefa exorbitante manuseá-lo e processa-lo e ficaríamos loucos no processo.
Os cinco sentidos do cérebro humano atuam tanto como filtros como fontes de informação. Eles
bloqueiam uma considerável soma de informação caso contrário seriamos esmagados por
informações que nos bombardeiam minuto a minuto como sons, cheiros e até idéias, não
seriamos capazes de nos concentrarmos nas tarefas especificas em mãos. Mas sob condições
corretas de consciência podemos moderar, ou até desligar o processo de filtração, com a
consciência alterada, o conhecimento universal (i.e. Registros Akáshicos)
torna-se acessível. Abramos nossa mente ao TODO (i.e. o Uno, Deusa + Deus). Deixemos o
conhecimento entrar.

2ª Lei da Correspondência:"Aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo."
Essa lei é importante porque nos lembra que vivemos em mais que um mundo.
Vivemos nas coordenadas do espaço físico, mas também vivemos em um mundo sem espaço e
nem tempo.
A perspectiva da Terra normalmente nos impede de enxergar outros domínios acima e abaixo de
nós. A nossa atenção está tão concentrada no microcosmo que não nos percebemos o imenso
macrocosmo à nossa volta. O principio de correspondência diz-nos que o que é verdadeiro no
macrocosmo é também verdadeiro no microcosmo e vice-versa.
Portanto podemos aprender as grandes verdades do cosmo observando como elas se
manifestam em nossas próprias vidas.
Por isso estudamos o universo: para aprender mais sobre nós mesmos.
Na menor partícula existe toda a informação do Universo.
3ª Lei da vibração:Todas as coisas se movimentam e vibram com seu próprio regime de vibração. Nada está em
repouso.
Das galáxias às partículas sub-atômicas, tudo é movimento.
Todos os objetos materiais são feitos de átomos e a enorme variedade de estruturas
moleculares não é rígida ou imóvel , mas oscila de acordo com as temperaturas e com harmonia
com as vibrações térmicas do seu meio ambiente.
A matéria não é passiva ou inerte, como nos pode parecer a nível material, mas cheia de
movimento e ritmo. Ela dança.

4ª Lei da Polaridade:A polaridade é a chave de poder no sistema hermético. Tudo é dual. Os opostos são apenas
extremos da mesma coisa. Energia negativa (-) é tão "boa" ou "má" quanto energia positiva (+).

5ª Lei do ritmo:Tudo está em movimento, a realidade compõe-se de opostos.
E os opostos se movem em círculos.
As coisas recuam e avançam, descem e sobem, entram e saem. Mas também giram em círculos
e espirais. A lei do ritmo nos assegura que cada ciclo busca sua complementação. A grande
roda da vida esta sempre fazendo um circulo. O que se muda é o tamanho desse círculo.

6ª Lei do Gênero:O principio hermético do gênero diz que todos tem componentes masculinos e femininos. É uma
importante aplicação da lei da polaridade. É semelhante ao principio com o principio animas
animus que Carl Jung e seus seguidores popularizaram, ou seja que cada pessoa contém
aspectos masculinos e femininos, independente do seu gênero físico, nenhum ser humano é
100% homem ou mulher, e isso é até astrologicamente explicado, uma vez que todos somos
influenciados por todos os signos (uns mais, outros menos), e metade do zodíaco é feminino,
enquanto que a outra metade é obviamente masculina (Esse é mais um argumento que suporta
a igualdade entre Deus e Deusa).
Em todas as coisas existe uma energia receptiva feminina e uma energia
projetiva masculina, a que os chineses chamavam de Yin Yang (e o que os bruxos chamam de
Deusa e Deus).

7ª Lei de Causa e Efeito:Em sua forma tradicional, a lei de causa e efeito diz que nada acontece por acaso, que para todo
efeito existe uma causa, e que toda causa é, por sua vez, um efeito de alguma outra causa.
Tábua de Esmeraldas - Hermes Trismegisto
"Isto é verdade, sem mentira, muito verdadeiro" (a verdade nos três mundos)
"O que está embaixo é como o que está em cima" (Lei da Analogia)
"E o que está em cima é como o que está em baixo" (Lei da Correspondência)
"E como todas as coisas vêm e vieram do Um" (Lei do número)
"Assim todas as coisas são únicas por adaptação" (Lei da Adaptação)
"O Sol é seu pai; a Lua é sua mãe; o vento carregou-o no ventre; a terra é sua nutriz" (os quatro
elementos)
"Separarás a terra do fogo, o sutil do espesso, docemente como Grande
Indústria" (Arcano da Salvação, separação da matéria do espírito)
"Ele sobe da Terra para o Céu, e de novo desce a Terra e recebe a força das coisas superiores
e inferiores" (Lei da Evolução/Involução)
"Terás por esse meio toda glória do número e toda escuridão se afastará de ti. É a Força forte de
todas as Forças." (Lei do Amor e do Sacrifício)
"Por que ele vencerá toda coisa sutil, e penetrará toda coisa sólida." (É
pela lei do amor que o espírito move o Universo)
"Assim foi criado o mundo" (Lei da Realização)
"Disso saíram inúmeras adaptações cujo meio está aqui. Por isso fui chamado de Hermes
Trismegisto, possuindo as três partes da filosofia do mundo" (Divino, Astral e Físico)
"O que disse da cooperação do Sol está realizado e aperfeiçoado"

Pesquisa Ir.: Jaime Balbino de Oliveira

domingo, 13 de janeiro de 2008

MEDIUNIDADE DE CURA

Mediunidade de Cura

José Argemiro da Silveira

Temos observado que vários companheiros do movimento espírita reprovam a mediunidade de cura, como se fosse uma atividade estranha à boa Doutrina. Isto se deve, provavelmente, ao fato de que alguns médiuns dessa especialidade, por não conhecerem, não procuram observar, no exercício da mediunidade, os ensinamentos da Doutrina Espírita. Conseqüentemente, agem em desacordo com o que ensina o Espiritismo, levando os menos avisados a reprovarem, em sua totalidade, toda atividade desse campo. Porém, esta não é uma atitude correta. O fato de alguns utilizarem mal suas faculdades, ou agirem em desacordo com os princípios espíritas, não justifica a atitude de negar valor a todos que trabalham nessa área. A mediunidade de cura é estudada no Espiritismo. Portanto, neste, como em outros setores, é sempre necessário aprofundar o conhecimento do assunto, para não emitir opiniões levianas, sem fundamento. Necessário saber distinguir o certo do errado, não aprovar tudo, mas também não reprovar, sem o devido conhecimento do assunto.

Allan Kardec no Livro dos Médiuns, 2.ª parte, cap. XVI, item 189, registra: "Médiuns curadores - Os que têm o poder de curar ou de aliviar os males pela imposição das mãos ou pela prece. Esta faculdade não é essencialmente mediúnica pois todos os verdadeiros crentes a possuem, quer sejam médiuns ou não. Freqüentemente não é mais do que a exaltação da potência magnética, fortalecida em caso de necessidade pelo concurso dos Espíritos bons". No item 175, cap. 14, do mesmo livro: "Médiuns curadores - Somente para mencioná-la, trataremos aqui desta variedade de médiuns, porque o assunto exigiria demasiado desenvolvimento para o nosso esquema. Estamos, aliás, informados de que um médico nosso amigo se propõe a tratá-la numa obra especial sobre a medicina intuitiva". E no item 193, cap. 16, diz: "Médiuns medicinais - sua especialidade é a de servirem mais facilmente aos Espíritos que fazem prescrições médicas. Não se deve confundi-los com os médiuns curadores, porque nada mais fazem do que transmitir o pensamento do Espírito, e não exercem por si mesmos nenhuma influência. Muito comuns".

Allan Kardec considera "muito comuns" os médiuns medicinais, "aqueles cuja especialidade é a de servirem mais facilmente os Espíritos que fazem prescrições médicas". Quando trata dos "médiuns curadores" coloca que "o assunto exigiria demasiado desenvolvimento" para o esquema do livro (Livro dos Médiuns). Mas fica claro a importância do tema.

Pergunta feita ao Divaldo P. Franco ("Diretrizes de Segurança", item 21, cap. 1.°) - Qual a finalidade da existência de médiuns curadores?" Resposta: "A prática do bem, do auxílio aos doentes. O apóstolo Paulo já dizia: "Uns falam línguas estrangeiras, outros profetizam, outros impõem as mãos". Como o Espiritismo é o Consolador, a mediunidade, sendo o campo, a porta pelos quais os Espíritos Superiores semeiam e agem, a faculdade curadora é o veículo da Misericórdia para atender a quem padece, despertando-o para as realidades da Vida Maior, a Vida Verdadeira. Após a recuperação da saúde, o paciente já não tem o direito de manter dúvidas nem suposições negativas ante a realidade do que experimentou. O médium curador é o intermediário para o chamamento aos que sofrem, para que mudem a direção do pensamento e do comportamento, integrando-se na esfera do Bem".

As pessoas que condenam todo e qualquer tipo de atividade na mediunidade de cura deveriam estudar a biografia de Eurípedes Barsanulfo, Cairbar Schutel, e tantos outros. O próprio Francisco C. Xavier, durante muito tempo, atendeu a essas tarefas. Os médicos desencarnados, especialmente Bezerra de Menezes, por intermédio dele, respondia a centenas de consultas durante as reuniões semanais. Da biografia do médium João Gonçalves do Nascimento, que está no livro "Grandes Espíritas do Brasil", organizado por Zêus Wantuil, e editado pela Federação Espírita Brasileira, consta o seguinte: "Foi por volta de 1882 que o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, então deputado geral na Corte do Rio de Janeiro, resolveu consultar o médium Nascimento sobre uma dispepsia que havia cinco anos o torturava, não obstante haver ele recorrido aos mais famosos facultativos. — Eu não acreditava nem deixava de acreditar na medicina medianímica, e confesso que proprendia mais para a crença de que o tal médium era um especulador - eis como Bezerra de Menezes julgava, a princípio, o abnegado Nascimento. Servindo-se de um amigo de confiança, e em circunstâncias que não permitissem qualquer espécie de fraude, o grande político cearense obteve a receita solicitada, com a descrição de toda a sua moléstia, seguiu o tratamento prescrito, e, o que a Medicina oficial não conseguira em cinco anos, Nascimento o obteve em apenas três meses. Este e outro fato posterior, agora com a segunda esposa de Bezerra, a qual tinha erradamente sido tratada como tuberculosa por importantes médicos, ficara para sempre curada com as receitas do famoso médium do Grupo Espírita Fraternidade. "Nada me impressionou mais afirmou Bezerra - do que ver um homem, sem conhecimentos médicos e até sem instrução regular, discorrer sobre moléstias, com proficiência anatômica e fisiológica, sem claudicar, como bem poucos médicos o podem fazer".

A biografia do médium Nascimento prossegue citando vários outros casos extraordinários de diagnósticos corretos e curas, realizadas por seu intermédio.

A mediunidade curadora deve ser tratada como qualquer outra modalidade mediúnica. Não se pode aprovar tudo o que se faz nessa área, mas negar, indiscriminadamente, como se toda atividade nesse campo fosse estranha à Doutrina Espírita não é correto.

O médium de cura deve orientar seu procedimento, observando:

a) Vinculação a um Centro Espírita - A maior parte dos problemas constatados reside no fato de o médium não se submeter aos regimes doutrinários de um Centro Espírita;

b) Estudo Sistemático do Espiritismo - Não se pode separar a prática mediúnica do estudo constante dos postulados espíritas;

c) Gratuidade absoluta - A Doutrina Espírita não se coaduna com qualquer tipo de cobrança de prestação de serviço espiritual. ainda que disfarçada sob a forma de "presentes", ou de "doações para instituições";

d) Exercício Constante da Humildade - O médium de cura deve conscientizar-se de que ele é apenas um elemento na complexa engrenagem organizada pelo mundo maior, engrenagem esta que vai encontrar no Cristo o seu condutor maior.

Jornal Palavra Espírita na Internet
http://www.geocities.com/verdadeeluz

ALGUMAS REFLEXÕES...

Algumas Reflexões


Tenho pensado nesses dias algumas coisas a respeito da vida...
Pois é! Às vezes eu consigo fazer isso...
Mas vamos lá! E acho que posso compartilhar com vocês...
Todos já devem ter percebido uma característica marcante do meu perfil
- o fato de eu ser cristão espírita praticante.E por conta disso venho
me questionando muito de algumas atitudes minhas, principalmente
sobre a minha vida de relação.Uma delas diz respeito ao comportamento
e as atitudes de um cristão espírita frente às questões da vida.

A minha primeira observação diz respeito à Casa Espírita como único
local possível da prática espírita.Tenho sido tentado a achar que é
muito complicado a prática espírita dentro da Casa Espírita.
Calma, amigos! O que estou colocando é que neste local também existem
as mesmas dificuldades comuns aos outros ambientes que freqüentamos.
Senão vejamos.Fora dos muros da Casa Espírita, encontramos amigos,
inimigos, facilidades, dificuldades, acertos, erros e
oportunidades.E isso é o esperado, afinal, estamos encarnando para o
aprendizado e a melhora de nossa condição evolutiva.O que estou
dizendo é que assim como na nossa casa, no nosso trabalho e com os
nossos amigos, temos também na Casa Espírita que freqüentamos/
trabalhando, as nossas mesmas dificuldades.Ou será que achamos que é
só porque entramos algumas vezes por semana na Casa Espírita, deixamos
os nossos conflitos do lado de fora e nos transformamos em seres
angelicais? Acho que ninguém pensa isso, né? Acredito que, quando
assumimos as nossas dificuldades e conflitos - até na Casa Espírita,
estamos começando a trilhar o caminho da superação e da transformação
interna...

A outra questão é tentarmos e experimentarmos a prática espírita fora
dos muros da Casa Espírita. Fiquem calmos! Não estou propondo que nos
transformemos em figuras messiânicas do Apocalipse. Mesmo porque
sabemos que a Doutrina não pede isso. Estou falando de atitude! Até
que ponto somos realmente espíritas e incorporamos no nosso
cotidiano, a benevolência, a indulgência e o perdão.Ou será que
ainda não conseguimos tirar essas expressões do discurso e colocá-las
na nossa prática? E olha que falar disso dentro da Casa Espírita não
tem nenhuma vantagem, já que lá todo mundo fala...e só fala!!!!
Sé é só isso que fazemos, nós não passamos ainda da condição de
espíritas burocratas. Temos a teoria, alguma leitura acumulada,
vamos semanalmente à Casa Espírita e achamos que estamos abafando!
Ser espírita (burocrata) dentro da Casa Espírita parece ser muito
fácil...
Será que praticar o Espiritismo fora dos muros da Casa Espírita - na
nossa casa, no nosso trabalho, entre os nossos vizinhos e amigos, na
rua, no clube, no shopping, na praia, no futebol, etc, é tão
difícil? Vejam que eu estou falando de prática e não de discurso...

Mais um ponto a pensar: Nós que nos dizemos espíritas nos conhecemos?
Somos irmãos de fato ou nos freqüentamos apenas na Casa Espírita? No
meu caso, venho experimentando uma aproximação muito prazerosa com os
meus amigos espíritas e posso dizer que é muito legal a troca e o
conhecimento entre companheiros de obra. Começamos marcando reuniões
de estudo e encontros doutrinários e hoje fazemos festas e encontros
pelo simples prazer de nos encontrarmos.E assim vamos nos reconhecendo
em nossas atitudes fora da Casa Espírita e aprendemos a nos
respeitar, cada um com sua limitação e com sua diferença, mas
compartilhando a Doutrina que abraçamos!

Por último, mas não menos importante trago uma preocupação bem
curiosa: Em que medida somos espíritas?Será pelas
atividades que exercemos entre os grupos?
Será que podemos nos
considerar numa condição privilegiada, só porque estamos em muitas
frentes de trabalho dentro dos grupos?
Mas e a nossa vida fora da
Casa Espírita?
E a nossa família?
E mesmo o nosso trabalho?
Será que é só na Casa Espírita que conseguimos ser espíritas?
Qual é o tempo que temos
para refletir sobre a nossa vida e verificarmos se estamos de fato
praticando a nossa melhora, a nossa recuperação, a nossa
transformação moral? Qual é o momento que nós nos avaliaremos e
reconheceremos os nossos acertos, os nossos erros, as nossas
superações, os nossos pontos fracos, e, nos reconhecendo, nos
corrigirmos e melhorarmos até nos modificarmos e atingirmos a nossa
meta prevista em nosso plano reencarnatório?


Foi só isso pessoal...

marcoafrezende@hotmail.com

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

MEDITAÇÕES ACERCA DA INTELIGÊNCIA

Meditações acerca da inteligência
Hermínio C. Miranda



Ninguém diria com maior autoridade que o próprio Kardec que o Espiritismo é doutrina essencialmente evolutiva, o que significa dizer que não nos foi trazida inteira acebada, cristalizada e dogmática. O Espiritismo é um corpo vivo de pensamento e, como tal, suscetível de desdobramentos cujos limites não temos condições de alcançar ou prever. É preciso observar bem, no entanto, onde e quando, como e porque devemos e podemos trabalhar as suas inúmeras sínteses a fim de que, movidos pela intenção de desenvolver certos aspectos doutrinários, não cometamos o desacerto de deformá-los irreparavelmente. E isto é fácil de ilustrar, quando nos lembramos de que toda a complexa teologia moderna cita cristã não é mais do que o “desdobramento” dos simples e luminoso conceitos evangélicos formulados pelo Cristo. Como foi possível partir de afirmativas como “... não busco minha vontade e sim a vontade daquele que me enviou”, para chegar-se, por exemplo, à formulação da divindade de Jesus? Por onde entrou, nessa teologia, o dogma do pecado original? Como nasceu a doutrina das penas eternas? Ou o conceito de uma só existência para o ser humano, com um julgamento final e irrecorrível?

Enfim, os exemplos poderiam ser multiplicados, se a finalidade aqui não fosse apenas a de ilustrar uma idéia, ou seja, a diretiva de que os comentaristas da Doutrina Espírita precisam manter um elevado padrão de lucidez e de humildade intelectual para não contaminarem o Espiritismo com os seus preconceitos e não o retransmitirem sob uma ótica que, em lugar de ampliar determinados aspectos, o deformem grotescamente, a ponto de torná-lo irreconhecível. A Doutrina não é um cadáver sobre o qual poderemos, à vontade, realizar nossas experimentações mutiladoras, nem um aparelho, ao qual possamos substituir peças e adaptar a outras finalidades. Repitamos: é um organismo vivo e dever ser tratado como tal, ou seja, com todos os cuidados necessários e com o máximo respeito que toda manifestação de vida deve merecer-nos.

Não obstante, o Espiritismo não rejeita aqueles que se aproximam dele com o respeito a que acima nos referimos, dispostos a desdobrar aspectos que ainda lá estão em síntese, à espera dos trabalhadores qualificados que, por certo, andam por aí e ainda virão. É o caso da mediunidade, por exemplo, para citar apenas um entre muitos aspectos. Os estudos sobre essa faculdade começaram ainda com o próprio Kardec, em “O Livro dos Médiuns”, continuaram nas notáveis obras de Gabriel Delanne. Aksakof, Lombroso e tantos outros e, ainda em nossos dias, prosseguem em novos desdobramentos, com André Luiz. E estamos longe de veros limites do território e explorar, pois os seus contornos escapam à nossa percepção. Mas, que em todos esses cometimentos não percamos de vista os parâmetros de eferição e os marcos implantados nas obras básicas, a fim de que não percamos pelos domínios da fantasia ou do personalismo doutrinário, que fraccionaria o Espiritismo em ramos e seitas que muito teríamos a no futuro. Em suma: na frase felicíssima do confrade Jorge Andréa: é preciso dinamizar Kardec, não dinamitar Kardec.

Ainda há pouco, aqui mesmo em “Obreiros do Bem” (artigo sob o título “Centenário de uma Frase”, junho de 1976) propunhamos a formulação de modelos espíritas para a sociedade futura, em vez de nos demorarmos indefinidamente pelos caminhos, a tentar convencer da realidade do Espírito aqueles que não desejam ainda ser convencidos. Dizíamos, então, que não vemos muito sentido nesse esforço gigantesco de acumular provas que, de certa forma, não servem nem a nós, os que não mais precisamos elas, nem àqueles que não as desejam aceitar, porque se obstinam em defender suas fortalezas de opereta de ceticismo estéril.

Tentemos, porém, ser mais específicos quando mencionamos os tais modelos ou matrizes, pois é necessário, desde logo, relembrar um princípio inarredável em qualquer dessas inúmeras possibilidades de ampliação e aplicação dos conceitos doutrinários: O Espiritismo não é um movimento arregimentador de massas, nem se presta a servir de base para militâncias políticas de qualquer colaboração ou tendência. Sua filosofia de ação é aquela que se dirige ao homem, ou melhor, ao Espírito imortal reencarnado, pois entende que, como soma dos indivíduos, a sociedade não poderá, jamais ser melhor do que os seus componentes. Os cemitérios da História estão cheios de doutrinas que alimentaram a ilusão de arrumar a sociedade de baixo para cima, ou seja, cuidando do ser coletivo, quando o trabalho precisa ser feito no indivíduo, por meio do despertamento para a sua realidade espiritual interior. Somos Espíritos e não unidades de produção, votos, consumidores, massa de manobra, enfim.

Sejamos ainda mais específicos, na descida cautelosa aos pormenores, ao particular.

O capítulo quarto do “O Livro dos Espíritos”, ao referir-se à questão do princípio vital, cuida dos aspectos subsidiários dos conceitos de inteligência e instinto. (Questões 71 a 75, páginas 78 e 79 da 34ª edição da FEB). O que Kardec considerou prudente perguntar e o que os Espíritos decidiram suficiente ensinar na época está, pois resumido em apenas 5 questões. É óbvio que isto não esgota a temática suscitada, nem era esse o objetivo dos elaboradores da Doutrina. Quantas sugestões preciosas, no entanto, partem daqueles discretos comentários! A que amplos desdobramentos não se prestam as sínteses propostas pelos Espíritos e as observações adicionais de Kardec!



Desejava o Codificador saber se inteligência a matéria são independentes, “porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas, a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la”. (1) A fonte da inteligência é a inteligência universal, sendo, no entanto, “faculdade própria de cada ser, e constitui sua individualidade moral”. Advertiram, porém, neste ponto, que havia limites por aí, além dos quais o homem não poderia seguir, por enquanto.

Será que o instinto dependeria da inteligência? - desejou saber Kardec.

- “Precisamente, não, - respondem os Espíritos - por isso que o instinto é uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio. Por ele é que todos os seres provêem às suas necessidades”.

Instinto e inteligência acham-se tão intimamente ligados que muitas vezes se confundem. A força diretora do instinto é tão preciosa que os Espíritos acrescentaram que também ele “pode conduzir ao bem”. E mais ainda:

- “Ele quase sempre nos guia e algumas vezes com mais segurança do que a razão. Nunca se transvia”. (Os destaques são meus, evidentemente).

Ante o inusitado do ensinamento, Kardec desejou saber por que nem sempre a razão é guia infalível.

- “Seria infalível - respondem seus amigos invisíveis - se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo. O instinto não raciocina; a razão permite a escolha e dá ao homem o livre-arbítrio.

Aí está, pois, em apenas duas páginas, um mundo fascinante de sugestões para futura especulação.

Que interessante definição, por exemplo, essa de que o instinto é uma inteligência sem raciocínio, que funciona como instrumento através do qual os seres vivos atendem às suas necessidades. Podemos lembrar aqui as recentes e curiosas experiências do Prof. Bakster com as plantas, que confirmam com notável precisão os ensinamentos transmitidos pelos Espíritos há mais de um século. O instinto, que ele foi descobrir nas plantas, por meio de seus sensíveis aparelhos, é exatamente isso: uma inteligência sem raciocínio a serviço da integridade da planta. Que necessidade seria mais essencial do que a da conservação? As plantas reagem nitidamente tento às vibrações de afeto com as de ódio; àquele que cuida delas ou que procura destruí-las, informa da sua alegria ao serem confortadas, com um pouco de água ou da sua apreensão ao sentirem-se em terreno ressecado. Dentro do seu limitado círculo de recursos instintivos, a planta age realmente com inteligência, ainda que desprovida de razão, pois que, se a tivesse, disporia também de livre-arbítrio, como também ensinaram os Espíritos. A razão começa junto com a consciência de si mesmo, o que nem plantas nem animais possuem.

A reflexão nos levará a inferir que o instinto é a pré-história da inteligência racional e, por isso, tem que ser mais seguro na sua direção do que a fase subseqüente. Ainda sem dispor de razão, o ser vivo não pode errar, porque não teria como corrigir o erro. Por isso os Espíritos disseram que o instinto nunca se transvia. Nunca é uma expressão de tremenda força. A possibilidade de transviamento começa, pois, quando surge a razão que nos proporciona o livre arbítrio, ou seja, a capacidade de decidir entre duas ou mais alternativas. Por outro lado, novo aspecto digno de profundas meditações é o de que a razão seria orientadora infalível dos nossos atos, se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo”.

E, assim, com esta razão falseada que as inteligências transviadas montam complexas estruturas filosóficas, aparentemente muito racionais, mas totalmente falsas, porque a razão que lhes serviu de modelo estava contaminada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo.

Lembremos aqui à razão absoluta, purificada, é que se referia Kardec ao recomendar que a fé teria que, também ela, submeter-se, e isto é tão verdadeiro que vemos variedades espúrias de fé. Paixão e razão que se misturam. A razão é fria porque neutra, embora não insensível.

Mas, nestas reflexões, por mais atraentes que sejam, nos afastamos um pouco do nosso tema. Ou não?

Retomemos o conceito de inteligência e experimentemos projetá-lo um pouco mais longe. Após os ensinamentos trazidos pelos Espíritos a Kardec, como se desenvolveu no meio científico a especulação em torno da inteligência? Que é inteligência em termos de ciência?

Uma pesquisa histórica revela que a palavra em ai foi utilizada pela primeira vez por Cícero, ao transpor a expressão dia-noesis, criada por Aristóteles, sendo útil aqui lembrar que noesis é entendimento, compreendido.

A incipiente psicologia escolástica medieval, derivada, em grande parte, dos conceitos aristotélicos, acabou cristalizando a “definição”, se assim podemos chamá-la, de que inteligência era a qualidade abstrata comum e característica dos processos intelectuais. Isso, como se vê, corresponde a declarar que a água é molhada, mas, enfim, tal era a escolástica...

Com a decadência dessa corrente filosófica, o termo entrou em desuso e só foi retomado por Herbert Spencer, já no século 19, que, no entanto, deu-lhe uma interpretação meramente biológica, ou seja, materialista e que praticamente perdura até hoje. Sem poder explicá-la em termos precisos, e desapoiado de qualquer suporte espiritualista, Spencer achava que a inteligência explicava-se pela presença dos pais na formação do ser, o que vale dizer que ele apenas transferia o problema para a geração anterior e o desta para a imediatamente anterior e assim por diante, sem chegar às raízes da questão.

Seja como for , as especulações de Spencer permitiram conceituar psicologicamente a inteligência como capacidade de resolver, com êxito, situações novas, entendimento aceitável que, ao que eu saiba, prevalece até hoje.

Inegavelmente, porém, as pesquisas em torno da inteligência ainda não se libertaram das amarras e das vendas materialistas, e ao campo da ciência ortodoxa não chegou ainda a iluminação que se irradia a partir das informações colhidas no mundo espiritual, nem das eu decorrem de todo o acervo de fatos documentados pelos investigadores da fenomenologia espírita.

Ainda se pensa que inteligência é uma questão basicamente genética colorida por influências mesológicas, ou seja, hereditária e desenvolvida sob forte pressão do meio ambiente. Para sermos justos, é preciso reconhecer que alguma influência realmente exercem a hereditariedade e o meio, mas não tanto quanto julgam os cientistas acadêmicos, e não propriamente sobre a inteligência em si, mas sobre suas manifestações.

Vamos tentar compreender melhor isso. Um casal de criaturas marcadas pela debilidade mental pode gerar uma criança também prejudicada mentalmente mas isso não significa que este novo ser seja espiritualmente um débil mental. Na verdade, pode ser um gênio que apenas não conseguiu criar no corpo físico, em gestação sob condições tão adversas, um instrumento adequado de manifestação de seu potencial. Não são raros, porém, os casos de filhos altamente inteligentes nascidos de pais deficientes. A recíproca também é válida: pais inteligentes gerando filhos retardados.

Por outro lado, o ambiente em que se desenvolve a criança exerce sobre sua inteligência uma influência que não pode ser desprezada, mas não deve ser exagerada, porque sob as condições mais hostis podem desenvolver-se inteligências brilhantes.

Isso tudo tem demonstrado à saciedade que a inteligência não é um fator basicamente genético ou mesológico, mas uma faculdade do Espírito preexistente, que traz para a sua nova existência os recursos intelectuais que já tenha conseguido desenvolver no passado, dentro, porém, das condicionantes criadas pelo seu comportamento moral, ou seja, pelo bom ou mau uso que deu à sua inteligência.

Voltemos, por um instante, ao ensinamento dos Espíritos.

- ... “a inteligência - dizem eles, em resposta à pergunta 72 - é uma faculdade própria de cada ser e constitui a sua individualidade moral”.

Não é exatamente isso o que provam as observações? Ou seja, que cada ser se encontra no estágio que lhe é próprio de desenvolvimento intelectual e que o uso da inteligência tem nítidas e inelutáveis implicações morais? Confere, portanto, mais este aspecto.

Enquanto isso, no entanto, os cientistas desligados das correntes espiritualistas continuam a pesquisar as razões das dessemelhanças intelectuais entre gêmeos, partindo do pressuposto de que, gerados simultaneamente, teriam de ser pelo menos semelhantes em inteligência, senão idênticos, o que está longe de ser verdadeira pois cada um deles é um Espírito diferente, em diferente estágio evolutivo.

Vejamos, porém, um pouco mais além, já que falamos em estágio evolutivo.

Ao que indica a observação apoiada no conhecimento espiritual, a inteligência é a resultante do conhecimento acumulado ao longo dos milênios e das inúmeras encarnações. (2) Não somos inteligentes por causa de uma combinação genética particularmente feliz, ou porque nos desenvolvemos em ambiente adequado, mas porque, no passado, já nos habituamos a manipulação e apropriação do conhecimento, através do estudo e do aprendizado. As noções que adquirimos, as experiências porque passamos, as coisas que descobrimos incorporam-se à nossa memória, cujos registros básicos se encontram no perispírito, e, embora armazenadas na zona crespuscular do chamado inconsciente, estão ali, à nossa disposição. Quanto mais conhecimento tenhamos adquirido no passado, mais fácil se torna “resolver com êxito situações novas”, porque temos um banco de dados mais vasto, contra o qual confrontamos analogicamente os fatos novos, as novas proposições, os novos aprendizados. É sempre mais fácil construir em cima do alicerce já consolidado.



Seria interessante, por exemplo, desdobrar ainda mais este aspecto para examinar o papel que desempenha nisso tudo a memória, ou, ainda, a intuição, mas seria ir muito longe num artiguete como este, que pretende apenas levantar questões para estudo, sem a tola pretensão de resolvê-la.

Há, também, por aqui, analogias notáveis com a cibernética, pois os computadores modernos não passam de cérebros artificiais, ainda muito primitivos e limitados em comparação com o cérebro humano. São meros bancos de dados que decidem entre duas opções, segundo um programa preestabelecido e de acordo com o acervo de informações que têm armazenado em suas memórias. É claro que não desejamos dizer que o computador seja inteligente, nem que tenha instinto, mas é certo que se utiliza de um dos dispositivos da inteligência humana, isto é, a memória.

Fiquemos aqui mesmo, para concluir.

Creio ter conseguido evidenciar, com estas reflexões, o que se costuma ter em mente ao se dizer que inúmeros conceitos formulados pelos Espíritos dentro da Codificação estão à espera de desdobramento e aplicação, sem, no entanto, mutilar a Doutrina. Esse desdobramento, no correr do tempo, há de deslocar, rearrumar e tornar obsoletos muitos dos mais caros conceitos da ciência moderna, não apenas na Psicologia, mas em todos os ramos do conhecimento, naquilo que concerne ao ser humano, como unidade social. É justo admitir, no entanto, que muitas das noções catalogadas pela ciência, serão aproveitadas e iluminadas sob um novo ângulo, com uma nova luz e acabarão por oferecer uma visão nítida do homem e do mundo que o cerca, objetivo multimilenar da especulação humana.

Que estamos esperando? Onde estão os pensadores espíritas? Os psicólogos, sociólogos, biólogos, médicos, enfim, os artífices espiritualizados e evangelizados da sociedade futura? Os temas aí estão, e a Ciência aguarda aqueles que irão conciliar conhecimento e moral, razão e fé, o homem e Deus.

(2) Relembremos o sentido da expressão noesis escolhida por Aristóteles e que quer dizer conhecimento.

(Obreiros do Bem - Agosto de 1976)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

VIOLÊNCIA

Violência

Por Francisco Sérgio Nalini

Antropologia

Em qualquer aspecto que o relacionamento é discutido sempre se chega à mesma definição, a evolução começa por todos nós. Há uma tendência natural, de nossa parte, em transferir os nossos defeitos para o outro.
Isso é também comum na violência, nós nunca somos violentos, nunca estamos errados. Este trabalho tentará demonstrar que também temos a nossa parcela a transformar, seja aprendendo, ou ensinando.
Segundo William Ury, antropólogo de 52 anos, em recente entrevista à Revista Veja, a dificuldade para se lidar com os outros começa em nós mesmos, isso vale também para os povos e citando Oriente Médio como exemplo. Para ele todos os países envolvidos nos conflitos têm certeza que estão com a razão e o adversário está sempre errado, e isso ocorre há milênios.
O antropólogo defende a tese que, nas negociações, é muito mais necessário saber ouvir do que falar.
Para ele tanto a guerra como a paz fazem parte da natureza humana, mas não concorda com a tese de que o homem guerreia entre si desde sempre. Se as primeiras notícias da evolução humana têm 1 milhão de anos, as primeiras guerras foram registradas há 10 mil anos, mais ou menos.
Segundo Ury, as guerras tiveram início com o agrupamento das civilizações, que deixaram de ser nômades e começaram a necessitar de espaço para suas plantações e criação de animais.
“Estamos vivendo tempos muito turbulentos, de transição. É um período marcado por uma transformação na estrutura da sociedade. Antes, prevaleciam as sociedades verticais, em forma de pirâmide. Assim eram as monarquias, o feudalismo e as ditaduras. Agora, a democracia está se espalhando ao redor do mundo. Essa democratização acontece no trabalho, na estrutura familiar e na política. A pirâmide está sendo achatada, o que significa que todos querem participar das decisões que os afetam. No curto prazo, isso gera mais conflitos.”, afirma o antropólogo.
Willian Ury ainda aborda sobre a importância de pais e países evoluídos e democráticos serem terceiros nos conflitos familiares e de outros países, é a importância da participação dos cultos e moderados.
No dia a dia, para se evitar a violência nas relações humanas, ele sugere a tese de “sair para a sacada”, ou seja, antes de gritar, esbravejar, agredir, devemos refletir meditar e tomar decisões sábias.
***
Já para Herculano Pires, A violência do homem civilizado tem as suas raízes profundas e vigorosas na selva. O homo brutalis tem as suas leis: subjugar, humilhar, torturar, matar. O seu valor está sempre acima do valor dos outros. A sua crença é a única válida. O seu modo de ver o mundo e os homens é o único certo. O seu deus é o único verdadeiro. Só o que é bom para ele é bom para a comunidade. Os que se opõem aos seus desígnios devem ser eliminados pelo bem de todos. A violência é o seu método de ação, justificado pelo seu valor pessoal, pela sua capacidade única de julgar. Tece ele mesmo a trama de fogo do seu futuro nas encarnações dolorosas que terá de enfrentar.
Para Herculano este espírito brutal no ser humano refletiu até nas religiões, que se tornaram também violentas, fazendo de Deus uma divindade implacável praticando homicídios e genocídios em nome de Deus.

Criminologia

Os aspectos criminais não se concentram em um dos conhecimentos científicos, pelo contrário mantém relação com diversos deles. Uma pessoa não é só “violento”, seu caráter foi moldado por outros fatores.
A criminologia tem relações com a Psiquiatria, pelo ângulo patológico, com a Psicologia, por onde se estuda a delinqüência, com a Sociologia, pela influência do meio onde o cidadão vive, e Antropologia, pela importância do meio onde ele vive.
Para nós, espíritas, além de todos dos fatores materiais envolvidos, como o do direito e da educação, por exemplo, temos que levar em conta as questões reencarnatórias também.
Estamos diante de verdadeiro fenômeno de patologia social, sob este ponto de vista, a sociedade tem o seu lado bom, nas manifestações de pureza, dignidade, amor ao próximo, mas tem as suas doenças, como nos organismos biológicos. E a criminalidade é uma dessas doenças, relata o espírito Deolindo Amorim.

Razões da Violência

Ivan René Franzolim, analisando o Livro dos Espíritos, entendeu que, segundo o Espírito de Verdade (P. 785 do LE), os maiores obstáculos ao progresso moral são o orgulho e o egoísmo. Ambos caracterizam o sentimento ainda muito imperfeito que aliados à ignorância das leis naturais e seus mecanismos de atuação, originam as ações contrárias a essas mesmas leis constituindo a violência. Essa ignorância, no entanto, não nos exime de culpa e responsabilidade pelos nossos atos uma vez que a lei de Deus está escrita na consciência de cada um (P. 621 do LE), permitindo ao homem discernir sobre o bem e o mal. As imprudências cometidas sem intenção negativa ou consciência perfeita da situação estariam livres de culpa (P. 954 do LE), embora o Espírito mais adiantado se sinta naturalmente compelido a auxiliar àqueles envolvidos pela sua imprudência.
Já Divaldo Pereira Franco, em um documento elaborado sobre a paz para importante encontro mundial, declara que o ser humano, preservando uma herança ancestral, também se faz agressor do seu irmão, vitimado por fatores de profunda perturbação emocional, mental, social, econômica, religiosa, étnica, cultural, demonstrando que ainda não se identificou com Deus, ou se O conhece, seu relacionamento é superficial ou fanático, não lhe havendo permitido uma perfeita sintonia com a paz que dEle se irradia, e que deve estender-se por todo o mundo.
O tribuno não compreende como alguns acumulam fortunas incalculáveis e centenas de milhões de outros indivíduos vivem na miséria, sem a menor dignidade humana, experimentando a fome, a desolação, as doenças dilaceradoras variadas e a promiscuidade de toda natureza, havendo perdido, inclusive, o direito de existir.
Allan Kardec, nas observações à resposta da pergunta 685, do Livro dos Espíritos, menciona o desemprego generalizado como flagelo e miséria. Para ele os hiatos produtivos do ser humano podem causar uma descompensação na educação moral, a educação do comportamento e dos exemplos.

“Quando se pensa na massa de indivíduos lançados a cada dia na torrente da população, sem princípios nem freios e entregues aos próprios instintos, devem causar espanto as conseqüências desastrosas que resultam disso? Quando essa arte for conhecida e praticada, o homem trará hábitos de ordem e de previdência para si e para os seus, de respeito pelo que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos angustiado os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que uma educação bem conduzida pode curar; aí está o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, a garantia da segurança de todos.”, explica Kardec. (grifo do preparador)

Já na resposta da pergunta 930, de como os incapacitados farão para sobreviver, o Espírito de Verdade é enfático:
– Numa sociedade organizada de acordo com a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome.
Kardec na sua observação à resposta entende que, com uma organização social sábia e previdente, o homem pode carecer do necessário apenas por sua culpa, mas mesmo essas suas faltas são geralmente o resultado do meio onde vive. Quando o homem praticar a lei de Deus, terá uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade, e ele mesmo também será melhor.
O Espírito de Verdade vai mais além quando a pergunta é:
- Com que sinais uma civilização pode ser reconhecida como completa?:
– Vós a reconhecereis pelo desenvolvimento moral. Acreditais estar bem avançados, pelas grandes descobertas e invenções maravilhosas, e estais melhor alojados e vestidos do que os selvagens. Mas apenas tereis verdadeiramente o direito de vos dizer civilizados quando tiverdes banido da sociedade os vícios que a desonram e viverdes como irmãos praticando a caridade cristã. Até lá, sois somente povos esclarecidos, que percorreram apenas a primeira fase da civilização.
Tipos de Violências

Para catalogarmos a violência basta abrir o jornal do dia. Infelizmente os órgãos de imprensa, refletindo a vontade do próprio povo, dão um destaque enorme para os atos cruéis, programas com audiência fantástica até se especializaram no assunto.
A primeira violência a se referir é a que causamos a nós mesmos, dando vazão aos prazeres da matéria, esquecendo-nos que o fundamental é a evolução do espírito e o atingimento dos princípios cristãos.
Na sociedade a violência permeia pelo racismo, política, família, economia, religiões, honra, e tantas outras.
Existe até livro best seller para apontar os crimes mais famosos no mundo
Cada um de nós fica mais ou menos chocado com os tipos de violências, principalmente contra idosos, mulheres e crianças, por exemplo, tendo origem dos mesmos fatores já mencionados.
Entre os atos de violência um dos mais difíceis de combater é o da violência doméstica/intrafamiliar, principalmente as contra crianças e adolescentes. Pressões psicológicas, espancamentos, entre outras que minam sua auto-estima merecem nosso estudo e atenção.
Não podendo esquecer também de atos de intolerância, indiferença, assédio moral, desequilíbrio emocional e afetivo, entre outras.


Para lembrar alguns atos de rara violência, citaremos apenas três da história recente, os jovens que atearam fogo em um índio, depois ainda argumentaram que o confundiram com um pedinte; a filha que patrocinou e participou do assassinato dos pais a pauladas, e do pai que matou seus filhos para se vingar da mãe, sem contar inúmeros casos de membros da família, que são mortos por não fornecer dinheiro para drogas, não poupando nem a própria mãe.

Livre Arbítrio

Na Revista Espírita Allan Kardec, N.º 39, Umberto Ferreira explica que, depois de reencarnados, os espíritos conservam o livre-arbítrio. Podem desviar-se dos rumos traçados no Mundo Espiritual, abandonar os planos de trabalhar pelo próprio aperfeiçoamento e desviar-se para o caminho do mal. Os espíritos mais imperfeitos correm maiores risco de cometer tais desvios, enquanto os que já conquistaram certas qualidades costumam cumprir os planos traçados antes da reencarnação.
Deus não intervém. Deixa que suas leis se cumpram no momento oportuno. Ensina-nos Allan Kardec: "A prosperidade do mau não é senão momentânea, e se ele não expia hoje, expiará amanhã, ao passo que aquele que sofre, está expiando o passado" (O ESE, cap. V, item 6).
Fica claro, pois, que o próprio espírito, utilizando o livre arbítrio que Deus concede a todos, traça a sua trajetória de deslizes e crimes hoje e grande sofrimentos no futuro, ou de aprendizado, lutas e sofrimentos hoje e felicidade no futuro.

Como combater a violência

Neste ponto já podemos concluir que vai ser pelos princípios morais cristãos que combateremos a violência, nunca se esquecendo da necessidade de se alcançar alguns objetivos para este aperfeiçoamento:

Conhecer melhor a si mesmo;
Enriquecer o dia-a-dia o conhecimento espiritual;
Estimular continuamente o bem interior;
Trabalhar pelo auto-aprimoramento
Fazer o bem
Evitar o mal
Orar (e vigiar)
Exercitar a empatia - colocar-se no lugar da outra pessoa.
Jiddu Krishnamurti, filósofo indiano, alerta: "O homem ignorante não é o homem sem instrução; é aquele que não conhece a si próprio".
"Conhece-te a ti mesmo..., e conhecerás o Universo de Deus", frase atribuída por muitos ao filósofo grego Sócrates, o que nunca foi comprovado, mas que nem por isso perde sua importância no contexto deste trabalho.
Para Herculano Pires a tônica é o Cristianismo, pois somente ele mostrou-se capaz de reformular o mundo em sua globalidade. Para ele é importante que cheguemos ao futuro pelos meios adequados, com o mínimo de conflitos criminosos e o máximo de compreensão racional dos nossos objetivos. Lembra que, como observou Gandhi em suas memórias, os meios que nos podem levar à verdade e à dignidade só podem ser verdadeiros e dignos. Esses meios não precisam da justificação dos fins, pois se justificam por si mesmos.
As ações de combate à violência, por tudo que vimos, estão longe da idéia de fazê-la com mais violência. Elas transitam por uma melhor distribuição de oportunidades, uma melhor e equânime educação, ou seja, mais chances de uma vida digna a todos.
Na parte educacional, no livro O Mestre na Educação da FEB, Pedro Camargo (Vinícius), vai mais além:
Quando Jesus preconizou o - amai os vossos inimigos; fazei bem aos que vos fazem mal - não proclamou somente um preceito altamente humanitário, preferiu uma sentença profundamente pedagógica e sábia. A benevolência, contrastando com a agressão, é o único processo educativo capaz de corrigir e regenerar o pecador.
É muito fácil encarcerar ou eletrocutar um criminoso. Educá-lo é mais difícil, mais trabalhoso, demanda esforço, tempo, saber e caridade. Por isso, o Estado manda os criminosos à forca e as religiões remetem os pecadores, que não são da sua grei , para o inferno. Mas, se aquele é o único processo eficaz, procuremos empregá-lo, e não este, anticientífico, imoral e cruel.
A educação vence e previne o mal. O homem educado conhece o senso da vida, age conscienciosamente com critério, com discernimento: é um valor social. É pela educação que se hão de vencer os vícios repugnantes (haverá algum que o não seja? ), que se hão de domar as paixões tumultuárias que obliteram a inteligência e a razão. E, de tal modo, sanear-se-á a sociedade. (grifo do preparador)


As penas, inclusive a de morte

Nazareno Tourinho, por duas vezes, publicou no reformador observações sobre as penas que devem passar os criminosos, pela visão terrena, e porque o espírita não pode se aliar à idéia da pena de morte.
De plano afasta o “olho por olho, dente por dente”, já que é necessário respeitar os fatores e circunstâncias atenuantes ao delito. Por outro lado, argumenta que é obrigação do Estado proteger a sociedade e que a prisão perpétua, se cumprida, já é uma pena bastante rigorosa.
Com a morte por sentença, interrompe-se o plano de vida traçado pela espiritualidade e evita que o acusado tenha, ainda naquela encarnação, a chance do arrependimento e a infalível cobrança de sua consciência.
Por outro lado não se têm como esquecer fatos históricos de inúmeros inocentes condenados e executados, e que as leis que determinam tais mortes são feitas pelo homem e levam em conta questões religiosas, políticas, econômicas, entre outras.


Conclusão

O ser humano foi criado por Deus para fazer brilhar a Sua Luz, nós temos que ter como objetivo nos tornar Espíritos de Luz, e a primeira iniciativa é que nos desfaçamos das paixões e dos vínculos à matéria. Esse um caminho difícil, tendo em vista nossa imperfeição, mas o combate à violência, principalmente à que nos move, já é um grande passo.
Nossa missão é melhorar o mundo através da Lei Natural, o amor, sem regras ou condições, quando isso for possível, os seres humanos terão um só comportamento, ajudando-se mutuamente, afastando qualquer estado bélico ou agressivo.
O pensamento terá de ser harmônico, tendo Jesus e seus ensinamentos como meta, não afastando a firme convicção na imortalidade da alma e da justiça divina, sabendo que a fraternidade, o perdão e a caridade em relação ao próximo são fundamentais para tal objetivo.
Rezemos sempre para que nossos governantes não se esqueçam dos programas de educação e saúde, o saneamento, o trabalho digno, sem explorações, aperfeiçoando as crianças para evitar a perversidade futura.
O mal é a ausência do bem, cultivemos a paz em nossos corações para derrotarmos a violência e a maldade, e que Deus nos proteja nessa fase de transição.

Bibliografia e citações:

Documento remetido pelo tribuno e médium Divaldo Pereira Franco ao Secretário Geral do Encontro de Cúpula Mundial de Líderes Religiosos e Espirituais pela Paz Mundial.
Livro Violências, Pena de Morte e outros Dramas
Celso Martins, Ivan René Franzolim, Deolindo Amorim (espírito), entre outros.
J. Herculano Pires – Agonia das Religiões - Paidéia
Umberto Ferreira - Revista Espírita Allan Kardec, nº 39.
Pedro de Camargo (Vinícius) - em O Mestre na Educação. FEB
Amílcar Del Chiaro Filho – Jornal Verdade e Luz – julho de 2000
Bismael B. Moraes, livro Pena de Morte & Cremação Numa Visão Espírita (Dados Históricos, Procedimentos Legais - Normas, Requisitos e Objeções).
Nazareno Tourinho - Reformador dezembro de 1959 e junho 1993.
O Evangelho Segundo Espiritismo e o Livro dos Espíritos, por Allan Kardec, em suas partes mencionadas no corpo do trabalho.

sábado, 5 de janeiro de 2008

O ESPIRITISMO E A UNIVERSIDADE

O Espiritismo e a Universidade
Dora Incontri

Uma questão vital para o espiritismo é a sua entrada na universidade. Há no Brasil um grande contingente de acadêmicos espíritas, em diversas áreas do conhecimento. Mas até agora, pouquíssimos assumiram o espiritismo como um discurso científico válido ou se empenharam em demonstrar que Kardec foi um intelectual com contribuições importantes para a filosofia, a ciência, a religião e a pedagogia.

Alguns chegam a declarar a inutilidade de tal tentativa, por verem a universidade refratária ou por lhe atribuírem pouca importância, como cenário de debates. Muitos doutores têm uma vida universitária burocrática e, se espíritas, não vêem nenhum motivo para perturbar sua carreira, defendendo uma idéia marginalizada. Assim, a questão é a seguinte: é preciso mesmo levar o espiritismo para a universidade? Por quê? Para quê? Como? Para defender não só a necessidade, mas a urgência de se adentrar o mundo acadêmico com a proposta espírita, farei antes um breve histórico do papel da universidade através dos tempos.

UM POUCO DE HISTÓRIA
A universidade é uma das belas heranças que o final da Idade Média nos deixou.

Os séculos XII e XIII, que viram seu início, foram palco das mudanças sociais, culturais e políticas, que desembocariam no Renascimento. Aliás, o século XII é considerado como a primeira etapa do movimento que tomaria mais tarde esse nome.

Mas não se pense que a universidade era essa instituição morna e distante de hoje. O brilhante historiador Jacques Lê Goff, na obra Os Intelectuais na Idade Média, mostra como era a vida acadêmica de então. Primeiro, muitas das universidades foram fundadas a partir de corporações de estudantes ou professores. E mesmo as apoiadas por imperadores e papas exerceram um papel de democratização e renovação do conhecimento. Foi nessa época, que se deu a transmissão para o Ocidente dos tesouros gregos, que vieram reconduzidos à Europa, graças à exuberante cultura árabe (que, aliás, tinha suas universidades) e à cultura bizantina. Os embriões da ciência moderna começam aí, com o desenvolvimento da matemática, da medicina, da volta do direito romano... E a razão, também inicia seu processo de libertação da fé dogmática.

Do ponto de vista social, a comunidade estudantil representava o elemento transformador, inquieto e até rebelde que lançava as sementes de um novo mundo. No século XX, viu-se semelhante comportamento até a década de 60, antes dessa apatia acrítica que tomou conta da juventude pós-moderna.

Le Goff descreve como eram as aulas, pelo menos na universidade de Paris. Os professores debatiam publicamente com, alunos e professores rivais. Havia polêmicas abertas e podia-se propor de improviso ou para próximos encontros questões que o mestre teria de demonstrar sob rajadas de perguntas e contra-argumentos.

Ou seja, era preciso convencer o público e participante. Cenas assim podem ser vistas no filme Em nome de Deus, que retrata a e vida de Abelardo, dos primeiros mestres de Paris, Embora as questões então discutidas nos pareçam irrelevantes, porque em sua maioria eram sutilezas teológicas, não se pode negar que o processo da Escolástica medieval (em que pese toda a influência autoritária da Igreja) foi uma tentativa de racionalização da fé, Abelardo, por exemplo, um dos grandes racionalistas da época, que aliás rendia culto ao Consolador, pode ser considerado precursor de Descartes e até de Kardec. Foi quem libertou a lógica da teologia, firmando-a como ciência autônoma.

Nas universidades medievais, ao contrário do que se possa pensar, havia a representação de várias correntes e debates entre elas, Mas o ápice de tal pluralidade ideológica e cultural foi o período áureo da Espanha muçulmana (séculos XI, XII e XIII) onde cristãos, judeus e islâmicos tiveram pela primeira e única vez na história um intercâmbio pacífico de idéias, desencadeando o progresso científico e cultural da Europa, a partir do século XII,

Também nisto, a universidade teve papel preponderante, sobretudo a de Córdoba, fundada pelos árabes. Desta cidade aliás, veio um dos maiores sábios islâmicos, que exerceu influência sobre a cultura cristã, o médico e filosofo Averroes. Infelizmente, o fanatismo e a opressão fizeram o desfavor histórico de acabar com essa experiência fantástica de pluralidade cultural, mergulhando a Europa nas trevas da Inquisição. E justo na Espanha, em que essa democracia tinha sido praticada, houve a maior repressão, com a expulsão definitiva de judeus e árabes no século XV:

Depois, vemos no próprio Renascimento, o início da ciência moderna, com os arautos da astronomia e da matemática, tendo como cenário de seus estudos e docências as universidades criadas na Idade Média: Galileu foi professor das Universidades de Pisa e Pádua, Kepler estudou na de Tübingen e deu aulas na de Graz (Áustria), Isaac Newton foi professor de Cambrigde.

Também a Reforma passou pelas universidades. Já com os precursores: Jan Huss foi reitor da Universidade de Praga; John Wiclif estudou em Oxford e foi reitor de Filligham. Depois Lutero, foi doutor e professor. Comenius, que lançou a pedagogia moderna sob a inspiração da Reforma, esteve na Universidade de Heidelberg.

Mais tarde, toda a filosofia alemã, que daria uma guinada no pensamento ocidental, nos séculos XVIII e XIX, primeiro com a crítica da razão, feita por Kant, depois com a dialética de Hegel, de que nasceu a dialética marxista - e seus contemporâneos e sucessores -, todos estiveram ligados a universidades.

Nem é preciso citar o papel que elas tiveram no século XX, com seu potencial de pesquisa e discussão de idéias, além dos movimentos estudantis, como o de 68, que mudaram a face da juventude.

Esses exemplos são para mostrar que várias revoluções conceituais, científicas e sociais, propostas no Ocidente no último milênio, têm passado pelas universidades.

É claro que também observamos nesta instituição como em todas - o abuso do poder, as vaidades pessoais em detrimento da verdade, o conservadorismo e a estagnação que impedem o progresso e o pluralismo. Mas, apesar dos percalços que a imperfeita natureza humana sempre introduz nas melhores coisas, a universidade conseguiu alcançar seus mil anos, como instituição respeitável e digna de ser mantida, ainda que se possam propor inúmeras reformas para que se adapte ao século XXI.

A UNIVERSIDADE BRASILEIRA
Um dos fatos mais chocantes da história do Brasil foi o atraso em termos nossa e universidade. Todos os países da América (do Norte, Central e do Sul) tiveram as suas muito antes. Harvard (EUA) e Cordova (Argentina) foram fundadas no e século XVII. A do México, mais antiga, no século XVI. Peru, Venezuela e Chile têm universidades com pelo menos 150 ou 200 anos. A primeira universidade brasileira (a USP) é da década de 30 do século XX. Ou seja, esta instituição milenar não tem nem um século no Brasil.

Talvez por isso estejamos demorando tanto a pensar o mundo, de forma original, dando nossa contribuição filosófica e científica à humanidade. Salvo raras cabeças que se destacam como estrelas solitárias, não criamos escolas filosóficas, científicas ou pedagógicas. O que a maioria dos acadêmicos brasileiros faz é pensar segundo autores importados. Há mesmo um pânico generalizado e uma proibição implícita de se pensar por si. Um exemplo: alguém faz uma tese na História. Terá de optar por uma corrente como a marxista ou a história nova. Não há historiadores brasileiros, com proposta alternativa. Na filosofia, o mesmo. Podem-se estudar filósofos antigos e contemporâneos, mas onde estão os filósofos brasileiros? Há tomistas, marxistas, hegelianos, kantianos etc. em nossa universidade, mas onde alguém que tenha feito escola?

Mesmo quando o objeto é o Brasil, os métodos são importados, a ponto de antropólogos, sociólogos e economistas brasileiros (exceção feita a alguns do quilate de Darcy Ribeiro ou Sérgio Buarque de Holanda) olharem fenômenos de nosso país com um olhar europeu ou americano, como se fôssemos exóticos para nós mesmos. O espiritismo, mas também a umbanda e o candomblé, entram nesse contexto, pois alguns estudos antropológicos e sociológicos a respeito assumem um discurso de distanciamento, como se tudo isso não fizesse parte da nossa cultura. Ou seja, aquilo que é representativo entre nós só entra na universidade como objeto quase folclórico, nunca como voz representativa de um segmento. Um adepto do candomblé ou do espiritismo farão uma tese sobre os seus respectivos objetos, enquadrando-os numa cientificidade supostamente isenta, o que significa dizer, por exemplo, que os orixás ou os espíritos são categorias do imaginário.

Isso apenas para mencionar as áreas de humanas. Nas exatas e médicas, a impossibilidade de se alternar o discurso é maior. Nas humanas, há pelo menos a pluralidade de posições já estabelecidas lá fora. Nas outras, parece que não chegou aqui a discussão que, pelo menos na Europa, está abalando a forma positivista de fazer ciência, ou seja, o questionamento pós-moderno, que desconstrói a própria noção de ciência. Os alunos de química, medicina ou biologia continuam estudando suas disciplinas, como se elas não tivessem pressupostos filosóficos, sem qualquer reflexão ética ou epistemológica... Ou seja, faz-se ciência, sem se discutir o método científico.

O PARADIGMA DO ESPÍRITO
Se os acadêmicos espíritas brasileiros compreenderem de fato a que vem o espiritismo, perceberão que o pensamento espírita - assumido como uma visão de mundo, um método de conhecer e, portanto, um novo paradigma - é justamente uma possibilidade original de filosofar, de fazer história ou ciência. E essa originalidade pode ser uma contribuição espírita à cultura brasileira e, ao mesmo tempo, uma contribuição brasileira à cultura internacional.

Mas ela precisa ser construída. Está implícita em Kardec, mas longe de estar aplicada (com todas as suas articulações) nas várias áreas do conhecimento. E essa construção só pode ser, feita na universidade.

Em minha tese de doutorado Pedagogia espírita, um projeto brasileiro e suas raízes histórico-filosóficas (USP, 2001), procurei fazer isto. Não significa jogar fora as conquistas de 2500 anos de desenvolvimento filosófico e científico (que vêm desde os gregos), apenas para sermos originais. Aliás, o próprio espiritismo - poderão alegar- é uma doutrina importada da França, com antecedentes e condicionamentos históricos.

Mas, encarando essa herança como parte constitutiva de nossa cultura (pois é isso que se tornou) e buscando articular o pensamento espírita na sua coerência, originalidade e com nossa pitada de brasilidade, faremos o que nos compete para que o espiritismo dê a sua contribuição ao mundo. O Brasil é atualmente o único país que pode fazer isso, se abdicarmos da colonização intelectual, pois foi na Europa e nos EUA que os estudos espíritas foram silenciados. Na educação, fiz isso, mostrando que as raízes da pedagogia espírita vêm desde Sócrates e Platão, passando por Comenius, Rousseau e Pestalozzi, para desembocar em Rivail. Mas apontei a contribuição original, brasileira, de Eurípedes Barsanulfo, Herculano Pires, Anália Franco, Tomás Novelino, Ney Lobo, Vinicius, como exemplos de uma nova pedagogia.

Há que se fazer o mesmo em outras áreas e alguns já têm tentado isso. Um bom sinal é que tenho recebido e-mails do Brasil inteiro de jovens que já fizeram ou estão em vias de fazer monografias e dissertações sobre o espiritismo. Mas é preciso uma coragem moral, que às vezes os acadêmicos acomodados em suas cátedras não querem assumir, pois trata-se de desafiar o sistema, discutir idéias, condenadas por uma certa conspiração do silêncio. À coragem moral, deve-se aliar a competência, porque é preciso estar muito bem fundamentado para se fazer validar, ou pelo menos respeitar, algo fora do sistema. Estar fora do sistema explica-se em países onde o espiritismo desapareceu. Mas onde ele criou raízes e tem convicções entre pesquisadores, por que mantê-lo afastado da universidade, como se fosse suspeito?

O momento é propício e urgente para abrirmos caminho. Propício, porque podemos alegar que a representatividade social e cultural que o espiritismo adquiriu na sociedade brasileira lhe dá o direito de ser representado na universidade, como um discurso científico, ou ao menos filosófico. Se não nos deixarem fazer isso, então se trata de patrulhamento ideológico, que devemos denunciar. Urgente, porque, em benefício do próprio espiritismo, temos de compreendê-lo e praticá-lo como fermento cultural, para mudar as estruturas do pensamento humano e não apenas como mais uma religião que distribui passes, sopa e água fluida. Temos de fazê-la, como queria Kardec - ciência, filosofia, ética racional, religiosidade universal, de forma competente e bem articulada o que é indispensável para enfrentarmos a crítica de fora, mas impossível, se ficarmos fechados em nós mesmos.

Espanta-me que intelectuais espíritas, que deveriam compreender o espiritismo como um novo paradigma de conhecimento, o adotem apenas como credo religioso. São cientistas na universidade e espíritas no centro espírita, como se freqüentassem mais uma igreja, sem nenhuma conexão com suas vidas de pensadores e pesquisadores. Apenas se vencermos essa covardia ou cegueira, o espiritismo cumprirá sua missão histórica, que não é a de fazer proselitismo, mas de oferecer uma alternativa de visão de mundo respeitável e reconhecida, que se faça valer nesse espaço tão rico e antigo como a universidade, recuperando-a como um lugar de debate plural para enfrentar os desafios deste milênio.

Artigo publicado na coluna opinião, do Informativo Lachâtre de Setembro / Outubro de 2003.

(Publicado no Boletim GEAE Número 467 de 16 de dezembro de 2003)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

HEREDITARIEDADE FISIOLÓGICA E HEREDITARIEDADE PSÍQUICA

Hereditariedade fisiológica e hereditariedade psíquica
Domério de Oliveira

de São Paulo, SP

Sob a ótica da Medicina Legal, hereditariedade é o fenômeno biológico pelo qual se opera a transmissão de caracteres físicos e morais dos pais aos filhos. Temos, assim, a hereditariedade fisiológica que, por si mesma, não pode explicar determinados fatos que vão além dos seus acanhados limites. Há certas particularidades, no campo da hereditariedade, que demonstram heranças que nada têm a ver com os caracteres biológicos dos ascendentes. Filhos de pais, sem quaisquer índices de inteligência, nascem com faculdades intelectivas fulgurantes e com inatas vocações para as artes, para a ciência, para a literatura, a música e outros ramos do conhecimento. Assim sendo, a hereditariedade, no seu amplo sentido, para ser melhor compreendida, tem de ser completada, também, com o conceito da hereditariedade psíquica, ou seja, aquela herança que o Espírito já traz consigo mesmo, quando retorna o vaso carnal. Meus amigos, quem, a não ser o Espírito Imortal, pode constituir o fio condutor que, através de um contínuo nascer e morrer de formas, rege o desenvolvimento da evolução? Sim, através das múltiplas vivências, o Espírito vai amadurecendo e acumulando experiências, bem como, vai adquirindo cultura, patrimônio inalienável que o acompanha. Daí, então, a hereditariedade psíquica que transcende as barreiras da hereditariedade fisiológica. Esse conceito de hereditariedade psíquica, por certo, conduz à inevitável conclusão extraída de fatos já vivenciados relativos à sobrevivência de um Princípio Psíquico depois da morte. Sócrates já nos ensinava que "viver é recordar".

Os animais, nossos irmãozinhos menores, também, possuem o seu "corpo astral", (Perispírito), que sobrevive à morte do corpo físico e que é, justamente, aquele "fio condutor", ligando as numerosas fases das reencarnações.

Sim, meus amigos, se o Psiquismo, (Espírito), já está demonstrado, como fazendo parte dos fenômenos biológicos, forçoso é admitir que ele, assim como sobrevive à morte orgânica, deva preexistir ao nascimento. Ao Espírito são confiados os últimos produtos da vida e a continuidade do transformismo evolutivo, como Unidade Diretora que é de todas as suas formas sucessivas. A hereditariedade nos apresenta determinados fenômenos que só podem ser explicados à luz da hereditariedade psíquica, ou seja, o Espírito herdando de si mesmo as suas qualidades ou os seus defeitos. Quantas vezes, os filhos superam os pais e os gênios nascem de antepassados medíocres! Como pode o mais ser gerado pelo menos?

Entre pais e filhos prevalecem mais as semelhanças orgânicas do que as qualidades psíquicas. Notemos que a gênese do psiquismo, a formação do instinto, da consciência, por certo, são problemas de outra maneira insolúveis, caso não sejam analisados e equacionados à luz da legítima herança psíquica.

Um rio não pode criar-se a si mesmo; também o Espírito não pode criar-se a si mesmo. E, como o rio, o Espírito percorre uma longa distância, vencendo os acidentes da jornada, para alcançar a amplidão do oceano. Não podemos aceitar a tese de algumas crenças de que a Alma nasce com o corpo. Nesta hipótese, se a Alma nasce com o corpo fatalmente deve morrer com o corpo e, nesse caso, a lógica nos conduzirá ao mais desesperado materialismo. Isso não é verdade, porque já está provada cientificamente a sobrevivência do Espírito.

Meus amigos, tudo obedece a uma lei fatal de causalidade, uma lei íntima, invisível e inviolável, contra a qual nada podem a astúcia e a prepotência. Nunca se pode fugir às conseqüências das próprias ações. O Bem ou o mal que alguém faz, o faz para si mesmo.

Devemos considerar que antes da hereditariedade fisiológica, há uma hereditariedade psíquica que se sobrepõe àquela, resumindo todas as nossas obras e encerrando o nosso destino.

Mantemos com os nossos Pais uma relação de afinidade. Por isso mesmo reencarnamos nos ambientes onde devemos reencarnar e cruzamos com aquelas criaturas que devemos cruzar, ou por um toque de bem querer ou para restabelecimento de elos partidos.

Nossos Espíritos, normalmente, escolhem o lugar e o tempo em que, prescientes das provas, as têm que vencer.

Curvemo-nos, assim, ante nossa hereditariedade psíquica, pois, espiritualmente, somos os nossos próprios herdeiros e, assim sendo, temos que arcar com a partilha dos nossos Bens ou dos nossos males.

(Jornal Verdade e Luz Nº 166 Novembro de 1999)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

BIOÉTICA E ESPIRITISMO

A Bioética e o Paradigma Espírita
Nubor Orlando Facure

O progresso científico nos faz crer que estamosrompendo as fronteiras do impossível e a ousadia dos cientistas parece atropelar a ficção e provocar uma rotura no mito da criação. A cadanova descoberta que nos surpreende ficamos com a impressão de queestamos indo longe demais e o sistema de frenagem parece que ficou fora do nosso alcance. Cada descoberta, no entanto, revela o paradoxo que expõecom mais ênfase as nossas contradições : o que passamos a saber demonstra com mais força o que ainda não sabemos.

Identificamos as sub-partículas da matéria, sua equivalência com a energia e dissecamos um feixe de luz em ondas e em “quantas” de energia. Desconhecemos, porém, qual é a essência da energia, de onde provem a matéria que nos impressiona e não temos ainda uma noção muito segura dos fundamentos do Universo.

Dissecamos a célula, recombinamos sua química, traduzimos seu código reprodutor e ousamos alterar o abecedário genético. Podemos fazer cópias de qualquer forma de vida e dotá-las de aparências ou aptidões previamente escolhidas. Desconhecemos porém qual é a essência que produz a vida e de onde provém esta força que dá vida às células. Não temos, também, uma noção muito segura dos fundamentos que nos apontam qual é a origem da vida.

Os aparelhos de ultra-somnos permitem “ver” a criança dentro do útero em três dimensões. Podemos identificar seus defeitos estruturais confirmando precocemente a existência de malformações fetais.A biópsia das células da cavidade amniótica dentro do útero nos dão um registro de identidade da criança bem antes dela nascer. Ficam assim, os pais e o médico com a possibilidade de decidir sobre o ônus de continuar ou não a gestação de uma criança que se apresentará com paralisias ou retardo pela vida toda. Precisamos saber, porém, se interromper esta vida não significa perturbar o desenrolar de uma outra vida que transcende as expressões da matéria, para a qual, a deformação física faz parte das suas necessidades. Não há como fazermos esta pergunta para esta criança antes que ela venha ao mundo, mas sabemos que as que estão entre nós, mesmo ferindo suas pernas quando tentam caminhar, contorcendo suas mãos quando tentam escrever ou mastigando as palavras quando tentam falar, estas, mesmo assim, querem viver. E, se possível, de mãos dadas com as suas mães.

Os meios de cultura, os microscópios e os delicados instrumentos de manipulação das células nos permitiram lidar com o óvulo e o espermatozóide com a mesma facilidade com que Mendelcombinou as flores e as ervilhas do seu jardim. As cores das ervilhas e das florespodem variar com a mesma facilidade com que podemos escolher o sexo, a cor da pele e a cor dos olhos para as nossas crianças. Estes filhos, porém, não trazem consigo, a certeza da felicidade, do respeito à vida ou a obediência aos pais quando estes souberam apenas fornecer o material genético que a reprodução assistida facilitou. Precisamos esclarecer se antecedendo a forma física não existe um ser transcendente cujas qualidades e aptidões nos são inteiramente desconhecidas.

Os equipamentos médicos de respiração assistida prolongama vida de milhares de pacientes que a UTI teima em salvar. Os transplantes de órgãos dão ao paciente a oportunidade de um renascer na jornada da vida. Os imunossupressores controlam a rejeição nos transplantados e reduzem as respostas indesejadas em inúmeras doenças que a imunologia está esclarecendo a causa. Aplicações que atingem diretamente o sistema nervoso estão controlando dores terríveis que incomodam os pacientes com câncer. Estes progressos todos, porém, não conseguirão nunca solucionar o dilema da morte e do sofrimento que as vezes a antecede. Por outro lado, estes recursos que aliviam e prolongam a vida, podem, com a mesma competência, serem postos a disposição para decidir a data da morte ou a interrupção do sofrimento. O recurso da tecnologia veste a toga de juiz no médico que não sabe ver um sentido purificador de Almas quando a dor se torna crônica ou incontrolável. Precisamos saber se aliviar o sofrimento físico não precipita um compromisso maior ou se compromete um resgate que estaremos adiando.

O homem está acostumado a usar sua inteligência para fragmentar seus problemas e com isto poder dominá-los. Hoje, a extensão do nosso conhecimento nos permite perceber que esta separação “espedaça o complexo do mundo em fragmentos desconjuntados”,fraciona um problema específico mas cria um dilema gigantesco pela repercussão no todo. Este modelo de fragmentação e a competência tecnológica que ele proporcionou, não são suficientes para resolver as contradições do nosso mundo interior. Temos de rever nossas posições éticas com argumentos que extrapolem os limites e o alcance da Ciência. Principalmente, por que nos falta responder aquelas perguntas essenciais que esclareçam quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Nos dias de hoje estes dilemas nos parecem serem inadiáveis.

Os dilemas da ética de hoje nos empurraram precipitadamente parao aborto que descarta a criança malformada; a eutanásia que apressa a morte pressupondo alívio do sofrimento; a gestação de crianças sem vínculo afetivo com os pais; a manipulação genética que poderá escolher a aparência física; a vida psico-social do organismo completo, em contraposição à vida biológica demeia dúzia de células embrionárias fecundadas em laboratório. Parece que não nos damos conta de estarmos esticando ou cortando o fio da “teia da vida”.

Em 1857 Allan Kardec codificou uma Doutrina de bases científicas, filosóficas e religiosas. Entre seus princípios se afirma que a fé tem de se submeter ao critério de racionalidade. Seus enunciados científicos não se prendem às amarras de uma ciência que só consiga enxergar o mundo material que impressiona nossos limitados sentidos. Suas verdades estão sujeitas ao progresso humano que a própria Ciência tende a promover.

O seu conteúdo foi fornecido por Espíritos que acompanham e promovem o desenvolvimento da Humanidade. Eles afirmaram que somos todos Almas imortais que ocupamos provisoriamente um corpo físico que nos permite viver experiências que, de simples e ignorantes, nos tornarão sábios e puros de coração. Este processo de evolução se faz numa sérieincontáveis de reencarnações que se processam na Terra e em outros planos da criação divina.

Esta Doutrina nos revela que o aborto destróia vida biológica e impede a reencarnação do espírito que habita este corpo desde a fecundação, comprometendo sua evolução espiritual.

A eutanásia adia o resgate e a reparação de débitos contraídos pelo espírito, cujo corpo sofre para possibilitar sua redenção. Isto não significa evitar meios de aliviar a dor ou o sofrimento, mas, de impedir que se utilize a morte como recurso terapêutico.

Cada um de nós recebe ao reencarnar, o corpo mais adequado às suas necessidades espirituais. A manipulação genética visando os benefícios e as dificuldades que este corpo venha a se manifestar, são estabelecidas por entidades espirituais que zelam por nosso progresso. A evolução do conhecimento humano vai possibilitar que o médico-cientista participe e favoreça nossas possibilidades físicas, mas, jamais nos livrará dos compromissos cármicos que nossos débitos pretéritos impõem como conta a pagar em nosso próprio benefício.

Nossa vinculação familiar já esteve ligada ao sobrenome ou aos títulos de nobreza. Hoje, está determinadapelos laços matrimoniais ou pela paternidade reconhecida no DNA. As técnicas de reprodução estão desmontando todos estes vínculos físicos,carnais,mas não conseguirão nos desfazer dos compromissos que deixamos de cumprir diante de irmãos de outras vidas, que mais cedo ou mais tarde, cruzarão nosso caminho, atraídos pela vibração que as algemas da culpa ou os laços de amor nos impulsionarem.

Ensinam os Espíritos que a reencarnação tem início no momento da fecundação através de processos complexos que exigem a “regressão” do corpo espiritual do reencarnante, a ordenação do patrimônio genético que ele vai receber e a conjunção de forças de atração exercidas pelos futuros pais. Esses Instrutores espirituais nos anteciparam que a fecundação e o desenvolvimento do embrião pode ocorrer sem a presença de um espírito assumindo este corpo. Este fato pode nos permitir imaginar que a fecundação em laboratório ocorre desprovida de um espírito em suas células e a gravidez só será bem sucedida quando a conjunção de diversos fatores ligados a participação de um espírito e a conjunção de vibrações dos pais promoverem a sintonia desta união.

Quando Allan Kardec perguntou aos Espírito qual o nosso maior direito, eles responderam que é o direito de viver. A vida é a maior expressão da criação de Deus. Ainda não temos alcance suficiente para compreender a extensãoda criação divina que expressa vida em tudo que existe. Os Espíritos, no entanto, ensinaram que o princípio inteligente deverá percorrer toda jornada de evolução, do átomo ao arcanjo.

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Nubor Orlando Facure, CRM-SP 11789, é diretor do Instituto do Cérebro de Campinas, e ex-professor titular de neurocirurgia da UNICAMP. Diversos de seus textos na interface ciência-espiritismo, bem como referências a suas publicações recentes nessa área